A castração emocional do homem

Tentando atender às expectativas, muitos homens se tornam pequenos Frankensteins emocionais, cheios de remendos e mutilações psicológicas.

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Um dos filmes que mais chacoalhou minha pré-adolescência foi "O Príncipe das Marés".

Tom Wingo, personagem central interpretado por Nick Nolte representa com maestria o tipo de manobra mental a que todo homem se submete para se sentir como um homem.

Numa de suas confissões, ele diz:

"Eu achei que tinha sido uma vitória não me tornar um homem violento, mas nem isso é verdade. Minha violência era subterrânea, oculta. Meus silêncios e os longos isolamento viraram coisas violentas. Minha ausência de vícios se manifestou no terrível inverno de olhos azuis. Meu olhar ferido era capaz de transformar em gelo a tarde mais ensolarada e agradável."

Tornamos a nossa experiência cotidiana mais miserável de forma diferente para homens e mulheres.

Aos homens coube reforçar um padrão de comportamento viril e bélico e ocultar toda espécie de subjetividade e vulnerabilidade. Mesmo que a fase de civilidade tenha nos dado a chance de superar qualquer atavismo social ainda insistimos numa fórmula que carrega um alto custo individual e coletivo.

Existem vias emocionais "proibidas" ao homem. É como se, simbolicamente, ele estivesse impedido de transitar por certos lugares internos essenciais para uma boa qualidade de vida emocional.

Quando aspiramos atender expectativas cegamente, por conta dos reforços sociais ao longo da vida, nos tornamos pequenos Frankensteins emocionais, cheios de remendos e mutilações psicológicas.

Se o ideal coletivo de homem é um misto de guerreiro-atleta-empreendedor-rico invulnerável, haverá zonas emocionais absolutamente proibidas para sustentar esse ecossistema idealizado.

Todas as emoções que criem algum tipo de recuo ou paralisia serão evitadas em favor de emoções externalizadoras-resolvedoras.

Nesse leque emocional as emoções permitidas são:

  • raiva;
  • ódio;
  • alegria;
  • euforia;
  • tesão;
  • orgulho.

No terreno proibido teremos:

  • tristeza;
  • medo;
  • inveja;
  • culpa;
  • luto;
  • vergonha;
  • saudade;
  • amor;
  • carência;
  • ressentimento.

Não é preciso ser muito perspicaz para notar que o número de comunicadores internos emocionais dos homens são mais restritos e caminham em duas direções principais:

  • Ação (raiva, ódio, orgulho) e;
  • Relaxamento (alegria, euforia, tesão).

Tudo o que uma vida emocional mais complexa, nutritiva, íntima e plena exige, fica de lado.

Diante da morte de um familiar, por exemplo, o que a raiva e a euforia poderiam ajudar? A tristeza poderia ajudar a se reconectar com lembranças saudosas, nos colocar com os pés nos chão, longe da externalidade e exibicionismo social, tornar o que é essencial mais evidente. Mas a raiva? Não vejo muita utilidade.

Não raramente, vemos homens movidos pela raiva se apegando a questões jurídicas (partilha e procedimentos legais) e médicas (sobre as condições técnicas) da morte, ou pela alegria, celebrando de forma meio maníaca a sua perda. Chega a ser constrangedor perceber o quão desviado da situação essencial um homem pode seguir, sem se dar conta de camadas mais profundas de si mesmo.

Por meio dessa polaridade ação/relaxamento é possível perceber, ao longo do tempo, o aumento do abismo. Surge uma pessoa que oscila entre emoções explosivas e a exaustão completa. Quando não está trabalhando exaustivamente, celebrando e caçando sexo, esse homem está paralisado por uma preguiça paralisante e tóxica.

Por estar correndo sempre a 300 km/h, perde a sensibilidade para certas sutilezas da vida cotidiana, aquelas mesmas que tornam a vida doce, aconchegante e com mais sentido e conexão.

A notícia dolorosa é que a seiva da vida está apartada da identidade masculina durona. Pois tudo que o dinheiro, o poder e o status permitem conquistar só podem ser usufruídos quando permite-se que o mundo interno toque a realidade. Os milhões de uma ilha paradisíaca vividos sem conexão humana real se tornam espuma. Não têm consistência emocional, não duram.

O ponto dramático dessa apatia é que ela recai sobre a questão moral. Com a obliteração dos sentimentos é muito mais fácil agir de forma desonesta e objetificante. Afinal, as pessoas não valem por si mesmas, mas apenas como ferramenta para os próprios interesses. 

Ao permanecerem emocionalmente apáticos, os homens são coniventes e permissivos com ações doentias que transitam interna e externamente com uma naturalidade problemática.

Do ponto de vista estritamente individual, abrir-se às emoções não é tarefa fácil, afinal, acaba tornando necessário lidar com todo tipo de dor e experiências paradoxais.

Além disso, os benefícios desse expurgo emocional não vêm imediatamente. É como se devagarinho fôssemos deixando de entrar em contato com uma certa toxicidade. A lama não sai toda de uma vez.

Porém, no longo prazo a quantidade de alergias e doenças comportamentais diminuem, e a sensação se torna a de quem sai de um spa, mais revitalizado.

Lidar com as emoções traz uma percepção tão límpida da realidade que às vezes torna sufocante permanecer em certos ambientes e na companhia de algumas pessoas.

Perceber o que está acontecendo por debaixo da névoa de indiferença emocional traz mais colorido e sabor para um paladar emocional saturado de temperos ácidos.

Isso vem com algumas responsabilidades extras, mais complexas e impactantes do que apenas pagar as contas do mês.

Sei que não é fácil. Aposto que você também sabe.

Mas é isso. Seguimos nesse processo de transformação e vamos descobrir, juntos, o que tem lá do outro lado.


publicado em 07 de Maio de 2017, 00:05
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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