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O que é RPG? Uma jornada fantástica

O jogo do mundo nerd diverte, cria laços de amizade e traz benefícios cognitivos

Quem nunca revirou os olhos quando o vilão começa a contar todos os seus planos para um mocinho algemado, amordaçado, com olhar preocupado encarando uma morte que nunca se aproxima, que atire a primeira pedra. Sempre surgem vozes em nossas mentes questionando os motivos que fizeram aquele indivíduo achar que era uma boa ideia fugir de um assassino subindo as escadas da casa ou declarar, no meio de seus seguidores, a quebra de um juramento feito por todos.

No RPG, isso muda. No RPG, você decide para onde ir, o que fazer e o que dizer. No RPG, você escreve a história.

Tudo começou com uma vertente dos famosos jogos de guerra, nos quais, ao invés de comandar impérios e soldados, se comanda legiões de orcs, elfos, humanos e outros seres místicos.

Esses jogos de guerra fantásticos começaram a ficar famosos a partir de 1950, junto com a saga O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien. E foi durante um desses jogos que Gary Gygax e Dave Arneson criaram o primeiro RPG e a primeira encarnação do clássico Dungeons & Dragons, comumente abreviado por D&D. Este jogo ficou famoso a ponto de ganhar um desenho que conquistou hordas de fãs: A Caverna do Dragão.

Bateu saudade?

Mas afinal, o que é RPG?

O Role Playing Game  –  jogo de interpretações  –  é um jogo no qual um grupo de pessoas cria seu próprio personagem, desde ambições até suas habilidades, em um mundo fictício e o interpreta, vivendo uma história descrita e conduzida pelo Mestre do Jogo. Além de narrar o jogo, descrever locais e os habitantes do mundo jogado, o Mestre também é o responsável por planejar as missões, ditar as regras e até comandar o mundo. Se ele disser que um meteoro caiu na sua cabeça e você morreu, já era. Crie um novo personagem e, de preferência, encontre um Mestre menos arbitrário.

Cada mundo jogado possui uma temática que dita as leis básicas universais, ou seja, não é possível ser um dragão em uma temática realista. Mas, respeitando o universo, a criatividade é o limite. Até um bardo cleptomaníaco praticante de parkour você pode ser.

Pense em um filme ou livro que você gosta: pode ter certeza de que existe um RPG com essa temática. Gosta de Matrix? Experimente Cyberpunk 2020. É fã de ficção científica? Conheça o gratuito e brasileiro United Earth Defence. 50 Tons de Cinza? Há um fórum especializado nisso. Medo é o seu forte? Sobreviva ao Chamado de Cthulhu inspirado em Lovecraft.

E como esse jogo funciona?

Como nem sempre tudo o que fazemos dá certo, no RPG não poderia ser diferente.

Pensando nisso, foram criados os mais variados sistemas que definem se o seu personagem obteve sucesso ou falhou ao executar alguma ação. Esses sistemas são baseados na ideia de que a prática leva à perfeição, portanto, cada ação bem sucedida gera pontos de experiência para o personagem que, com o acúmulo dessa experiência, ficará mais forte e mais hábil, ou seja, subirá de nível.

Assim, ele será capaz de encarar desafios mais árduos com melhores recompensas. Agora, se ele falhar, terá que encarar as consequências, sejam elas a mera experiência não adquirida ou até mesmo a morte.

E quem decide qual desfecho cada ação terá são os maiores inimigos e os maiores aliados que um jogador pode ter: os dados.

Conforme o mestre narra o jogo, descreve o ambiente, diz o que está acontecendo ou fala como um habitante daquele mundo (um NPC: personagens não controláveis por jogadores), o jogador pode declarar que irá realizar uma ação.

O sucesso ou o fracasso dessa ação dependerá da habilidade do personagem, mas principalmente do dado que for rolado. A soma da habilidade com o número do dado será levada em conta pelo mestre que, de acordo com o sistema, informará se o ato foi ou não bem sucedido.

Os sistemas definem quais dados serão utilizados. Alguns dos mais famosos são o GURPS, que utiliza 3 dados de 6 faces; o D20, onde todas as ações utilizam o dado de 20 faces; e o Daemon, que utiliza dois dados de 10 faces para simular um de 100 faces.

A soma dessa imprevisibilidade que os dados proporcionam, os outros jogadores ao redor da mesa interpretando seus personagens e o mestre dando vida a um universo inteiro recheado de monstros, animais, aventureiros, guerreiros e tudo o que se pode imaginar, dá vida ao RPG. Esses elementos criam uma atmosfera única que transporta os jogadores para dentro do jogo, numa vida paralela dentro do universo criado.

Apesar da complexidade aparente, existem os livros do Mestre, jogador, monstros e outros livros de famosos mundos e sistemas, mas também muitos universos são criados do zero pelos Mestres e jogadores que utilizam sistemas próprios, o que contribui para a pluralidade de temas.

