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Só filmes de quadrinhos, remakes e continuações fazem dinheiro em Hollywood. Isso é bem bom e bem ruim

Vamos ver mais mais filmes experimentais e de autores, mas vamos ver cada vez menos filmes nas salas de cinema

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Dos dez filmes mais vistos no Brasil em 2016, seis eram adaptações das histórias em quadrinhos (Guerra Civil, Batman e Superman, Esquadrão Suicida, Deadpool, Dr. Estranho e X-Men), três eram continuação de filmes conhecidos (Era do Gelo, Procudando Dory e Animais Fantásticos), com o topo tomado pelo famigerado filme bíblico que bateu recordes de bilheterias esgotadas com salas completamente vazias.

Nos Estados Unidos não foi diferente (5 adaptações de HQs, 2 animações, 3 continuações, uma delas a de Star Wars) e nem no resto no mundo (worldwide, 4 revistinhas ficaram na lista, com 3 continuações e 3 animações). 

"Nossa, eu tô nas tries listinhas?". Tá sim, cara.

Só isso não quer dizer lá muita coisa além da prioridade dos estúdios em Hollywood em alavancar ao máximo seus blockbusters pra fazer grana. Claro.

O copo (cinema) meio cheio

Parece uma ideia ótima! Os estúdios encontraram uma maneira de fazer rios de dinheiro com poucos filmes certeiros, aqueles que trazem uma renda monstruosa e deixam espaço para que se produzam mais obras de autores, outros filmes com mais liberdade, coisas como o próprio Moonlight, ganhador do Oscar de melhor filme que custou ridículos cinco milhões. 

Uma divisão honestíssima! Ganha-se muito pela porta da frente e lança muita coisa boa e livre pela porta dos fundos. Menos pressão pra vender, mais tempo para se fazer, maior interesse dos envolvidos em produzir algo que realmente valha a pena se esforçar, circuito de prêmios, entra naquela categoria cult ou chique que, no longo prazo, todo mundo quer ver.

Mias grana pra quem faz, mais liberdade pra quem faz, mais coisa boa pra quem assiste.

"Ah, que demais!"

Não tem como dar errado, tem?

O copo (cinema) meio vazio

Mas daí essa semana a Folha divulgou informações sobre os recentes fracassos de grandes nomes do cinema. Gente como Brad Pitt, Jannifer Lawrence, Ryan Gosling (que estava no super badalado La La Land este ano) e Ryan Reynolds (que está, ao mesmo tempo, no topo de todas as listas com seu Deadpool).

Como atores e atrizes que chamam tanto público conseguiram que seus filmes fizessem tão pouco sucesso? "[Eles] já não chamam mais público, se têm diante de si uma franquia ou título que tem alguma ressonância na cabeça do público. Pense em super-heróis, adaptações de videogame e até versões em carne e osso de desenhos clássicos".

Um baita combo. Títulos que geram buzz, curiosidade, discussões na Internet, engajamento. "Será que vai ser tão com quanto o outro?" ou "duvido que seja tão bom quanto o quadrinho" vão pipocando em tudo que é lugar e, junto com a publicidade massiva, a coisa anda e o filme vai lá bater a casa dos bilhões.

"Ninguém veio me ver esse ano"

Soma-se a isso um fator importante, já pegando mais o recorte aqui no Brasil: o ingresso do cinema tá cada vez mais caro, tirando muita gente do circuito cotidiano de ir até uma sala escura ver filmes. Se, por aqui, já há pouca demanda para filmes que não sejam esses blockbusters de sucesso (pergunte a qualquer pessoa que more no interior do Brasil quantos filmes menores chegam em suas cidades), com um ingresso que pode chegar a 8% do salário mínimo, a rotina é escolher mais a dedo com qual película você vai gastar seu dinheiro. 

E aí a balança pesa. Ver um filme que tão dizendo por aí que pode ser bom, que foi seleção de Cannes, se Tribeca, de Sundance... ou ir se divertir com a gatinha ou os amigos no filmão de herói que vai render três dias de conversa se é, de fato, bom ou não?

Daí eu pensei que, mesmo assim, todo mundo poderia assistir aos filmes por outros meios, aqueles conhecidos na Internet. Mas, pegando logo de cara, metade dos brasileiros ainda nem acessam a rede. Disso, quantos efetivamente saberiam encontrar lá naquele site gringo os filmes indie mais esperados de 2017? E nem estou falando de coisa obscura, mas filmes interessantes com nomes conhecidos como Kristen Stewart em Personal Shopper, Brie Larson em Free Fire, Ryan Gosling em Song to Song, Woody Harrelson em Wilson, Anne Hathaway em Colossal, Charlie Hunnam e Robert Pattinson em The Lost City of Z, que conta a história do explorador que inspirou Indiana Jones e sua expedição justamente aqui no Brasil, atrás da cidade perdida de Z, uma história real e que teria tudo pra bombar demais aqui.

"Cêis vêm ver meu filme, né?"

Mas ninguém vai ver. Não por aqui.

O paradoxo em que nos encontramos

Mais obras serão feitas, mas menos coisas aparecerão nos cinemas brasileiros. Mais dessas adaptações vão faturar pesado no mundo e menos coisa variada vai pintar no cardápio.

E percebam que em nenhum momento há a crítica aos filmes que bombam. A questão não é nem de preferência ou qualidade, de elitismo nariz em pé que afirma o que é cinema e o que não é cinema. 

Mas variedade. Escolha. Possibilidades. Elas estão cada vez mais minadas a ponto de nomes grandes serem ofuscados. Isso que estamos falando das estrelas de primeiro escalão. Imagine só. O próprio Silêncio, filme do Martin Scorsese, um dos maiores diretores de todos os tempos e chamariz de bilheteria, foi completamente eclipsado por aqui, saindo em uma sala ou outra.

Ou seja: quanto mais filme, menos filme.

Que baita pena, não?

Obs.: Este texto foi produzido do outro lado do mundo, no Japão! Estou em viagem na terra do sol nascente e escreverei daqui pelos próximos dias, com a ajuda da Seta Viagens, que me botou aqui. Acompanhem meus próximos artigos lá na minha página de autor.


publicado em 18 de Abril de 2017, 00:00
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Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.


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