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"Virei um personagem de mim"

Você já agiu ou tomou decisões e depois ficou se perguntado por quê? Pode ter sido um personagem assumindo o controle da sua história

Entre o comentário espontâneo de um amigo próximo, a pergunta inesperada de um velho conhecido e a revelação de um novo colega de trabalho, um ficha caiu na minha cabeça: a ideia que nós fazemos de nós mesmos está muito distante da ideia que os outros têm de nós.

Sem entrar naquele discurso de como as redes sociais impulsionam a sociedade da imagem, me peguei pensando como assumimos alguns personagens em diversos contextos da vida e passamos a transmitir uma imagem/mensagem que não acreditamos necessariamente. Para chegar nessa conclusão, alguns momentos de rara espontaneidade foram fundamentais.

Ato 1: Rabugento

O primeiro estalo veio ainda durante o último texto. Refletindo sobre as posições que assumi durante a faculdade, percebi como encarnei de repente um personagem excessivamente crítico e rabugento. E como isso parecia não corresponder aos meus dilemas internos.

Por mais que eu nunca tivesse a intenção de me tornar alguém assim e que isso não corresponda aos princípios que valorizo, as condições externas me ofereceram esse papel e as condições internas me deram as muletas que eu precisava para interpretá-lo.

De repente, enquanto eu me considerava uma pessoa justa e ponderada, todos tinham uma imagem completamente diferente de mim.

Com algumas das pessoas próximas, tive a chance de me desculpar. O tempo trouxe a intimidade e a intimidade revelou o que havia de mais sincero. Algo diferente daquela casca dura que eu gostava de ter como cartão de visitas.

Com outras, porém, ficou a impressão (para sempre?) de que aquele personagem de mim, na verdade, era simplesmente eu.

 

Ato 2: Irresponsável

O segundo estalo veio quando, já ciente disso, passei a rever outros momentos de vida. Não demorou muito até que eu chegasse no contexto profissional.

Talvez por falta de ter feito mais isso na adolescência, minha carreira profissional como jornalista começou com aquele personagem do tipo desleixado, descomprometido, irresponsável. Deus(?), minha mãe, minha namorada e até minhas professoras do primário sabem que não pode haver uma definição mais falsa de mim do que essa.

Desde sempre fui alguém muito preocupado com as coisas. De tanto imaginar o que aconteceria se não fizesse a lição de casa, passei anos sendo o único da turma a completar as apostilas. De tanto temer o que seria de mim se não passasse no vestibular, tive o que eu hoje reconheço como um burnout aos 18 anos.

Mas quando entrei na faculdade, saí de casa e consegui meu primeiro emprego (era um estágio tanto quanto hoje), mais uma vez as condições externas e internas culminaram num papel interpretado por mim de quem não estava nem aí pro que fazia ou deixava de fazer no trabalho.

Curiosamente, fiz o contrário da maioria das pessoas que resolve "criar juízo" nessa fase da vida. Atrasei textos, descumpri metas, dei de ombros pros conselhos e ignorei os feedbacks negativos. Segui como se nada estivesse acontecendo até chegar em casa, tirar a máscara e me cobrar por tudo que estava deixando de fazer.

Ato 3: Covarde

Mas o último e mais decisivo estalo veio quando eu percebi o que acabei fazendo durante o Ensino Médio.

Estudando numa escola pública longe de casa, tomava uma van que todos os dias percorria um trajeto de cerca de 40 minutos entre a minha casa e a porta da escola. Naturalmente, a molecada entre 15 e 18 anos infernizava a vida do senhorzinho que ganhava a vida levando e trazendo a gente, mas também resolvia pegar no pé uns dos outros de vez em quando.

Eu era um dos mais velhos dessa pequena turma e logo me tornei "o líder da gangue". Quando se tratava de perturbar o motorista, até que tudo bem, mas o problema mesmo era quando a gente praticava bullying. Covarde e arrogante, é óbvio que eu não procurava alguém do meu tamanho (minha idade). O alvo mais fácil é sempre o escolhido e a gente fica martelando na cabeça dele até o moleque pirar.

Não me esqueço do dia que a gente pegou o celular dele destravado e ficou lendo em voz alta todas as mensagens até encontrar uma que a gente julgasse comprometedora e partisse pro massacre. Thales não merecia.

Felizmente, ele nunca pirou. Mas logo depois de me formar e sair da escola, me lembro de ficar pensando: e se ele tivesse reagido de alguma forma um dia? E se ele tivesse tentando algo contra ele mesmo? Será que até hoje ele pensa que a culpa é dele e não minha?

A culpa nunca foi dele, foi minha. E das circunstâncias internas e externas que me fizeram, mais uma vez, ser um personagem que nunca gostei, mas fui. Eu também sofri bullying antes disso. Eu sempre soube como era ruim. Injustiça sempre foi algo que me revoltou. Mas nada disso foi suficiente para me impedir. E hoje, mesmo arrependido, talvez eu não tenha mais a chance de mostrar a ele e às pessoas em comum que sinto muito e que eu não sou (mais) assim.

Epílogo

Essas reflexões me mostraram que preciso estabelecer uma busca constante por um comportamento que corresponda com meus verdadeiros sentimentos.

Eu sei que vão ter fases menos e mais turbulentas na vida. Em algumas delas não vou conseguir encontrar quais são esses tais sentimentos com tanta facilidade. Também sei que ter a intenção de não magoar ninguém no caminho é uma tremenda ilusão. E que o objetivo nem deve ser esse. Mas sei e quero ter a capacidade de reconhecer meus erros a tempo, pedir desculpas a quem devo e impedir que os personagens ruins tomem conta da história.  


publicado em 24 de Setembro de 2016, 00:00
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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