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Super-heróis, pais e filhos

A paternidade como característica de personagens como Batman e Superman é a nova aposta de editores e roteiristas para criar ressonância com o público leitor no século XXI

Não é de hoje que super-heróis decidem dar aquele passo adiante e se casar. Um dos primeiros foi Reed Richards, também conhecido como Senhor Fantástico, esposo de Sue Storm, a Garota Invisível, em 1965. O Quarteto Fantástico sempre foi uma família, portanto a mudança de estado civil de dois de seus membros pouco afetou a dinâmica da equipe e suas histórias.

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Bem diferente foi o caso do 21º Fantasma, Kit Walker, que se casou com seu eterno crush, Diana Palmer, na sequência de histórias publicadas entre 1977 e 1978. Ainda que o Fantasma não seja um super-herói a rigor, o casamento impactou o personagem e a mudança nas histórias foi sensível. O mesmo aconteceu com a alteração do status civil de Peter Parker, o Homem-Aranha, que casou-se com Mary Jane Watson em 1987.

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O casamento do Aranha se manteve por 20 anos, até ser apagado da cronologia oficial do personagem nos quadrinhos, sem lá grandes explicações, na saga One More Day, de 2007. A percepção dos editores foi que um Peter Parker casado e com responsabilidades dificultava sua identificação com leitores adolescentes e que seria mais interessante o personagem voltar à solteirice para conectar-se com estes jovens, o suposto público-alvo das HQ’s do herói.

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Algo parecido aconteceu também com o Superman. Casado com Lois Lane desde 1996, a cronologia do herói foi apagada e o personagem foi rejuvenescido durante a grande reestruturação do Universo DC na fase Novos 52, em 2011. O casamento do Superman (e até seu interesse amoroso por Lois Lane) foram sumariamente apagados. A ideia dos editores foi a mesma que motivou o fim do casamento do Homem-Aranha: um herói jovem e solteiro se conectaria melhor com o leitor de suas histórias.

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Pelo menos no caso do Superman essa percepção estava equivocada. Em que pese a escolha de um nome de peso da indústria como Grant Morrison para escrever suas histórias na fase dos Novos 52, o novo Superman era por demais diferente de sua antiga versão e não gerou a identificação almejada com seus leitores.

Recentemente, na fase Renascimento, o antigo Superman foi trazido de volta não só casado com Lois Lane, mas também com um filho de cerca de 10 anos chamado Jon Kent. Interessante notar uma mudança de percepção tão grande dos criadores em tão pouco tempo: se em 2011 julgou-se que um Superman casado afastaria leitores, em 2015-2016 um Superman pai de família foi a estratégia pensada para atraí-los, que se mostrou acertada.

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Em entrevista um dos criadores da atual fase, Peter J. Tomasi, diz que ver o Superman como uma figura paterna é algo natural, pois ele é o primeiro dos super-heróis, e essa é uma ideia com a qual qualquer um pode se conectar. Patrick Gleason, que também colabora na atual fase, a resume da seguinte forma:

"Todas aquelas coisas que sabemos que o Superman defende - verdade, justiça e o modo de vida americano - nós queremos reavivar isso mais uma vezEspecialmente hoje em dia, quando isso é tão difícil, nós realmente queríamos fazê-lo defender o que ele sabe ser certo e dar aquele sentido de esperança, mesmo que pareça meio ingênuo. Todos conhecem esse aspecto do Superman, mas nós realmente queremos fazer disso um tema central. Com a nova família, todos estes valores são testados quando você tem um filho, que se espelha em você, e uma esposa que trabalha junto com você como um time para criar este filho. Suas ações refletem aquilo que você diz? E como isso se traduz aos olhos do filho deles, mais ainda quando a vida dele está se complicando por conta de superpoderes? É algo simples, mas para nós, o aspecto mais interessante da história é a relação familiar."

E não foi só o Superman que entrou para o time dos pais de família. Ao que tudo indica, parece que até o Batman vai casar. Embora, como sempre, as coisas com o Batman sejam sempre mais complicadas.

Nas histórias em quadrinhos, desde 2006 Batman já tem um filho, Daiman Wayne. Recuperado da história O Filho do Demônio (Mike W. Barr/Jerry Bingham, 1987), o personagem foi a grande contribuição de fase de Grant Morrison à cronologia do Homem-Morcego.

Filho de Bruce Wayne e Thalia al Ghul, Damian foi treinado pela mãe no seio da Liga dos Assassinos. Thalia é a líder da organização e filha de um dos vilões mais interessantes do Batman, Ra’s al Ghul - tornado conhecido do grande público no filme de Chris Nolan, Batman Begins, de 2005. Batman desconhece o fato até ter contato com o garoto no arco Batman e Filho e então toma a única decisão possível para um herói: ser um pai para seu filho, que posteriormente ocupa o posto de Robin.

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Aqui podemos ver um traço comum entre os personagens, pois tanto Superman como Batman têm pais importantes em suas trajetórias. No caso do Superman, assimila os valores humanos com Jonathan Kent sem renegar a origem kryptoniana com Jor-El, encontrando o próprio caminho entre as duas heranças. Já no caso de Batman, a ausência do pai, Thomas Wayne, determina seu juramento de combater o crime, moldando toda sua trajetória.

Mas agora os dois não são mais apenas filhos, são pais. E isso muda tudo.

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A busca pelo pai é um tema arquetípico que se repete em diversas mitologias. O encontro do pai é o encontro com o próprio caráter e o caráter é o destino do herói. Portanto, quando o herói procura pelo pai, simbolicamente está procurando pelo próprio destino. Isso não sou eu quem digo e sim Joseph Campbell, um dos maiores estudiosos de mitologia que já existiu.

E não só Campbell. É o próprio Freud quem diz que “o destino, em última instância, não passa de uma projeção tardia do pai”. Portanto esses dois grandes pensadores estão de acordo com a importância do pai para a construção de quem somos.

O Herói é identificado com a figura do Filho, mas tanto Superman quanto Batman já superaram essa fase. Já encontraram seu destino e seu caráter. Agora eles estão do outro lado da relação, representando o caráter a ser encontrado por seus filhos, serão guias na jornada heroica de Jon e Damian.

Parece que Superman e Batman amadureceram junto com seus leitores. Eles estavam lá quando éramos filhos e agora também estarão para nos guiar como pais.


publicado em 25 de Agosto de 2017, 00:05
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Bruno Andreotti

Aficionado por super-heróis em geral desde a série estrelada por Adam West e mais ainda pela mídia na qual nasceram, os quadrinhos. Escreve periodicamente sob pseudônimo de Nerdbully no blog Quadrinheiros, com canal e podcast.


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