Um novo vício invade a universidade, o Uso Problemático de Internet (UPI)

Um estudo da Universidade da Carolina do Norte e da Universidade do Estado da Geórgia provou que existem viciados em internet em diferentes níveis e algumas de suas consequências

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O uso problemático de internet é agora considerado uma dependência comportamental com características parecidas com as de desordens provocadas por abuso de substâncias.

Indivíduos com UPI podem ter dificuldade em reduzir seu uso de internet, estar obcecados com ela ou mentir sobre seu uso.

Um estudo que realizei em conjunto com as alunas de doutorado da Universidade da Carolina da Norte (UNC), Chapel Hill Wen Li e Jennifer O’Brien, e com o professor Matthew O. Howard também da UNC examina essa nova dependência comportamental.

Talvez não surpreendentemente, descobriu-se que indivíduos com UPI vivenciam vários problemas de saúde mental, entre eles depressão, desordem de hiperatividade e déficit de atenção (DHDA), hostilidade, fobias sociais, uso problemático de álcool, comportamentos autodestrutivos e problemas com sono (por exemplo, apneia, pesadelos, insônia e dificuldade em ficar acordado durante o dia).

Nosso estudo é o primeiro a observar como a UPI afeta os relacionamentos de família entre alunos universitários nos EUA. Curiosamente, descobrimos que alunos com UPI relatam efeitos que são tanto negativos quanto positivos.

Medindo o UPI e as dificuldades nisso

Para melhor compreender o vício, nos focamos em alunos cujo uso da internet fosse excessivo e criasse problemas para seus cotidianos.

Os participantes do estudo consistiram de graduandos ou alunos de pós-graduação da Universidade. Pedimos que fossem selecionados indivíduos que passassem mais de 25 horas por semana na internet (não considerando tempo relacionado a atividades da faculdade ou de trabalho). Além disso, os participantes precisavam relatar ter vivenciado pelo menos um problema de saúde, de relacionamento ou emocional ligado a UPI.

Para recrutar os participantes o time de pesquisadores enviou um e-mail numa sexta-feira à noite. Não estávamos seguros de que fosse o melhor momento para encontrar estudantes dispostos, mas surpreendentemente, em menos de duas horas 39 alunos responderam. Destes, 27 alunos participaram de nossos grupos focais e completaram os questionários.

Mais ou menos a metade (48.1%) dos participantes foram considerados “viciados em internet”. Estes participantes responderam “sim” a cinco ou mais de nossas oito perguntas (por exemplo, obsessão; incapacidade de controlar o uso; mentir sobre o uso; deprimido ou irritado ao tentar parar).

Metade dos participantes do estudo foram considerados viciados em internet. Southern Tier Advocacy & Mitigation Project, Incorporated, CC BY-NC-ND

Outros 40.7% foram considerados “potenciais viciados em internet.” Estes participantes responderam “sim” a três ou quarto itens. Todos os participantes atingiram os critérios para UPI ao usar a Escala de uso compulsivo da internet, uma escala de 14 itens incluindo dificuldade de parar; falta de sono; negligenciar obrigações; sentimentos de inquietação, frustração ou irritação com a indisponibilidade da internet, etc.

Utilizamos grupos focais, que são grupos de conversa guiada por um facilitador, para discutir as experiências compartilhadas ou o conhecimento com relação a UPI. Cada grupo contava com seis a oito participantes.

O que descobrimos

Três temas principais emergiram nessas conversas: (1) conexão familiar; (2) desconexão ou conflito familiar; e (3) uso excessivo da internet por outros membros na família.

Tivemos exemplos de conexões positivas. Alguns participantes relataram que a internet os aproximava dos familiares. Por exemplo, relatos de uso do Skype,  Facebook ou e-mail para manter relacionamentos com a família ao morar longe para fazer faculdade.

Uma aluna que chamamos de Hannah explicou:

Usar o Skype ajuda a se manter conectado também quando se está em casa assistindo a um filme juntos. Acaba sendo um momento de família. E, por exemplo, se lemos o mesmo artigo, podemos falar sobre esse assunto.

Outra aluna, Lisa, disse:

Odeio falar ao telefone. Isso então a internet me dá chance de permanecer conectada, especialmente com minha mãe que… normalmente eu não responderia ao telefone. Mas agora é possível seguir conversando por e-mail. Isso nos ajuda a permanecer conectadas mesmo distantes.

Apesar das consequências positivas que descreveram, descobrimos que em todos os grupos focais os participantes passaram mais tempo falando sobre as consequências negativas do uso da internet.

