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A arte de sobreviver a situações extremas

“Mas por que você quer subir o Everest”?, perguntou o repórter.

O britânico George Mallory respondeu, escrevendo para sempre seu nome na história do montanhismo: “porque ele está lá”. Em 1924, o alpinista tentou realizar a façanha, junto com outro britânico, Andrew Irvine. Quase no topo, os dois desaparecem.

Isso até 1999, quando um grupo de alpinistas encontrou um corpo conservado pelo gelo da montanha. Setenta anos depois, George Mallory ainda estava lá, descansando perto do topo do mundo.

George Mallory é o segundo na fileira de cima, com o pé no ombro do outro cara
George Mallory é o segundo na fileira de cima, com o pé no ombro do outro cara

Aquela foi uma das primeiras tentativas de alcançar o cume do Everest, algo que só foi realizado pelo neozelandês Edmund Hillary, cerca de três décadas mais tarde. Só que a descoberta do corpo de George Mallory tão perto do topo levantou uma nova questão: teria ele  morrido antes de alcançar o topo ou depois de descer de lá?

O assunto é polêmico.

Há quem garanta que ele chegou perto, algo já impressionante para a época. Mas também tem quem defenda que ele de fato conquistou o Everest.

A prova?

Também em entrevistas, George Mallory dizia que levava sempre consigo uma fotografia da esposa, Ruth. Ele jurou que deixaria a foto no topo. Junto ao corpo de Mallory, os alpinistas encontraram a carteira e todos os documentos dele. Mas não a foto.

Talvez o mundo nunca saiba com certeza se ele chegou lá ou não, mas prefiro acreditar que sim. Mesmo assim, isso não causaria uma mudança na história:  Edmund Hillary, herói nacional da Nova Zelândia, continuaria sendo o primeiro homem a domar o Everest. A explicação é simples e foi dada pelo próprio filho de Mallory, que tinha apenas três anos quando o pai morreu: “para mim a única maneira de atingir o pico é voltar vivo. O trabalho é feito pela metade se você não retorna vivo.”

Mallory não sobreviveu, assim como muitos alpinistas que chegaram ao topo, mas morreram na descida. Edmund Hillary, por outro lado, voltou vivo para contar a história e morreu só em 2008, aos 88 anos.

Não faltam histórias de quem sobreviveu a situações extremas, momentos que tiram a vida mesmo de gente experiente e corajosa. Pesquisando na internet, encontrei três histórias fantásticas sobre o assunto, casos que ensinam muito sobre a arte de sobreviver a situações extremas.

Mauro Prosperi

Mauro Prosperi

Quem é: atleta italiano.

Como sobreviveu: com falta de frescura, persistência e incompetência.

A Maratona das Areias não é um desafio para qualquer um. Realizada uma vez por ano, no deserto do Saara, esse evento atrai centenas de aventureiros ao Marrocos. Para participar, os atletas devem levar uma mochila com todos os objetos que julgarem úteis, além de comida e água para os seis dias (e mais de 200 quilômetros) da maratona.

O evento é tão extremo que dois maratonistas morreram durante a competição de 2007.

O atleta Mauro Prosperi foi outro que quase bateu as botas, mas durante a maratona de 1994. Ele se perdeu e foi parar na Argélia. Depois de 36 horas, Mauro ficou sem água e comida.  Ele conseguiu achar uma mesquita abandonada no meio do deserto e passou alguns dias lá, comendo morcegos, cobras e bebendo a própria urina.

Desesperado e tentando evitar uma morte lenta e dolorosa, o cara resolveu se matar. Só que ele não conseguiu -- ao cortar os pulsos, a falta de água no corpo fez com o sangue dele engrossasse, fechando a ferida.

Nove dias depois, Mauro Prosperi foi encontrado por uma família de nômades do deserto. Ele perdeu 18 quilos e estava próximo de ter uma insuficiência hepática.

Detalhe: o cara estava só 300 quilômetros fora da rota da maratona.

Vesna Vulovic

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Quem é: comissária de bordo.

Como sobreviveu: por obedecer as regras de voo. E com sorte, muita sorte.

O dia 26 de janeiro de 1972 começou como qualquer outro para a comissária de bordo Vesna Vulovic. Ela estava trabalhando no voo JU 367, com 27 pessoas a bordo.

O que exatamente aconteceu é polêmico, mas o fato é que Vesna Vulovic foi a única sobrevivente da queda do avião, não importa qual das duas interpretações você consulte.

A primeira, que é a versão oficial, diz que uma bomba explodiu quando o avião estava a 10 mil metros de altura, sobrevoando a então Checoslováquia, onde hoje são as Repúblicas Checa e Eslovaca. Vesna estava sentada no fundo do avião, usando o cinto de segurança, tudo conforme as regras. Em queda livre, a cadeira em que Vesna estava permaneceu colada aos banheiros e essas partes do avião caíram em uma montanha.

