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Um brinde ao boteco copo-sujo

Um lugar físico não tem assim tanta força. Não a ponto de influenciar uma vida.

Essa força só existe quando o local transcende a sua materialidade e se torna algo mais, uma ideia, um lugar tatuado na alma.

Certa vez recebi um elogio comum, mas que para mim foi importantíssimo: “Você é inteligente”. Apenas uma vez recebi esse elogio, mas veio de alguém especial o suficiente para eu saber que foi dito com verdade. Devo esse elogio, além da própria amizade com esse alguém especial, a um lugar. O James. Apelido carinhoso para um bar copo-sujo, escuro, com uma jukebox, uma mesa de sinuca e com um banheiro de dar medo.

A placa na porta dizia “Feijão com Arroz”, mas na minha cabeça ele nunca poderia ser chamado assim. Na verdade, feijão com arroz é o nome mais oposto a tudo que o James representava.

Cheguei ao terceiro ano do colégio sendo um bom nerd, com todas as qualidades implícitas. Nunca gostei dos popularzinhos do meu colégio, conhecido por ter o maior rebanho desse gado. Precisava sair, aproveitar e começar a beber em algum lugar longe deles. Caí no James.

Foi um ano diferente de todos na minha vida. Provas sexta à noite, um amigo morando sozinho e quase idade para poder ser preso. Poderia muito bem ter sido um ano normal de 17 para 18 anos, e talvez o fosse, se eu não tivesse conhecido o James.

Me disseram logo de cara: a primeira regra do banheiro do James é "não olhe para cima"

Íamos eu e dois amigos, famosos irmãos de outra mãe. Depois das provas, era sagrado. Ninguém que conhecíamos gostava de lá. Diziam que tinha mendigo cagando na esquina, mas eu nunca vi. Fato é: o local era frequentado por tribos um pouco mais excluídas da sociedade. Lá eu vi caras pegando caras, garotas pegando garotas e muita gente pegando todo tipo de droga. Foi novidade, e foi incrível ter contato com tudo isso enquanto os outros "coleguinhas" só saíam para o barzinho mais bonitinho e arrumado.

Me considero um privilegiado.

O ambiente era de liberdade, era diferente e me fez bem. Sentei na mesa com estranhos apenas para ter relances de vidas incríveis, perturbadas e inspiradoras. Passei noites discutindo e argumentando sobre assuntos mais diversos e absurdos. Ali cresceram muito meu espírito e minha mente. Tive a melhor noite da minha vida. Conheci a garota mais sexy do mundo. Tive meu primeiro porre. Minha primeira briga. Solidifiquei minhas amizades. Fiquei mais inteligente.

Não vou narrar todas as minhas histórias; são muitas e o texto perderia seu propósito. Basta dizer que fui feliz lá. Sou o que eu sou em grande parte graças ao local, ao ambiente e às companhias. Teria sido bom em outros lugares? Talvez sim. Mas ali no James foi perfeito. E o perfeito só acontece quando tudo conspira para tanto.

Hoje, não há nada lá. Fecharam. A rua, antes escura, está iluminada, e os frequentadores simplesmente se espalharam. Existe gente falando mal do James por aí. Mas não posso permitir que as impressões negativas se sobreponham às verdades.

O funeral de um amigo

Onde eu for, o James estará comigo. Aonde eu me juntar com amigos e companheiros, lá estará o James. Ele está tatuado em minha alma, e sei que na de muitos outros. Copos ao alto.

Qual o seu James?


publicado em 19 de Outubro de 2012, 05:42
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Arthur Paixão

Engenheiro em formação com esperança de largar a faculdade. Nunca recusa uma boa discussão e odeia a frase “é isso mesmo, você está certo”. Sonha em abrir um bar na Irlanda. Asmático.


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