Para estes, o uso da internet pode fazer com que os relacionamentos familiares se desconectem ou se tornem conflituosos. Em vez de interagir com a família quando estão em casa, os participantes relataram "ficar no computador o tempo todo". Um participante descreveu ignorar a família durante as visitas, devido ao uso da internet:

Minha vó e meus pais reclamam do tempo que eu passo na internet, já que eu fico na frente da TV com o laptop, e minha irmã menor faz o mesmo. Ficamos em frente à TV nos computadores, sem conversar uma com a outra e então eles reclamam.

Andrew disse,

Este ano ainda fui para casa para ficar mais tempo com a família, mas acabei o tempo todo no computador o que no fim foi uma bobagem, já que esse era o único motivo de fazer a viagem para casa.

Steve descreveu como seu uso de internet afetou a visita de seu irmão e amigos a um bar em que assistiam esportes:

Uma hora a gente estava assistindo ao jogo de basquete, e os quatro ao celular, e ele olhou para nós e disse, “Pô, pessoal, eu só fico aqui dois dias, vocês vão ficar o tempo todo no Twitter e no Facebook?” Então, se por um lado pode ajudar a marcar encontros, no encontro mesmo, o cara acaba distraído… E ele ficou meio assim com a gente… veio até aqui de avião para passar o fim de semana. Gastou 300 dólares numa passagem, só para me assistir usar o Facebook.

Não são só os alunos

Não surpreende o fato de que os alunos de faculdade com UPI relatam que outros membros de suas famílias também exageram no uso da internet.

Alguns participantes expressaram frustração perante a falta de limites ou regras com relação a seus irmãos mais novos ou outros parentes. Uma participante chamada Melissa falou sobre seu irmão menor:

Ele recém fez quatro anos, mas lhe deram um iPad. E eu meio que não concordo com isso. Acho que é bem burro fazer isso, mas ele está sempre usando. Agora ele fica muito irritado se você tenta tirar o aparelho dele, impor limites ou algo assim.

Crianças pequenas também estão ficando viciadas a seus dispositivos. Tia Henriksen, CC BY

Hannah, por exemplo, descreveu um primo cujo uso de internet para jogos causou danos a visão, mas ainda assim não consegue parar de jogar:

Meu primo é viciado em videogame. E acho que ele tem 10 ou 12 anos, algo assim, não tenho certeza. Me parece um jogo bem bobo, não tem profundidade. Você apenas mata. O outro morre. Alguém mata você. Começa de novo. Ele joga isso oito horas direto, sem se mover. Os olhos dele agora estão bem prejudicados, mas ele não consegue se controlar.

Participantes também descreveram UPI nos pais. Vários deles descreveram os pais como “constantemente verificando o e-mail” do trabalho. Outros descreveram pais o tempo todo ao computador, telefone, e iPads,  “no Facebook” ou “navegando”.

Sarah comparou o próprio uso de internet ao de sua mãe:

Não são só os alunos que estão viciados. Chris Owens, CC BY-NC-SA

Minha mãe fala sobre eu usar o telefone à mesa. Quando estamos comendo, quando há uma quebra na conversa, eu penso “ah, uma oportunidade de usar o Facebook” [outros riem e ela ri também]. E então, de alguma forma, para mim a conversa terminou, mas na verdade não terminou. E então ela diz “você está sempre ao telefone, o que está fazendo?” Mas dois minutos adiante ela está verificando o clima. Então eu não sei [ela ri].

Alguns participantes disseram que eram os únicos na família com UPI.

Cindy explicou que sua família era de outro país, o que podia explicar o fato de usarem pouco a internet:

Parece que não tenho outras pessoas em minha família com problemas com a internet, sou a única que cresceu aqui. Então pode ser que seja isso…

Gina disse,

Meus pais tem fobia de tecnologia. Não sabem nem ligar o computador.

Embora nosso campo de amostragem seja pequeno, seguimos uma abordagem rigorosa para garantir a obtenção dos dados com melhor qualidade possível. Conduzimos grupos focais até atingir saturação dos dados, o que significa que quando examinamos os grupos finais, não havia novos temas a observar.

As conclusões foram claras e contundentes. UPI existe e afeta relacionamentos familiares. Enquanto que esses efeitos podem ser tanto positivos quanto negativos, aqueles que sofrem consequências adversas de UPI podem encontrar dificuldades com seu problema devido à exigência do uso da internet para requerimentos online em seus cursos (por exemplo, escrever em blogs), ensino à distância e outros materiais educacionais disponíveis online.

Todos os nomes foram alterados para proteger a identidade dos envolvidos.

***

Nota da tradução:

Esse texto foi originalmente publicado em inglês no site The Conversation e é de autoria de Susan M. Snyder, junto à Wen Li e Jennifer O’Brien.


publicado em 21 de Fevereiro de 2016, 00:05
Susan snyder

Susan M. Snyder

Professora assistente de Trabalho Social e pesquisadora da Universidade do Estado da Georgia.


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