A metodologia ancestral do Círculo

E como ela pode ajudar pessoas a se escutarem profundamente e a se expressarem com autenticidade

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O Círculo é uma das formas de conversação mais antigas que a humanidade já desenvolveu. Várias conversas que temos em nossos ambientes sociais hoje derivam do Círculo e mantém algumas de suas características fundantes, com maior ou menor grau de fidelidade. Desde tribos indígenas à Ágora ateniense, os formatos circulares de interação têm ajudado pessoas a se escutarem e a expressarem suas verdades.

Mais recentemente, Christina Baldwin e Ann Linnea, duas autoras e facilitadoras norte-americanas, começaram a escavar os tesouros do Círculo e a sistematizar uma abordagem contemporânea que pudesse ser aplicada em vários contextos. Juntas, elas fundaram a PeerSpirit, uma organização voltada para o desenvolvimento de pessoas a partir dos princípios e da metodologia circulares. A apresentação do Círculo que farei aqui é baseada no trabalho de Ann e Christina.

Ainda que não haja apenas uma forma de praticar o Círculo, o motivo de sua aplicação é quase sempre o mesmo: criar entendimentos comuns ampliando os níveis de escuta e presença dos participantes. Assim, costuma-se dizer que o espaço do Círculo é um “espaço sagrado” para diferenciá-lo das conversas informais que temos em outros ambientes. Em termos de estrutura, usualmente são utilizadas apenas cadeiras, evitando as mesas, que restringem uma visão integral das pessoas. Um truque para posicionar as cadeiras de maneira circular é, após todos se sentarem, perguntar se estão todos “se vendo” e, em caso negativo, pedir para que cada um ajuste sua posição de modo a possibilitar que isso aconteça.

Na verdade, o Círculo é isso mesmo: uma conversa onde todos realmente se olham e se veem. Para se configurar tal qualidade de interação, alguns processos, papéis e estruturas foram sendo criados.

Intenção

É o propósito que determina quem vai vir, quanto tempo o Círculo vai durar e que tipo de resultados o grupo pode esperar ao final do processo. É muito importante que a intenção esteja clara para todos desde o início, embora ela possa mudar no decorrer da conversa.

Anfitrião

Quem propõe o Círculo é chamado de anfitrião ou “chamador” e tem o papel de deixar todos “na mesma página”, ou seja, compartilhar tanto a intenção quanto explicações sobre a metodologia com os demais participantes.

Ponto de partida

É um gesto ou ação simples que ajuda as pessoas a entenderem que estão entrando numa conversa diferente, isto é, no espaço sagrado do círculo.

Pode ser a leitura de um poema, ouvir uma música calma juntos, um breve momento de silêncio, alguma meditação ou qualquer outra proposta que ajude as pessoas a se centrarem. Pode ser oferecido pelo anfitrião ou por qualquer voluntário.

Centro

O ponto central de um Círculo (espacialmente falando) é por onde passam todas as energias da conversa. Simbolicamente, esse ponto também representa a intenção daquele grupo ao se reunir.

Por isso, geralmente há um cuidado especial em se “criar um Centro” para o Círculo, que pode ser composto por objetos significativos para o grupo ou que simplesmente contribuam para a beleza do ambiente.

Check-in

Momento anterior à conversa principal em que cada pessoa compartilha uma breve introdução sobre si mesma, geralmente sobre como se sente ou como está chegando. Também pode ser utilizado para explicitar expectativas quanto à conversa ou histórias pessoais.

É um momento de cuidado com as pessoas antes do grupo se concentrar no tema a ser conversado.

Combinados

Também antes da conversa principal, pode ser útil decidir os combinados que nortearão a interação do grupo no Círculo.

Alguns combinados comuns em um Círculo são:

  • O que for dito no Círculo fica no Círculo;
  • Teremos curiosidade e compaixão ao escutar o outro;
  • Pediremos o que precisamos e ofereceremos o que pudermos.

Três princípios

  • A liderança é rotativa;
  • A responsabilidade pela qualidade da experiência é compartilhada entre todos;
  • A intuição ou espírito coletivo é mais importante do que agendas pessoais.

Três práticas

  • Falar com intenção, percebendo o que tem relevância para a conversa no momento;
  • Escutar com atenção, respeitando os processos de aprendizado que cada participante está vivendo;
  • Cuidar do grupo, atentando para o impacto de cada uma de nossas contribuições.

Objeto da fala

objeto da fala é qualquer objeto que, no contexto do Círculo, serve para relembrar aos participantes da importância dos papéis de fala e de escuta. Quem estiver segurando o objeto tem o direito de falar sem ser interrompido.

Geralmente ele é passado de mão em mão para assegurar que todos tenham sua chance de se expressar.

Quem receber o objeto e não quiser falar pode simplesmente passá-lo adiante ou segurá-lo durante algum tempo e, com isso, gerar um momento de silêncio. O objeto da fala pode ser utilizado durante o Círculo sempre que o desejo for colher as perspectivas de todos sobre uma questão ou quando se quer desacelerar a conversa.

Usualmente o objeto da fala é utilizado durante o check-in e o check-out.

Silêncio

Qualquer participante pode pedir um período de silêncio ao grupo em algum momento da conversa.

O silêncio coletivo pode ser muito útil para realinhar os participantes em relação à intenção do Círculo, ajudar a clarear as ideias antes de uma decisão importante ou para proporcionar um instante de reflexão individual. É como se diz frequentemente entre os anfitriões de Círculos: “o silêncio faz parte da conversa”.

Guardião

O guardião é aquele que observa o caminhar e a energia do grupo e tem permissão para intervir caso veja necessidade. Trata-se de um papel assumido voluntariamente por um participante no início da conversa.

Caso o guardião perceba situações tais como fuga do propósito, combinados não sendo respeitados ou algumas pessoas não conseguindo acompanhar o ritmo, ele pode interceder. Geralmente o guardião utiliza algum objeto que faça barulho — um chocalho ou um sino, por exemplo — para avisar as outras pessoas de sua intervenção. Ao ouvir o som, as pessoas devem pausar a conversa, respirar e se permitir um momento de silêncio.

Após essa pausa, o guardião produz o som novamente e então explica o motivo pelo qual achou necessário intervir. Outras intervenções que qualquer pessoa (o guardião especialmente) pode fazer são: pedir um objeto da fala, respirar fundo, meditar em conjunto, fazer uma pausa para depois retornar, dentre outras.

Check-out

Momento final para que cada pessoa compartilhe com o grupo o que aprendeu, como está saindo, o que ficou da conversa ou o que está levando consigo daquele momento.

O Círculo entendido como uma metodologia é uma forma de garantir que todos possam ter voz numa conversa ao mesmo tempo em que compartilham a responsabilidade pela experiência.

Praticá-lo é um convite ao exercício da autonomia individual e do cuidado coletivo.

Para saber mais

Obs.: Este texto foi originalmente publicado no Medium do autor.


publicado em 29 de Março de 2017, 00:00
Alex bretas

Alex Bretas

Cofundador da Multiversidade, uma universidade para autodidatas, fundador do projeto de investigação independente Educação Fora da Caixa e autor de dois livros na área de educação autônoma. Pode ser encontrado aqui.


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