Do mesmo modo que é possível criar um caçador de dragões na temática medieval, também é possível ser um padre, um poeta ou até mesmo um criador de cabras. No fim das contas, seu caminho é definido pelos objetivos pessoais do seu personagem no jogo que podem ir da dominação global a criar sua filha adotiva em um ambiente inóspito.

Temática e sistemas definidos, é pegar um papel para criar a ficha do seu personagem e abrir a imaginação.

"Isso tudo é coisa de nerd, cara. Papel, quem usa papel hoje em dia? Hoje é tudo no computador, essa história de RPG é passado."

Já ouvi isso mais de uma vez, mas sabe aquela tarde tediosa de sexta que a gente fica jogando Candy Crush no trabalho pro tempo passar mais rápido? É uma tarde jogando RPG.

RPGs digitais

Desde a implementação do D&D em um mainframe em 1975, os RPGs ganharam cada vez mais espaço nos jogos digitais.

Conceitos como um personagem principal que só fala quando o jogador escolhe entre diferentes opções, definir o nome dos personagens e uma história que muda de acordo com as ações do jogador são influências direta do RPG. Dos antigos clássicos, como Chrono Trigger e Final Fantasy, até os recentes, como The Elders Scroll V: Skyrim, fica muito evidente as influências.

Esses elementos de RPG fizeram tanto sucesso que outros jogos também o incorporaram, como o modo Rumo ao Estrelato do Pro Evolution Soccer que possui pontos de experiência, influência na história, habilidades especiais e a possibilidade de criar seu próprio jogador.

E por não ser possível ter um grupo de amigos se aventurando juntos, esses jogos passaram a ser uma porta de entrada para o RPG de mesa até que, com a internet, surgiu o MMORPG – Jogo de Interpretação de Multijogadores em Massa.

Esse novo gênero, que surgiu em 1996, traz as mesmas experiências através de seus sistemas voltados para inúmeros jogadores simultâneos. O maior responsável por sua popularização foi o Ultima Online em 1997, mas o que solidificou o gênero veio em 2004, alcançando os impressionantes 10 milhões de assinantes pagantes para jogar em 2008, o World of Warcraft.

Hoje, os mais variados MMORPG existem, como o Neverwinter, que busca ser fiel ao clássico D&D, no qual o processo de criação de personagem é similar a criar uma ficha de personagem clássica.

RPG é cultura, e pode até te tornar mais inteligente

O sucesso do gênero, online e offline, fez com que famosas franquias quisessem trazer os fãs para dentro de suas histórias, como Star Wars e Senhor dos Anéis.

E como os filmes buscaram os jogos, hoje os jogos também procuram os filmes pra aproveitar a legião de fãs. World Of Warcraft ser um dos filmes mais esperados pra 2016 é prova disso.

Embora possa parecer ser algo recente, a relação entre RPGs e filmes já é antiga. Além de filmes inspirados em jogos, como Dungeons & Dragons e Final Fantasy, existem atores que usam o RPG para melhorar sua performance na carreira e também se divertir. O caso mais conhecido é do Vin Diesel que joga D&D há mais de 20 anos.

Independentemente de seus gostos literários, cinematográficos ou o que for, a experiência de encarnar um personagem no seu universo favorito é única. Além do RPG tornar possível se compreender melhor ao decidir aparência, personalidade e caráter de quem interpretará, o jogo em si traz vários benefícios criativos, cognitivos e sociais.

Um exemplo é a forte amizade que surge entre os jogadores e o Mestre depois de tantas aventuras, desafios, situações cômicas e comemorações. Esses laços criados ajudam crianças e adultos a interagir com outras pessoas, superando medos e timidez.

Também há a possibilidade de usar o RPG como uma ferramenta educacional, principalmente para crianças em situação de risco social. Além disso, o jogo pode melhorar a capacidade de resolver e lidar com problemas, tendo que vê-los por vários ângulos e tomar uma decisão; de conversação e persuasão, como muitas vezes em que é preciso apresentar argumentos sólidos para convencer outro jogador, um NPC ou até mesmo o Mestre de algo; e, principalmente, o trabalho em equipe, que é tão vital durante todo o jogo.

Você acaba de ler o texto e ergue a cabeça pensativo. Embora observe o teto, sua mente vai longe imaginando as aventuras que poderia viver. E agora, o que quer fazer?


publicado em 09 de Novembro de 2015, 00:05
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Pedro Soler

Estudante de Letras, apaixonado por literatura e viciado em histórias das mais diversas, procurando doses diárias e desenvolvendo novas com suas próprias canetas. Escreve nas horas vagas para sites e blogs diversos, enquanto, nas horas ocupadas, mantém um site de jornalismo gamer e escreve mais .


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