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Viciados em epifanias | WTF #1

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Mais uma descoberta interior, uma revelação inusitada sobre nossa condição, uma comparação espertinha entre âmbitos tremendamente diversos que pareça iluminar nosso cotidiano de sentido profundo? Ou apenas mais um fast food de autoajuda hipster?

Um tempo atrás tive uma percepção assombrosa e súbita com relação a todas as percepções assombrosas e súbitas que tanto procurei em minha vida: elas pouco a pouco haviam se tornado nada mais do que mais uma forma de desviar a atenção das coisas que realmente importavam.

Esta “última epifania” me fez procurar entender o que realmente significam esses momentos tão procurados por tantas pessoas (e com certeza por aqueles que clicam para ler textos promovidos em redes sociais com tanto hype como já vi outros textos mais ou menos ao estilo deste receberem).

Pornô epistemológico

Possivelmente estou falando com pessoas que adoram ganhar um inesperado balde d’água na cabeça, mas também entendo que existam muitas pessoas com grande apego ao convencional, e que abominam muitas das formas de surpreender e atiçar a atenção do interlocutor até um gozo epistemológico. Estas têm os seus problemas, mas não são objeto deste meu texto. Para a maioria jovem e letrada a verdade é que hoje vivemos numa cultura cada vez mais dominada, por exemplo, pelo tipo de pornô epistemológico de seriados como House, onde ansiamos ver um personagem obter a chave de um quebra-cabeça médico.

Ah, comparar o clímax do eureca de cada episódio do seriado com o esporro (money shot) exigido nos filmes adultos fez cócegas na sua cognição? É com você mesmo que estou falando. Se você acompanha esse tipo de salto conceitual, aprecia isomorfismos inusitados, gosta do palavrado chulé (de onde vem chulo?) misturado com epigramas barrocos e vários níveis de subtexto... você é um legítimo dependente do satori hipster.

TED
TED.com: todo mundo gozando (inclusive você)

O que quero dizer com isso é que já passamos da fase Além da Imaginação de uma ou outra mera manipulação de enredo, e já não somos (tão) cooptados pelo mindfuck pseudopsicanalítico de um David Lynch, mas aquele feijão com arroz que nos faz compartilhar uma propaganda apenas porque ela é espertinha e contraintuitiva, não obstante o produto que venda (mesmo que ligeiramente positiva em sua mensagem), segue nosso prato diário.

“Opa, apertou um botão”: um botão interno na pessoa, um click externo que valida, fortalece, reifica a experiência como interessante – mas claro sempre em simulação, sempre de uma forma segura – de uma forma que fique parecendo que se descobriu algo que vai mudar alguma coisa, mas na verdade no mais das vezes apenas reifique os padrões usuais a que estamos acostumados.

Cultura do "awesome"

Embutimos os métodos de autossabotagem via autoajuda desencanada e revelações extraordinárias, que tornamos banais pelo mero fato de sermos consumidores compulsivos destas revelações extraordinárias. Na esteira semântica, o termo inglês “awesome” uma geração atrás era usado para algo que realmente produzia um quase terror de tão absurdamente fantástico que era – hoje os adolescentes o usam para descrever o fato de que ganharam um refri extra no fast food, ou que o cabo de seu computador tenha uma presilha magnética.

Da mesma forma, alguém pode lhe dizer algo muito profundo e importante, e não é que você não entenda, mas como você vê arco-íris duplo o dia inteiro, para as coisas mais triviais, aquilo é só mais um “awesome!”, de valor não tão diferente do sushi abismal e fantástico que você consumiu meia hora atrás.

Sua capacidade de fascínio foi embotada, e como um viciado que desenvolve tolerância, você precisa de doses cada vez maiores, de coisas cada vez mais banais ganhando cada vez mais valor. O que interessa a você não é mais o conteúdo de seus insights e como você pode integrá-los na sua experiência cotidiana; a sua experiência cotidiana é uma sequência de insights nivelados por baixo. O sapo pulou de volta pro lago, ploft? Você acha que é sua sensibilidade que vê algo profundo nisso, mas, como na sacada de um maconheiro, é mero viés cognitivo: o que você confunde com grande sensibilidade é nada mais do que certo embotamento.

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Nos falta cansaço com o mundo, certo desânimo tedioso que encaremos estoicos, sem procurar mais distração. Não precisamos de cinismo, mas sim daquele sentido de realismo pragmático sem arroubos de heroísmo, isto é, precisamos acabar com certo deslumbre vão perante coisas menores (e a maioria das “descobertas” em meio a textos são assim) e botar o pé no chão -- e não porque estou dizendo isto, mas porque você viu sofrimento ao seu redor no seu dia.

Hoje é difícil nos descobrirmos realmente adultos. Até a velhice chegar nos envolvemos dia após dia com frivolidades e então, “velhos”, ninguém mais dá a mínima para nós, e morremos.

No passado não era assim, havia certos acontecimentos que davam o peso da idade, e as pessoas os levavam a sério. Seriedade que é importante, sem nunca chegar ao extremo que leva ao isolamento e sisudez. Nenhum de nós (felizmente) foi a uma guerra, mas embora o sofrimento esteja em todos os hospitais e em todas as famílias existam tragédias, constantemente nos voltamos para nossos brinquedos conceituais com interesse renovado, ao invés de obtermos algum gravitas, nós – e talvez esse seja um traço próprio ou mais acentuado na cultura brasileira (não é um país sério) – seguimos atrás de mais entretenimento com cara de aperfeiçoamento pessoal ou espiritualidade.

Mais uma visão inusitada? Que saco!

*   *   *

Nota do editor: Este é o primeiro texto da nova coluna "WTF", para a qual convidamos Eduardo Pinheiro com total liberdade para nos ajudar a ver o que precisa ser visto.

"WTF" no sentido do espanto que dá origem à filosofia, à ciência, às tradições de sabedoria. E WTF no sentido do impacto que isso talvez nos cause, quebrando cegueiras, ilusões.

Além de seguir o papo abaixo nos comentários, você pode enviar suas mais profundas perguntas para wtf@papodehomem.com.br .


publicado em 06 de Agosto de 2012, 08:42
File

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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