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20 parágrafos fodas que te fazem querer ler o livro inteiro agora

Algumas sequências de palavras nos marcam para sempre

Você certamente já comprou um livro pela capa. No mínimo, foi influenciado pelo título e pela diagramação para adquiri-lo, ainda que não tenha se dado conta disso.

Mas mesmo achando que você foi vítima de uma enganação, não fique triste. Você não foi o primeiro e nem será o último. A tipologia e as cores de qualquer peça ativam nosso sistema neural e rapidamente associam preferências visuais. Daí, surge o desejo e consequentemente a aquisição. Existem pessoas sendo pagas para fazer isso acontecer.

Esse impulso pode até parecer um vilão, mas ele é natural e até mesmo necessário. São as referências estéticas de consumo que compõem a nossa personalidade. E portanto, é normal que esses detalhes, como a capa ou o prefácio de um livro, tornem-se o argumento irracional que determina a decisão final de comprar aquele monte de papel amarrado.

Após ser levado pelo impulso de pegar o livro na mão e folheá-lo já caminhando para a fila do caixa, surge um elemento ainda mais poderoso que pode fazer você não apenas se apaixonar pelo livro, como garantir a necessidade de terminá-lo o mais rápido possível: o parágrafo perfeito.

Ele é o que marca a obra e, em alguns casos, rende até citação e, para os mais modernos, até foto no Instagram. Esse tal parágrafo pode nem ser o mais relevante para o enredo da obra, mas ele te marca de um modo que o livro torna-se inesquecível só por conta daquela sequência de palavras. De repente, você se vê indo procurá-lo na prateleira só para relembrar a construção daquelas frases marcantes.

Não precisa ser o primeiro, nem o último. Bastar merecer sua lembrança. Aqui, inspirados pelo teste recente do Nexo, listamos 20 desses parágrafos que achamos fodas e te convidamos a acrescentar os seus na nossa caixa de comentários.

Topa? 

1. Lolita, de Vladimir Nabokov

“Um dia removi do carro, e depois destruí, todo uma cúmulo de revistas para adolescentes. Devem conhecer o tipo. Em matéria emocional, a Idade da Pedra; atualizada, ou pelo menos miceniana, em matéria de higiene. Uma bela e maduríssima atriz com cílios imensos e o lábio inferior carnudo e muito rubro, afirmando que usava uma certa marca de xampu. Anúncios e modas. As jovens estudantes adoram a profusão das saias plissadas… A menos que seja bem mais velho ou muito importante, o cavalheiro deve sempre tirar as luvas antes de tomar a mão…Facilite um novo romance usando o novo corpete para uma barriga lisa…O enigma matrimonial entre Fulano e Beltrana vem exaurindo às línguas."

2. O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago

"O sol mostra-se num dos cantos superiores do retângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada."

3. O Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano

"Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas. — O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas."

4. Tieta, de Jorge Amado

"O retorno de Tieta abalou a rotina da pacata cidade. Tieta retorna rica e poderosa, viúva de um industrial paulista. Ela chega acompanhada de Leonora, moça bela e triste, que apresenta como sua enteada. Tieta é recebida com toda a pompa na cidade perdida no mapa e no tempo. A presença de Tieta transforma a vida do pacato vilarejo e de seus tipos folclóricos: o prefeito enlouquecido Mauritônio, o poeta Barbosinha, o comandante Dário. Tieta tem uma tórrida relação com Cardo, o sobrinho seminarista filho da austera Perpétua. Por sua generosidade Tieta se transforma na grande benfeitora de Sant Ana do Agreste. Um segredo da vida de Tieta é revelado - ela obrigada a partir em circunstâncias totalmente inesperadas. Mas Sant Ana do Agreste e seus habitantes nunca mais serão os mesmos."

5. O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo

"Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado. Era tanto o silêncio e tão leve o ar, que se alguém aguçasse o ouvido talvez pudesse até escutar o sereno na solidão."

