21 'chapéus' que fizeram a cabeça da humanidade. E da cultura pop

Carlitos, Breaking Bad e até Seu Jorge. Como nasceram chapéus, toucas, caps e bonés que estão aí brilhando nas ruas


A história é rainha em dar nó nas convenções e em recriar significados para uma porção de coisas. A moda, claro, é uma delas.

E se eu disser para você que o chapéu panamá não tem nada de Panamá? E que o fedora estilizado do Indiana Jones é, na real, brazuca? E que Charles Chaplin e Alex DeLarge, o líder da gangue que faz o terror em Laranja Mecânica, têm em comum? Bem, Breaking Bad e a era de ouro do jazz foram beber na mesma fonte - ou usar a mesma chapeleta, se preferir assim. Seu Jorge e Bill Murray são corresponsáveis pela reinvenção indie de uma touca de pescador...

Enfim, é muita coisa, amigos.

Aí seguem 23 itens presentes no seu, no meu, no nosso armário, que simplesmente se negaram a nascer e morrer no mesmo lugar. 

1. Carlitos e o chapéu coco

Charles Chaplin foi muitas coisas no cinema - até um icônico ditador -, mas nada é mais Chaplin que Carlitos, o vagabundo, o resumo daquele tumultuado começo de século 20.

Bengala, terno e um chapéu coco (bowler ou derby, se preferir o inglês). A presença dele atravessou o século e a peça segue vivendo no imaginário e na cabeça de muita gente.

Criado em 1948 na chapelaria Thomas & William Bowler - daí o nome -, era feito para durar. Foram logo adotados pelos negociantes dos distritos financeiros de Londres. Para, então, com o tempo, acabar como peça extremamente popular nas vestimenta das classes trabalhadoras.

Nos EUA, foi febre.

No século 19, estava na cabeça de caubóis, imigrantes latinos, negros, trabalhadores de ferrovias. Era muito comum, inclusive no Velho Oeste, como - não - retrata o cinema. Mas esteve na cabeça de mocinhos e dos foras da lei.

2. A Chapelaria 'Mad Men'

Don Draper e o chapéu.

Ok, você vai dizer: “Mas ele pode”. Sim, ele pode. Ele podia, ele poderá sempre. Mas, quem sabe, com uma bela pesquisa, você também não possa?

O modelo mais usado pelo personagem mulherengo e perdidão que acaba no fundo do poço interpretado por Jon Hamm é um fedora. Antes que a série mais bem feita sobre a década de 1960 viesse ao ar, os chapéus deste tipo estava condenados a serem usados tão e somente em filmes de máfia. Bem, agora, a depender do seu drink - Don, sugeriria um old fashioned -, a chapeleta passa a valer.

3. Boné estilão baseball

Você teve um. Se não teve, é porque você ainda tem um ou comprou um novo ou algo assim. As chances, inclusive, são bastante boas de que você esteja com ele na cabeça agora.

A verdade é que o corte tradicionalmente usado há meio século na Major League Baseball (MLB), a liga profissional americana, tornou-se um item vivo.  E aí nem é necessário que seu boné seja Dodgers, Yankees ou qualquer outro.

O modelo prevaleceu e ganhou o planeta.

Só não esqueça de tirá-lo para almoçar. Meu pai dizia que é falta de educação comer de boné.

4. Beret na cuca

Há controvérsias, mas o beret, que virou símbolo da França, teria, na realidade, nascido no País Basco. A boina era tradicional entre os pastores aragoneses e navarianos, na região que está dividida entre França e Espanha. Acontece que a produção comercial das boinas se deu no século 17, em Oloron-Sainte-Marie, território francês. E aí é aquela coisa: Quem leva a fama é quem cria ou que populariza?

A atriz Faye Dunaway foi a responsável por cravar para sempre a peça na moda e no cinema. Como a rebelde Bonnie Parker, no clássico Bonnie & Clyde, de 1967, Faye adotou uma diversidade de cores enorme para os chapéus. Mas quase sempre era um beret que fazia a cabeça dela. Na revolta estudantil de 1968 era peça fácil entre as meninas.