A aeromoça foi resgata e levada para um hospital, em Praga. Mais tarde, Vesna Vulovic entrou para o livro dos recordes ao se tornar a pessoa que sobreviveu a maior queda da história.

E sem paraquedas.

A outra explicação tiraria o recorde de Vesna, mas não diminuiria o fato em si.

Em 2009, investigadores descobriram que nunca houve uma bomba dentro do avião, que na realidade um problema mecânico ocasionou a queda e os pilotos estavam tentando fazer um pouso forçado na hora da explosão. Só que faltou combinar com a aeronáutica da Checoslováquia, que pensou que aquele era um avião inimigo.

Com isso, o voo JU 367 foi abatido por engano.

Percebeu os motivos para o governo da antiga Checoslováquia não gostar muito dessa versão? De qualquer forma, Vesna sobreviveu a explosão e a uma queda de pelo menos 800 metros. Daí deduzimos duas coisas:

1. Sempre use o cinto de segurança durante o voo;

2. Eu queria ter a sorte dela.

Joe Simpson

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Quem é: alpinista.

Como sobreviveu: com persistência e coragem.

Em 1985, Joe Simpson descia do topo do Siula Grande, pico com 6.344 metros, na Cordilheira dos Andes peruana.  Ele e o companheiro de escalada, Simon Yates, tinham acabado de fazer algo extraordinário: eles eram os primeiros a chegar ao topo da montanha usando um caminho que nunca tinha sido vencido. E foi depois da vitória que as coisas começaram a dar muito errado.

Joe Simpson caiu e quebrou a perna, uma das piores coisas que podem acontecer quando você está no topo de uma montanha nevada e precisa descer 3 mil metros.

Por sorte, o tal do Simon Yates era um cara legal (em situações desse tipo, são comuns histórias de quem larga o ferido para trás). Ele amarrou uma corda ao amigo e começou a lenta descida. Tudo ia bem, até que uma tempestade fodida resolveu que ia derrubar os dois da montanha.

Depois de momentos de tensão e quase caindo, Simon Yates percebeu o óbvio: ou morre um, ou então vamos os dois para a outra vida. E ele cortou a corda, derrubando Joe Simpson no abismo (eu disse que esse tipo de coisa rolava).

Só que o Joe Simpson não era um cara que desiste facilmente. Sozinho e provavelmente putíssimo com o companheiro, ele resolveu descer a montanha, com perna quebrada e tudo mais. Foram três dias de caminhada, sem água ou comida (ele sobreviveu comendo neve). Quando Joe Simpson chegou ao acampamento, ele já era considerado um homem morto e Simon Yates se preparava para voltar para casa.

Joe virou uma lenda do montanhismo (e da sobrevivência), passou por várias cirurgias e eventualmente voltou a escalar (e a se quebrar todo) em montanhas.

Em entrevistas, ele chegou a defender o amigo, "que não tinha outra opção", garantiu ele.

Obviamente, não existe uma receita usada por gente que sobrevive ao Everest, a dias perdidos na mais fechada das selvas ou vagando pelo mais perigoso dos desertos. Mas podemos aprender dos exemplos de quem fugiu da morte.

O próprio Edmund Hillary, o primeiro a subir e descer do topo do Everest, teve tempo de sobra para escrever sobre a arte de sobreviver:

“Eu tenho certeza que sentir o medo, desde que você tome vantagem e não se torne inútil por causa dele, pode fazer você ir além daquilo que considera sua capacidade. Se você está com medo, seu sangue parece circular livremente pelas suas veias e você realmente se sente estimulado”, disse ele, numa entrevista para a revista Time, em 2003.

Mesmo depois da morte, Sir Edmund Hillary ainda manda muito bem.

Mecenas: Sobrevivendo com Bear Grylls

Se você curte histórias de sobrevivência extrema como as que contamos aqui, fique de olho na série "Sobrevivendo com Bear Grylls" que passa todas as terças-feiras, às 22h30, na Discovery (inclusive, o caso Mauro Prosperi é contado no programa).

International Networks
O protagonista da série À Prova de Tudo vai mostrar que seres humanos, quando levados ao extremo, são capazes de realizar façanhas extraordinárias para sobreviver.

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As pessoas geralmente acham que anúncios são descartáveis, mas estes podem salvar vidas.

Ligue para conhecer o disque sobrevivência (11) 3511-2910 e salve esse número no seu celular. Nunca se sabe quando vai precisar.


publicado em 03 de Novembro de 2013, 22:00
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Rafael Sette Câmara

Virou mochileiro ao mesmo tempo em que se tornou jornalista. Desde então, se acostumou a largar tudo para trás - inclusive empregos - e cair na estrada. Ele escreve sobre viagens no 360meridianos, mas pode ser encontrado também no Facebook e no Instagram.


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