3 provas de que o seu relacionamento real é melhor do que qualquer romance de cinema

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Uma verdade da vida é que, por mais independentes, autênticos e confiantes que nós sejamos, todos nós precisamos de parâmetros. Seja para nos adequar, para nos rebelar, para nos reinventar, sempre precisamos de uma base, um conceito, alguma referência pra usar como ponto de partida.

Para errar, precisamos saber o que é certo. Para acertar, precisamos entender que existe um errado e, para saber o que é bom, precisamos experimentar o ruim.

E por aí vai.

Essas referências vêm dos mais diversos lugares, claro. Algumas de muito perto, como você querer cozinhar como sua avó, ter sucesso como seu tio ou mesmo aprender com os seguidos processos de reconhecimento de paternidade enfrentados pelo seu pai o valor dos métodos contraceptivos e a debilidade de argumentos como “ela me embebedou” na frente de um juiz.

Por outro lado, algumas podem vir de bem longe, por estarem alojadas no nosso imaginário, por fazerem parte da nossa cultural. E é aí que entra o cinema.

Antes do amanhecer (1995)
Antes do amanhecer (1995)

Isso porque, se você é de qualquer uma das gerações pós-irmãos Lumière, você viveu cercado de filmes por todos os lados. Sejam desenhos, comédias, dramas, filmes de ação ou aventura, a linguagem e a mitologia do cinema acabaram se tornando rapidamente referências presentes em nossas vidas e -- quer admitamos ou não -- influenciam nossa forma de lidar com o mundo, indo desde as crianças que acham que ursos são inofensivos porque viram isso na Disney até o seu treinador de futebol no colégio que realmente cogitou te tirar de campo pra colocar um cachorro porque sério, até o Air Bud era melhor que você.

De todos os campos do conhecimento em que o cinema influenciou diretamente a forma como lidamos com o mundo real em nenhum deles isso parece ter acontecido de forma mais nociva do que na área do romance. Afinal, crescemos com as comédias oitentistas, lidamos de forma confusa com os titanics, testemunhamos a ascensão das manic pixie dream girls e, pra muitos, o cinema foi o responsável por criar padrões de beleza, romance ou mesmo de gosto musical que são apenas inviáveis na vida real, gerando apenas traumas e frustrações.

Mas eu, é claro, acredito que seja o contrário. Sim, amigo, qualquer um dos seus namoros de colégio foi melhor do que toda a filmografia do John Cusack, sua viagem pra Angra foi mais tórrida que Nove e Meia Semanas de Amor e claro, sua namorada de pijama te mandando virar de lado porque você começou a roncar é mais sexy do a Sharon Stone em Instinto Selvagem.

Me deixe explicar porque.

# Você e ela são melhores do que qualquer galã e qualquer mocinha

Seja homem ou mulher, uma grande parte das suas referências e das suas aspirações, tanto do que você quer ser quanto do que você espera de um parceiro, devem ter vindo dos filmes. Você quer ser cool como um Marlon Brando e estar com uma garota como uma Megan Fox, ou ser bacana como um Paul Rudd e achar a sua Zooey Deschanel. Ela quer ser uma Audrey Hepburn ou uma Angelina Jolie e estar com um Cary Grant ou, sei lá, com um Paul Rudd -- dou esses exemplos porque acredito sinceramente que todo mundo acha o Paul Rudd um cara bacana.

Mas se você analisar com calma, se pensar com cuidado, nós somos mais legais do que essas pessoas todas. Somos menos confusos, somos menos exagerados, somos menos propensos a deixar a garota ir embora em nome da resistência francesa ou a ignorar o cara que gosta de você de verdade em nome de um casamento por interesse com um cara chamado Rusty.

Alta Fidelidade (2000)
Alta Fidelidade (2000)

Muitas vezes o que nós valorizamos e até admiramos nesses personagens são qualidades que só fazem sentido num contexto imaginário e na vida real trariam muito mais problemas do que vantagens.

Ser cool como o Bogart? Ninguém te suportaria no trabalho. Ser magra como a Megan Fox? Te faria abrir mão do mousse de maracujá da tia Selma pra sempre. Um cara romântico como o John Cusack naqueles filmes? Em uma semana você já estaria de saco cheio. A Natalie Portman em Garden State? Você iria levar pra um almoço de família e sua mãe iria chamar a menina de monguinha pelas suas costas.

