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Turismo de Empatia ou porque eu fui ao Oriente Médio em meio a uma guerra

Foi com Miski e Samsa que eu aprendi o que era empatia e descobri a riqueza em se conectar ao outro

Nos dedos de Miski, acariciando de forma delicada o curativo sobre o meu pulso, descobri o que era empatia.

A pequena refugiada síria, que momentos antes estava sem graça por ter exposto uma grande cicatriz em seu quadril, tentava me confortar em árabe pelo machucado que não via, mas imaginava existir ali em meu braço.

Ela, com sua voz fina e doce, repetia as poucas palavras de afeto que havia aprendido em seus cinco anos enquanto me olhava nos olhos com a cumplicidade de quem sabe o que é ser ferida. Meu coração se partia a cada novo carinho sobre o esparadrapo que, na verdade, escondia apenas uma tatuagem em hebraico.

Esse foi só o início de uma grande viagem pelo Oriente Médio, cujo foco não eram as atrações arquitetônicas, naturais ou gastronômicas, mas as pessoas, suas histórias, medos e sonhos...

...ou Turismo de Empatia

Eu não estava na Jordânia e não iria para o Curdistão Iraquiano fazer trabalho voluntário ou escrever uma grande reportagem. O que desejava mesmo era ouvir as vítimas da guerra e do Estado Islâmico, conviver com aqueles, ou melhor, com aquelas que lutam diariamente contra o radicalismo religioso e a falta de perspectivas.

Tudo começou com uma foto, de uma mulher na caçamba de uma pickup, tirando um manto negro que cobria o seu corpo e revelando um vestido vermelho com bolas amarelas e azuis, em uma alegria e liberdade tão arrebatadoras que era impossível não se emocionar com ela.

A legenda, em inglês, dizia que a cena foi registrada na fronteira da Síria com o Curdistão – região autônoma onde vivem os curdos –, após a mulher conseguir ser resgatada de um território sob domínio do ISIS

Naquele momento, eu senti que precisava conhecê-la e, mais que isso, queria conviver com as pessoas que formam o Oriente Médio e que estão escrevendo uma nova história em meio ao caos.

E é assim que eu acredito que nasce o turismo de empatia, a partir de uma curiosidade ou questionamento tão forte, que te faz sair da sua zona de conforto e entrar em um local desconhecido e sagrado: o coração do outro.

Nas trincheiras

Antes da viagem, pesquisei sobre a história recente dos países que visitaria, li livros e notícias sobre o Estado Islâmico, a Primavera Árabe, o Islã e o Curdistão.

Também fiz um intensivão de inglês, comecei a treinar Krav Maga (a autodefesa israelense), entrei em contato com brasileiros que viviam no Oriente Médio e combinei visitas a projetos sociais locais.

Mas nada me preparou para Miski. Nem para Samsa. Nem para os olhos interessados e generosos de todas as outras meninas que cruzaram o meu caminho.

Por meio das crianças refugiadas, aprendi que empatia não é uma via de mão única, em que a estrangeira sente compaixão das pequenas vítimas da guerra, mas sim um espaço compartilhado, onde meninos gêmeos travam uma batalha com leões e elefantes de borracha para me proteger, enquanto seus pais contam sobre a triste trajetória de cruzar fronteiras a pé.

Eu, com os olhos nos dois irmãos e os ouvidos no mundos dos adultos, recebo e sinto empatia, em um fluxo que nos torna mais humanos e nos aproxima, sobrepondo barreiras culturais e religiosas.

E a partir do momento em que expando meus horizontes através da experiência do outro, o mundo não parece mais um lugar tão assustador e perigoso, mesmo que eu esteja a apenas 50km de um dos piores grupos terroristas da atualidade, mesmo que o espaço aéreo seja fechado por conta dos mísseis russos ou que eu saiba da possibilidade de ser vendida, só por ser mulher e estar sozinha.

Ao sentir a dor do outro, que agora também é minha, o medo torna-se pequeno frente ao ato de coragem que é seguir adiante. Por isso, quando voltei dessa viagem, decidi publicar um livro com algumas histórias que ouvi e vivi no Oriente Médio.

Ajude o projeto Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio

As vidas com as quais cruzei virarão um livro cujo lucro será enviado para os projetos de assistência a refugiados que conheci na Jordânia e no Iraque.

Para publicá-lo, conto com a colaboração de sonhadores, através de um financiamento coletivo. O livro, que se chama Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio, conta com crônicas que escrevi sobre a minha experiência, dicas de locais que conheci – como Petra e Jerash –, além de um passo a passo de como montar uma viagem como essa, onde o mais importante são as pessoas e não os lugares.

Pra fazer o projeto rodar preciso arrecadar R$30 mil até o dia 6 de fevereiro e já estamos quase lá, com cerca de R$22 mil.

Você também pode ver a história completa da Miski e mais alguns textos que estarão no livro, no meu blog.


publicado em 19 de Janeiro de 2016, 12:35
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Talita Ribeiro

Produtora de conteúdo especializada em turismo, embarcou no mês de novembro em uma viagem pessoal pelo Oriente Médio, onde visitou a Jordânia, o Curdistão Iraquiano e a Turquia - e foi barrada no aeroporto do Líbano. Lá ela conviveu com refugiados sírios e iraquianos, que a inspiraram a escrever o seu primeiro livro Turismo de Empatia: Refugiados no Oriente Médio.


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