Daí para ficar eternamente associada à rebeldia e às mulheres de pulso firme foi um pulo.

5. Clint Eastwood no Velho oeste

É incrível como os chapéus foram usados por Hollywood para diferenciar “bom” e “mau”, o lado "bonzinho" do lado "horrível".

Bem, normalmente o lado do bem cabia aos próprios americanos, os conquistadores, e, mesmo assim, capazes de uma moral superior. Então, é muito comum estereotipar os losers com chapéus acabados ou que lembram os sombreros (ver mais adiante), dos vizinhos mexicanos.

Os chapéus de Clint Eastwood não. Esses eram feitos milimetricamente, desenhados para emprestar dignidade, força, poder e o que mais fosse necessário aos seus personagens.

Voltamos a falar deles mais adiante.

Calma aí.

6. Compañero sombrero

Muito sol. Muito calor. Pouca ou nenhuma árvore. Daí vem o sombreiro, ícone de Emiliano Zapata, da Revolução Mexicana e verdadeira identidade cultural dos hermanos do Norte.

Registros apontam para a criação do chapelão feito de folhas de palma em Huicholes y Tzoziles, no Estado de Nayarit.

Hoje é folclore. 

7. Temos aqui um Sherlock Holmes

É incrível como a caracterização em filmes ou livros conseguem transportar valores para a moda eternamente. Assim como o chapéu coco, o deerstalker cap, o nome real do chapéu do detetive mais conhecido da história, virou signo de investigação.

Nos quadrinhos, nos desenhos animados ou no cinema: se você quer deixar claro que há um detetive de séculos passados, bote na cabeça dele um deerstalker.

Lembrando que, nas obras originais, escritas pelo Sir Arthur Conan Doyle, há apenas uma menção do grande detetive usando um "chapéu de viagem com abas de orelha" em A Aventura de Silver Blaze. De resto, 

8. Brigitte Bardot e o Woodstock

A atriz francesa Brigitte Bardot foi um dos maiores símbolos sexuais e da liberdade da mulher nas décadas de 60 e 70. Biquinis, minissaia, peças extravagantes, por vezes, e um chapéu floppy sempre que possível. O acessório acabou por tornar-se uma marca registrada de Bardot, o que quase que automaticamente fez da peça um hit inevitável nos festivais de música, por exemplo. Ele esteve no Woodstock do passado, mas está nos atuais também. 

Feito de feltro, veludo, lã ou praticamente qualquer outro tecido. Por isso mesmo, o uso dele é bastante variável. Desde Bardot, o floppy já foi em praticamente todos os lugares: do Oscar à praia.

9. Alex Delarge e chapéu malvadão de Laranja Mecânica

Aqui vai uma sacada genial do cineasta Stanley Kubrick: "e se eu vestir meu sociopata com a simpática cartolinha (modelo conhecido como bowler ou derby) usada por Charlie Chaplin?".

É de entrar em parafuso. 

Kubrick sinalizava, sem dizer nada, que uma pessoa comum, como Carlitos, como você, pode tornar-se perversa. Se Alex usa o mesmo chapéu de Carlitos - com todas as associações possíveis como listei acima -, Kubrick queria nos dizer que Alex era mocinho, bandido, um jovem que poderia ser considerado padrão ou um pervertido completo?

Todas e nenhuma das alternativas. GE-NI-AL.

10. Forest Gump e o boné do camarão

23 anos atrás, Robert Zemeckis deu ao mundo um dos grandes personagens do cinema pop. Forest Gump, o contador de histórias, que corria, corria, corria…

O boné da Bubba Gump Shrimp Co. é um case de marketing dos maiores. São diversos restaurantes da franquia pelos EUA, uma espécie de Outback de frutos do mar. E, adivinhe: Os bonés, lógico, estão à venda e são o grande centro das atenções da marca.

Ah, você consegue encomendar um pela Internet.

