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12 artistas de soul para entender o rock | Eu ouvi pra você #30

Muita gente não sabe, mas "soul" era um outro nome para "rock feito por negros".

Se tem algum estilo musical que foi uma vítima forte de white washing, esse foi o rock.

A bem grosso modo, white washing é um termo que denomina a "limpeza" étnica feita com elementos de outras culturas que não a branca ocidental padrão. Hollywood é ótima nisso, frequentemente pegando personagens e mitos estrangeiros, principalmente negros, latinos e orientais, e retratando-os com atores de pele e fisionomia branca, como se nada tivesse acontecido, excluindo ou diminuindo as referências à origem e participação da cultura original. Em português, às vezes chamamos de apropriação cultural, apesar de essa não ser bem uma tradução direta. 

Não é novidade nenhuma, mas o rock teve sua semente ali nos campos de cultivo de algodão, com os escravos cantando canções de trabalho e blues que progrediriam lentamente até se tornarem o que compreendemos hoje como rock e que, mais tarde, virou o que chamamos simplesmente de música pop, com influência sobre quase tudo o que ouvimos.

Mas, apesar de suas origens, a pele negra foi praticamente excluída do imaginário e dos pôsteres de quase tudo que compreendemos como rock-rock-mesmo.

Esse processo de embranquecimento do rock começou muito cedo, mas teve sua intensidade aumentada durante os anos 60, coisa que é de certa forma explicada pela efervescência dos conflitos raciais naquele período. É quase como se uma mensagem muito clara estivesse sendo passada: "gostamos da sua música mas não queremos nos misturar com vocês".

Já em 1973, quando a poeira dessa batalha não estava nem perto de abaixar, mas quando a presença negra no visual do rock já tinha sido em grande parte banida, Margo Jefferson, jornalista que logo ganharia um Pulitzer publicava na Harper's Magazine (com capa do Bruce Springsteen, vai vendo), um artigo chamado Ripping Off Black Music (ou, traduzindo livremente, "Roubando a música negra"). Lá, ela diz isso:

"Na noite em que Jimi morreu eu sonhei que esse era o último passo num roteiro preparado para eliminar os negros do rock, de forma que ele seja gravado na história como uma criação de brancos. Futuras gerações, meu sonho dizia, vão ser ensinadas que enquanto o rock teve suas origens entre os negros, ele teve seu verdadeiro florescimento entre os brancos. Os melhores artistas negros vão ser estudados como notáveis primitivos que inconscientemente previram desenvolvimentos futuros."

Na mosca.

Tão na mosca que, já no ano de sua morte, Jimi Hendrix podia ser considerado uma notável exceção, um guitarrista negro brilhante, situação "alienígena" que alguns anos antes seria considerada natural para um Chuck Berry.

Um dos fatores curiosos é que a invasão britânica, mais especificamente bandas como Rolling Stones, Beatles, Led Zeppelin e The Who, tiveram um papel importantíssimo na popularização do rock, mas também na mudança que gerou o embranquecimento do mesmo. Eles foram tão influentes que mesmo os artistas que eles idolatravam e homenageavam acabavam tocando suas músicas.

Claro, dá pra contar essa mesma história sob prismas muito variados, já que é um assunto bastante complexo mesmo. Há uma versão reducionista que diz que o Elvis roubou o rock 'n roll, mas há que se considerar que as fronteiras entre o que é música branca e música negra no caso do rock são, no mínimo, difusas, assim como o é a própria origem do estilo. Ninguém inventou o rock. Ele foi uma confluência de muitos estilos. E também precisamos frisar que, apesar de hoje haver uma separação muito clara, blues, rhythm & blues, soul e rock eram basicamente a mesma coisa, formas musicais que sempre andavam de certa maneira juntas.

Era isso que caras como Carl Perkins, Little Richard e Chuck Berry faziam. Uma mistura gostosa de tudo o que tinha de dançante na década de cinquenta. Rock 'n roll, música de requebrar e rebolar.

Mas o rock-rock-mesmo mal viu os anos sessenta e logo foi desmontado em duas vertentes, uma que recebeu o nome que hoje damos e a outra, o soul, separados basicamente pela raça de quem o toca, duas faces da mesma moeda, uma branca e outra negra.

Bob Dylan, um pouco antes de enlouquecer o mundo ganhando um Nobel, gerou um burburinho falando sobre o período anterior à acentuação dessa separação, quando o rock era considerado perigoso pelo clima sexual e também por criar um ambiente misto, onde todo mundo era bem vindo. Segundo Dylan, os "pais" da época não gostavam dessa mistura e assim que puderam, criaram meios para que isso chegasse ao fim.

É inegável que grande parte do que houve e há de mais relevante em termos de cultura surge da dor, raiva, prazeres, vivências e poder criativo de pessoas marginalizadas. É uma pena que, quando o tempo passa, nós tenhamos uma tendência de filtrar essas pessoas do foco.

Assim, depois desse contexto todo, a ideia de escrever esse texto era para apresentar meu mais recente objeto de estudo e alguns nomes não tão reconhecidos da soul music, como Sam Cooke, Larry Williams, Frank Wilson, Booker T & The MG's (uma banda mista, aliás, que terminou por que o mundo não estava preparado pra isso), Gloria Jones e The Flirtations (um grupo incrível só com mulheres negras), só pra citar alguns. Todos geniais, precursores de artistas que fizeram muito mais barulho durante os anos setenta e adiante com o funk, disco music e até o rap e hip hop. 

É essencial lembrarmos desses artistas e do que aconteceu com a sua música, não só como uma representação de quem eles eram como indivíduos, mas enquanto seres que existiram no mundo como parte de um grupo com participação ativa na história, construída com suas vidas, seu sangue e sofrimento.

Afinal, quando apagamos a história, criamos as condições para repetir nossos erros.

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publicado em 24 de Novembro de 2016, 00:05
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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