Jornalista: a pior profissão do mundo

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Nota do editor: Esta é uma discussão que surgiu pelo e-mail, entre o GNV e o Marco Túlio Pires. Erramos e publicamos anteriormente o texto da Pública na íntegra. Recomendamos a leitura do texto original antes de prosseguir.

* * *

Nos últimos dez anos, a frustração e a tendência depressiva aumentaram entre jornalistas brasileiros – assim como a “naturalização do assédio” nas redações.

Não sei se é temporária, mas tenho uma sensação crescente de que o problema não é a profissão. É o meio. É o modelo de negócio. São os vícios, as falsas premissas, as falsas promessas.

Estou dizendo isso porque estou afastado há quase um ano de redações, onde pisei em 2007 e só saí seis anos depois. Nem formado eu era quando entrei. O texto fala algo bem verdadeiro, que é esse glamour de se trabalhar no jornalismo. Acrescento que há um medo de sair de cena, ser esquecido, não conseguir mais um pedaço do osso. Mas acredite, isso é tudo ilusão.

Se somos a geração mais bem informada da história, não temos a quem culpar por esse declínio vertiginoso do jornalismo no Brasil a não ser nós mesmos. Somos nós que permitimos essas jornadas de trabalho descabidas, e o clima sombrio e de terror psicológico das redações. Em última análise, salvo exceções, faz jornalismo quem quer. Por que você é jornalista? É algo que me pergunto o tempo todo.

Clique na imagem para ver o infográfico da Pública
INFOGRAFICO-PERFIL-DO-JORNALISTA-BRASILEIRO-1

Já me propus várias vezes a um exercício mental interessante, chegando a conclusões diversas. Partindo do pressuposto de que você é um jornalista, imagine o Brasil hoje sem redações. Sem jornalismo. Sem Globo, Folha, Estadão, Editora Abril ou qualquer veículo jornalístico. Se você chamasse a responsabilidade para si, como seria o seu jornal? Ou ainda, você faria um jornal? Por que? Como seria o seu jornalismo?

Esse exercício é apenas uma forma de tentar romper com todo o ruído que nos envolve hoje. Eu costumava olhar para as empresas de comunicação como um fim, um objetivo, um ponto a ser chegado. Quem na faculdade de jornalismo não aspira trabalhar na Globo? Ou na Folha? Até os professores estimulam esse desejo, nutrem esses sonhos. São generalismos, claro, mas há uma grande pitada de verdade.

Há dois anos conversei com o editor-at-large da Wired UK, um cara chamado Ben Hammersley. Ele me disse uma coisa que só hoje, depois de ter passado um ano fora do Brasil, eu realmente entendo.

Reproduzo uma das respostas que ele me deu, bem pertinente ao assunto:

Você diz que os jornalistas do futuro não vão trabalhar em empresas. Como isso seria possível?
É claro que haverá um período de transição, ninguém vai sair pedindo demissão por aí. O jornalista precisa começar com uma história. Pense em filmes tipo Onze Homens e Um Segredo. O início é sempre a equipe se reunindo para uma tarefa praticamente impossível. No fim, com a missão concluída, cada um segue seu rumo. Acho que os trabalhos jornalísticos serão assim no futuro. Ninguém vai fundar um jornal. Um bando de caras talentosos irá se reunir e vai configurar algo como um despesasdosparlamentares.com.br, o projeto vai render excelentes histórias, durar uns seis meses e o dinheiro não virá necessariamente do site em si. Se o trabalho for bom, as pessoas vão querer saber como o projeto foi feito, quem estava envolvido. Talvez renda um livro, aparições na TV e palestras. O dinheiro pode vir disso tudo.

Acredito mesmo que o jornalismo como conhecemos está passando por uma profunda metamorfose. Não acho que é uma crise da profissão, mas uma crise da larva que quer ser borboleta. Penso que somos cabras de pouca iniciativa e que poderíamos fazer muito mais pelo jornalismo do que depositar toda a nossa frustração em cima das empresas de comunicação – que aliás, foram fundadas por empreendedores, por pessoas como nós.

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Voltando ao exercício mental que propus lá atrás, sempre me vem o seguinte questionamento: o que eu quero é usar o jornalismo para pagar minhas contar? Ou fazer algo que realmente me inspire, inspire meus pares e seja uma contribuição realmente significativa para o meio em que estou me propondo inserir? Afinal, como começaram os jornais? Não teve alguém, ou alguéns, que tiveram a coragem de começar um projeto?

Isso tudo pode soar idealista e descolado da realidade. Existem muitos problemas, muitas dificuldades, cada um com sua particularidade. Precisamos sobreviver, precisamos pagar as contas. Mas o desafio, a despeito da nossa individualidade, permanece. Me soa mesquinho e medíocre sentar a bunda na cadeira e dizer que a culpa é dos jornais, dos executivos, dos patrões, que a crise está em todo lugar, que a profissão é a pior do mundo.

O jornalismo não é uma profissão comum. É uma profissão com altos e baixos, de pouca estabilidade, de muita ralação. Nem preciso elencar os problemas, são velhos conhecidos da classe. Está na hora de alguém ter a coragem necessária para provocar e executar as mudanças necessárias para que o casulo seja rompido. Se isso vai realmente acontecer, por que esperar?

Que seja a nossa geração.


publicado em 14 de Junho de 2013, 05:49
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Marco Túlio Pires

Coordenador da Escola de Dados e Assessor de Inovação e Transparência na Secretaria de Desenvolvimento Social do Estado São Paulo. Jornalista, é programador interessado na interseção entre ciência da computação, jornalismo, novas plataformas e governo aberto. Escreve de vez em quando em Bitcount.


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