11. Breaking Bad e a volta do pork pie

Heisenberg (ou Walter White, como preferir) foi o grande responsável por fazer deste modelo um fetiche novamente. Se o tráfico de anfetaminas não fosse um sucesso por si, a onda seria o Mr. White traficar chapeletas.

Nascido em 1830, popularizado pelo comediante Buster Keaton no começo do século passado, o acessório era inicialmente feminino. Virou peça fácil na cabeça dos jazzistas em 1950 - um salve para Thelonious Monk, o mostro do piano.

E agora, 2017 adentro, está na cabeça dos fãs de Breaking Bad. Isso é que é ser polivalente.

12. A touquinha (indie) de pescador

Preciso dizer que vi gente vestindo uma dessas e pleno verão na Vila Madalena. Juro para você.

O que as pessoas não fazem para ficarem bem no espelho, né?

O revival para a cultura pop e para delírio dos hipsters foi o filme A Vida Aquática de Steve Zissou, aquele que ganhou trilha sonora com versões acústicas e em português do Seu Jorge para David Bowie.

Dali em diante, com o aval de Bill Murray, o mundo moderninho abraçou a touca dos pescadores americanos para valer.

13. Aquele bonézinho de velho punk

Oliver Twist e os newpaper boys. Dá um belo nome de banda, mas é a história, amigos. São eles os responsáveis por tornar o modelo tão popular na cultura.

Sim, o baker boy hat (apple cap e outros vários nomes) era, naturalmente, um item mais comum entre os jovens americanos e europeus das classes mais pobres no começo do século 20. E os entregadores de jornal usavam eles de verdade. Na França, no mesmo período, teve grande aceitação também entre as mulheres. Entre as classes mais altas, o cap tornou-se comum em passeios de veraneio e partidas de golfe. Para quem não viveu nada disso, já deu para entender porque bandas como AC/DC ou grupos punk abraçaram a moda, né?

14. O (nada) discreto charme da burguesia

Inventado em 1908 por Caroline Reboux, o cloche - "sino", em francês - foi sucesso completo até a década de 1930, quando entrou em declínio. Vai na contramão da beret e seu tom mais informal/rebelde e foi ostensivamente usado como símbolo das mais altas castas da sociedade. Daí a ideia de o modelo ser enfeitado com apliques, bordados, jóias e penas.

Ainda assim, segue em baixa. É bem raro vê-lo por aí. A não ser numa festa temática, certo? Ou na cabeça de Angelina Jolie (foto) num filme de época qualquer.

15. Vai uma chapéu de palha aí?

Aí vai um caso mais que delicioso: os boaters de palha foram muito comuns na virada dos séculos 19 e 20. Mas com uma grande diferença: eram usados no verão, especialmente por quem se lançava ao mar ou viajava para a praia.

Aí está o motivo da Disney fazer o Zé Carioca usar um desses.

Para quem vive fora, somos e seremos eternamente praia, sol, mar… É boater na cabeça, amigo.

16. Russo, soviético ou alemão?

A ushanka foi desenvolvida para proteger os russos do intenso inverno na região do Ártico e seus congelados e inumanos -40 graus na sombra - já que sol não há mesmo.

Durante muito tempo, os russos usavam ushankas de pele animal - coelhos, carneiros e ovelhas, mas também uma espécie muito específica de roedor regional. Durante a Guerra Civil Russa - antes e depois da tomada de poder pelos socialistas soviéticos em 1917 -, o gorro especial foi adotado como uniforme oficial do império russo.

Mas, assim, sem querer provocar os colegas russos, um tipo de gorro muito parecido com a ushanka é retratado pelo pintor Joachim von Sandrart, em 1643, na Alemanha. Pouco importa: a ushanka é e será sempre símbolo russo.

A moda gélida acabou exportada para China e Coreia do Norte. O que não impediu o rapper Jay-Z de usar um modelo semelhante anos atrás. Em plena Nova York.

Que coisa.

