A garota triste do ponto de ônibus

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Naquele dia, eu estava absorto em problemas e com aquela vã esperança de que, um dia, eu ou alguma força divina os faria desaparecer por completo, quando a vi parada no ponto de ônibus. A garota triste.

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Não triste como eu ou aqueles tantos que faziam silenciosa companhia à tal garota. Triste mesmo. Se felicidade transborda, tristeza exala.

Fiquei imediatamente hipnotizado por ela. Não, pela garota não. Pela tristeza dela. Tão potente quanto meu torpor foi a vontade de ajudá-la. De qualquer forma.

Mas como fazer isso sem ser invasivo, pedante ou babaca? Será que sou arrogante a ponto de achar que as pessoas precisam da minha ajuda? Como dar assistência a alguém que você não tem nem ideia se ela teve apenas um dia muito ruim ou se está tão miserável que poderia pensar em besteiras maiores a serem feitas com a própria vida?

Para não nos comprometer, preferimos não nos intrometer. É assim que operamos. Fiquei me perguntando quantas vezes deixamos de melhorar a vida de alguém pelo medo de sermos mal interpretados ou simplesmente ridículos.

Enquanto esses pensamentos pairavam em minha cabeça, olhei com mais calma para ela, tentando encontrar outros sinais. Era uma menina linda, tão linda que só fazia com que a tristeza dela se tornasse ainda mais dolorosa de olhar. Eu queria ir até lá, dar um abraço nela e dizer "moça, vai ficar tudo bem. Merdas aconteces mesmo".

No momento em que tive essa ideia, ela pareceu tão ridícula que até escrevê-la neste texto foi difícil.

Enquanto eu pensava se as manchetes seriam “jovem abraça desconhecida em ponto de ônibus e é preso por assédio” ou “após receber incentivo de rapaz simpático, garota desiste de algo pior” (a sensação de que a ideia de acabar com a própria vida permeava a mente da garota triste era muito forte em mim), meu ônibus chegou e eu tive que ir embora.

Na mesma velocidade em que eu matutava sobre o que diabos teria deixado aquela garota tão triste, comecei a me repreender por ter essa mania de tentar adivinhar como vai a vida dos outros e me imaginar como o velho-sábio-do-cajado-que-mora-no-alto-da-montanha que tudo vê e que tudo sabe.

Os dias foram se passando e eu nunca mais vi a garota no ponto de ônibus. Havia momentos em que me lembrava dela (quando o ônibus demorava a passar principalmente) e, nesses dias, sempre me pegava pensando se a garota sucumbira à vontade de se matar. Preferiria jamais saber. Me sentiria culpado. Na verdade, o melhor seria que eu estivesse louco e que a tristeza da garota já não existisse.

Até que outro dia a vi no ponto de novo.

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Fiquei satisfeito por vê-la viva. Na minha cabeça, já a dava como morta. Ela me pareceu um pouco (bem pouco) mais alegre. Acho que o fato de não estar toda de preto como da outra vez ajudou nisso.

Ao lado dela, um senhor e uma senhora pediram alguma informação. Retirei os fones para ouvir o que ela iria dizer. Sei lá, às vezes escutar na voz que ela precisava de ajuda. Ela explicou algo ao casal de velhinhos e parecia triste dentro dos padrões da minha mente. Até que ela deu um sorriso para o senhor que havia feito algum gracejo.

Foi o sorriso mais frio e triste que já vi na vida.

Voltou tudo na minha cabeça. A vontade de tentar confortá-la de alguma forma, de dizer que iria ficar tudo bem. Que ela não deveria ficar triste por não ter um corpo perfeito, e que se foda esses padrões de beleza estúpidos. Que ele era um babaca por não valorizar a pessoa maravilhosa que ela era. Que as pessoas que amamos invariavelmente se vão para sempre e tudo que podemos fazer é lembrar com carinho dos bons momentos. Que a saída mais fácil nem sempre é a melhor. Que intestino preso resolve com Activia.

Porra, qualquer coisa, para que aquela menina não sentisse mais a tristeza que ela parecia sentir.

Meu ônibus chegou e, mais uma vez, fui embora em me intrometer. Eu não vi a garota triste novamente. Pouco tempo depois, eu mudei de trabalho e nunca mais peguei o coletivo naquele ponto. Nem em qualquer outro dia eu passei pelo ponto, nem naquele horário e nem em qualquer outro. A garota triste não existe mais e nunca, nessa vida ou em outra, eu saberei o por quê de tamanha tristeza.

O desfecha da história nem fica por conta do que aconteceu à menina. Fica por minha conta mesmo. O enlace, mais que ter uma conclusão sobre ela, é uma conclusão sobre mim mesmo e, no máximo, sobre as pessoas que se identificaram com esse texto e que, em maior ou menos medida fizeram algo bem parecido.

Covardes.


publicado em 11 de Outubro de 2013, 07:00
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Pedro Turambar

Pedro tinha 25 anos e já foi publicitário. Ganha a vida fazendo layouts, sonha em poder continuar escrevendo e, quem sabe, ganhar algum dinheiro com isso. Fundou o blog O Crepúsculo e tem que aguentar as piadinhas até hoje. No Twitter, atende por @pedroturambar.


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