Eu sei porque já vi esse filme em casa, minha mãe falou isso o tempo todo.

# Vocês tem direito a ter rotina

Note a trajetória de qualquer casal do cinema.

Tudo começa com um conflito, certo? Sejam eles de famílias que se odeiam, funcionários de laboratórios rivais, assassinos contratados pra matar o mesmo senador, tudo começa com alguma diferença, algum problema. Então eles tem toda a trajetória do filme pra superar esse conflito, claro. Ignorar a divisão entre as classes do navio, fazer as pazes após uma separação traumática, explicar que o que começou como uma aposta se transformou em amor verdadeiro.

E aí, com essas questões superadas, eles finalmente ficam juntos. E aí o que acontece? Bem aí o filme acaba.

Ou seja, no cinema o ciclo do romance é concluído exatamente no momento em que, na vida real, os relacionamentos começam de verdade. Rick e Ilsa? Nunca dormiram de conchinha. Scarlett e Rhett? Jamais fizeram compras pra um almoço de domingo juntos. Westley e Buttercup? Nenhuma maratona de The Office no Netflix durante todo o decorrer do relacionamento.

Isso porque apenas num relacionamento real você tem direito a ter a rotina. Sim, a rotina. O dia bobo sem nenhum compromisso, a noite de pizza sem nada memorável, o final de semana debaixo das cobertas sem absolutamente nenhuma surpresa, as pequenas grandes coisas que te fazem saber que o seu relacionamento é de verdade.

O Lado Bom da Vida (2012)
O Lado Bom da Vida (2012)

# O sexo

Como qualquer um sabe, não existe contato físico convencional no cinema. Todo beijo precisa ser tórrido, todo pega precisa ser pesado, todo sexo precisa ser numa posição extravagante e, claro, se duas pessoas estão transando numa cama é porque ou acabaram de casar ou o roteiro está querendo insinuar que a magia já se foi e tudo agora caiu na rotina -- afinal, no começo vocês transavam dentro de aviões que caiam, encostados em tanques de guerra, em cima de ogivas nucleares.

O sexo no cinema é muito menos uma demonstração de carinho e muito mais uma explosão narrativa, o ponto culminante de uma trama, o auge de uma tensão sexual construída durante as duas horas anteriores.

Então nem preciso dizer que o sexo que você faz em casa vai ser, é claro, bem melhor. Porque vocês vão poder ter preliminares (note como o histórico de mulheres recebendo sexo oral é menor do que o de encontros com civilizações alienígenas no cinema moderno) porque não vão ter que se ater a níveis tão grandes de expectativa (eu provavelmente broxaria se soubesse que não vou fazer sexo e sim ser o ponto culminante de uma narrativa) porque vocês vão poder se beijar como pessoas normais e não como se suas vidas dependessem disso.

E claro, estou falando do cinema normal, nem vamos entrar nas diferenças entre o sexo real e o pornô porque acredito que sua namorada se sentiria incomodada se toda interação sexual de vocês terminasse seguindo o padrão Buttman e ela precisasse ir ao banheiro limpar o rosto.

Ou seja, acredite no seu documentário

Afinal, seus personagens são melhores, mais humanos, mais centrados, possivelmente menos propensos a reviravoltas trágicas ou absurdas demais -- poucas garotas se apaixonam por um cara para descobrir que ele estava morto o tempo todo, por exemplo.

Seu roteiro pode ser mais criativo, se desenvolver com mais calma, ter todo o tempo do mundo pra chegar onde precisa e não se limitar apenas a três atos -- note como seu namoro seria mais confuso se tivesse que seguir ao pé da letra a jornada do herói.

Amor e outras drogas (2010)
Amor e outras drogas (2010)

E ainda que talvez a trilha sonora de vez em quando possa deixar algo a desejar, já que na vida real pode sim acontecer do primeiro beijo acontecer ao som de Raça Negra e não The Shins, da próxima vez que você passar diante de uma sala de cinema, da sessão de comédias românticas da locadora ou da categoria “filmes emocionantes com finais animadores e animais que podem ou não falar” do Netflix, você pode sorrir sabendo que o que você tem é melhor do que tudo aquilo.

E se ela reclamar que faltam efeitos especiais, bem, você sempre pode recorrer aquelas camisinhas fosforescentes. Soube que no escuro dá um efeito bem louco.


publicado em 14 de Agosto de 2013, 21:00
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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