17. O fedora foi roubado pelos homens

O termo "fedora" nasceu em 1887 por conta de uma personagem de uma peça muito popular na Rússia. O motivo: a personagem Fédora Romanoff, interpretada pela atriz Sarah Bernhardt.

Logo, o chapéu tornou-se um símbolo feminino antes de ser completamente surrupiado pelo visual masculino, de Mad Men a Indiana Jones. O modelo acabou associado também ao movimento de sufrágio e direito ao voto iniciado pelas mulheres ao redor do mundo nas primeiras década do século passado. Forte, né? Para as mulheres é bastante comum a variação do fedora com aba mais larga, que ganha um visual menos combativo e bem mais delicado.

E quem disse que não dá para fazer as duas coisas de uma vez só?

18. Indiana Jones é Brasil

"Preciso ter um chapéu que você é capaz de reconhecer apenas pela silhueta". Essa foi a ideia inicial de Deborah Nadoolman, a estilista responsável pela franquia Indiana Jones.

Ninguém é capaz de dizer que ela não cumpriu com o que prometeu a George Lucas e Steven Spielberg. O fedora estilizado - com aba maior - de Harrison Ford foi fabricado - pasmem - em Campinas. É o que assegura a Chapelaria Cury, que desde 1981, a estreia do herói nos cinema, produziu outras 500 mil unidades do modelo feita com pelo de coelho. 

19. O panamá não é do Panamá

16 de novembro de 1906. Este é o dia em que o chapéu panamá, que de Panamá não tem nada, acabou recebendo o nome do país caribenho.

O motivo? A visita do presidente americano Theodore Roosevelt (de branco na foto acima) ao Canal do Panamá.

A outra curiosidade é: se fosse para ganhar um nome de país, o chapéu deveria chamar-se Equador, sua terra de origem. A chapeleta é usada em terras equatorianas desde os incas. A chegada ao Panamá se deu por volta de 1850, quando muitos equatorianos passaram pelo Panamá para chegar aos Estados Unidos, no auge da corrida do ouro.

20. Hasta la vista, cap comunista

O cap de patrulha, popularizado por Fidel Castro, é uma peça militar muito popular entre os... americanos! Uau! É comumente usada por soldados em atividades em que o capacete é desnecessário.

Lá estavam os americanos, de cap e tudo, durante décadas, incluindo nas guerras da Coreia e do Vietnã. E o item foi obrigatório no guarda roupa do ditador cubano até o fim da década de 1990. De lá para cá, era praticamente impossível avistar el comandante trajando o tradicional cap verde oliva. No lugar da farda e da pose sisuda, Fidel passou a usar jaquetas esportivas de marcas que patrocinam esportes cubanos.

21. Jackie perdeu o chapéu (?)

O vestido pink que Jacqueline Kennedy Onassis vestia quando o então presidente John F. Kennedy sofreu um atentado em Dallas, no Texas, alimenta a curiosidade de muita gente mundo afora. E olha que já se passaram 54 anos. Há uma página no Wikipedia só para a peça, por exemplo. Para complementar o vestido Chanel, Jackie usava um pillbox hat, também rosa. 

A ex-primeira dama recusou-se a trocar de roupa após o assassinato de JFK. "Quero que eles vejam o que fizeram", teria dito, lembrando as manchas de sangue do ex-marido em suas roupas. E com o vestido no corpo foi ao hospital Parkland, em Dallas, reconhecer o corpo presidencial. Com ele no corpo, retornou à Casa Branca, em Washington, no Air Force One.

O vestido repousa no Arquivo Nacional, em Maryland, sem nunca ter sido lavado. A teoria mais aceita é de que Jackie perdeu seu chapéu no hospital, ainda no Texas. A verdade ninguém sabe.

Tem mais?

E aí, qual é o sua chapeleta favorita? Tem uma história massa para contar de outra peça que eu - inevitavelmente - esqueci?

Vem contar aqui nos comentários.

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publicado em 08 de Fevereiro de 2017, 00:00
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Rafael Nardini

Vive de escrever bobagem. Torcedor de arquibancada, fake de músico e curioso na cozinha.


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