6. O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

"Nos meus anos mais jovens e vulneráveis, meu pai deu alguns conselhos que povoam a minha mente desde então. 'Sempre que você quiser criticar alguém', - disse ele -, 'lembre-se que todas as pessoas neste mundo não tiveram as vantagens que você teve."

7. O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway

"O homem não foi feito para a derrota – disse em voz alta. – Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado".

8. Dom Casmurro, de Machado de Assis

“Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.”

9. As Meninas, de Lygia Fagundes Telles

"Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus."

10. O Iluminado, de Stephen King

"O mundo é um lugar duro, Danny. Não se importa com a gente. Não odeia a você, nem a mim, mas também não morre de amor por nós. Coisas terríveis acontecem no mundo, e são coisas que ninguém pode explicar. Indivíduos bons morrem de forma ruim e dolorosa e deixam as pessoas que os amam sozinhas. Às vezes, parece que só as pessoas ruins permanecem sadias e prósperas. O mundo não ama você, mas sua mãe o ama e eu também."

11. O Mundo é Bárbaro, de Luis Fernando Veríssimo

"Como seria se os holandeses tivessem derrotado os portugueses e colonizado todo o Brasil? Para começar, nossos padrões de beleza seriam completamente outros. Em vez de morenas, nossas mulheres seriam loiras de cabelo escorrido, e a brasileira mais conhecida no mundo seria alguma longilínea do tipo nórdico, chamada Gisele ou coisa parecida. Nem dá para imaginar."

12. Morte ao Entardecer, de Ernest Hemingway

"Há algumas coisas que não se pode aprender rapidamente, e o tempo, que é só o de que dispomos, cobra um preço alto pela aquisição delas. São as coisas mais simples do mundo, e porque leva a vida inteira de um homem para conhecê-las, a pequena novidade que cada homem extrai da vida custa muito caro e é a única herança que ele poderá deixar."

13. Guardiola Confidencial, de Martí Perarnau

"Por que um mestre lendário como Kasparov, cujas capacidades são excepcionais, considerava impossível derrotar um rival? Foram Cristina e Daria, as esposas, as rainhas daquele tabuleiro nova-iorquino, que desvendaram o enigma. Levaram a conversa novamente para o rumo da paixão, desse ponto passaram à exigência e ao desgaste emocional e, por fim, desembocaram na concentração mental. “Talvez seja um problema de concentração”, sugeriu Cristina. Daria deu a resposta: “Se fosse só uma partida e durasse apenas duas horas, Garry poderia vencer Carlsen. Mas não é assim: a partida se prolongaria por cinco ou seis horas, e ele não quer viver outra vez o sofrimento de passar tantas horas seguidas com o cérebro funcionando a todo vapor, calculando possibilidades sem descanso. Carlsen é jovem e não tem consciência do desgaste que isso provoca. Garry tem, e não gostaria de voltar a passar por isso durante dias a fio. Um conseguiria se manter concentrado por duas horas; o outro, por cinco. Por isso seria impossível ganhar. Naquela noite, Guardiola dormiu pouco e pensou muito."

14. O Mundo do Sexo, de Henry Miller

“Nossas leis e costumes relacionam-se com nossa vida social, nossa vida em comum, que é o lado menor da existência. A vida real começa quando estamos sozinhos, face a face com o nosso eu desconhecido. O que acontece quando nos encontramos é determinado por nossos solilóquios interiores. Os acontecimentos cruciais e realmente essenciais que marcam o nosso caminho são frutos do silêncio e da solidão.”

15. 1984, de George Orwell

"4 de abril de 1984. Ontem à noite cineminha. Só filme de guerra. Um muito bom do bombardeio de um navio cheio de refugiados em algum lugar do Mediterrâneo. Público achando muita graça nos tiros dados num gordão que tentava nadar para longe perseguido por um helicóptero. Primeiro ele aparecia chafurdando na água como um golfinho, depois já estava todo esburacado e o mar em volta ficou rosa e ele afundou tão de repente que parecia que a água tinha entrado pelos buracos. Público urrando de tanto rir quando ele afundou. Depois aparecia um bote salva-vidas cheio de crianças com um helicóptero pairando logo acima. Tinha uma mulher de meia-idade talvez uma judia sentada na proa com um garoto de uns três anos no colo. Garoto chorando de medo e escondendo a cabeça entre os seios dela como se tentasse se enterrar nela e a mulher envolvendo o garoto com os braços e tentando acalmá-lo só que ela mesma estava morta de medo, e o tempo todo cobria o garoto o máximo possível como se achasse que seus braços iam conseguir protegê-lo das balas. Aí o helicóptero largou uma bomba de vinte quilos bem no meio deles clarão terrível e o bote virou um monte de gravetos. Depois uma tomada sensacional de um braço de criança subindo subindo pelo ar um helicóptero com uma câmera no nariz deve ter acompanhado o braço subindo e muita gente aplaudiu nos assentos do partido mas uma mulher sentada no meio dos proletas de repente começou a criar caso e a gritar que eles não tinham nada que mostrar aquilo não na frente das crianças não deviam não era direito não na frente das crianças não era até que a polícia botou ela botou pra fora acho que não aconteceu nada com ela ninguém dá a mínima para o que os proletas falam típica reação de proleta eles nunca..."

16. Crônica de Uma Morte Anunciada, de Gabriel Garcia Márquez

"Santiago Nasar tinha um talento quase mágico para os disfarces, e a sua diversão predileta era baralhar a identidade das mulatas. Saqueava os guarda-vestidos de umas para disfarçar as outras, de maneira que todas acabavam por sentir-se diferentes de si próprias e iguais às que não eram. Certa ocasião, uma delas viu-se repetida noutra com tal acerto que sofreu uma crise de choro. ‘Senti que tinha saído do espelho’, disse. Mas naquela noite, Maria Alejandrina Cervantes não permitiu que Santiago Nasar se deleitasse pela última vez com os seus artifícios de travesti, e fê-lo com pretextos tão frívolos que o mau sabor dessa recordação mudou toda a sua vida. Foi assim que agarramos nos músicos e os levamos para uma rusga de serenatas, e continuamos a pândega por nossa conta, enquanto os gêmeos Vicário esperavam Santiago Nasar para matá-lo."

17. As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano

"A pobreza não está escrita no astros; o subdesenvolvimento não é fruto de um obscuro desígnio de Deus. As classes dominantes põem as barbas de molho, e ao mesmo tempo anunciam o inferno para todos. De certo modo, a direita tem razão quando se identifica com a tranquilidade e a ordem; é a ordem, de fato, da cotidiana humilhação das maioria."

18. Carta a D, de André Gorz

"Estar completamente apaixonado pela primeira vez, ser amado de volta, era aparentemente banal demais, e privado demais, comum demais: não era uma matéria apropriada para me fazer atingir o universal. Um amor naufragado, impossível, isso sim, ao contrário, rende a nobre literatura. Fico à vontade na estética do fracasso e da aniquilação, não na do êxito e da afirmação. Preciso me erguer acima de mim e de você, à nossa custa, à sua custa, por meio de considerações que ultrapassam nossas pessoas singulares."

19. Macunaíma, de Mário de Andrade

"Enfim, senhoras Amazonas, heis de saber ainda que a estes progressos e luzida civilização, hão elevado esta grande cidade (São Paulo) os seus maiores, também chamados de políticos. Com este apelativo se designa uma raça refinadíssima de doutores, tão desconhecidos de vós, que os diríeis monstros. Monstros são na verdade mas na grandiosidade incomparável da audácia, da sapiência, da honestidade e da moral; e embora algo com os homens se pareçam, originam-se eles dos reais uirauaçus e muito pouco têm de humanos. Obedecem todos a um imperador, chamado Papai Grande na gíria familiar, e que demora na oceánica cidade do Rio de Janeiro – a mais bela do mundo na opinião de todos os estrangeiros poetas, e que por meus olhos verifiquei."

20. A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector

“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então não me impossibilitava de antar mas que fazia de mim um tripá estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.”

Todo mundo tem o seu parágrafo de cabeceira. Diga-nos o seu.


publicado em 04 de Novembro de 2017, 00:05
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Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


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