A primeira noite de um homem e o fardo da segurança

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Em primeiro lugar, eu quis falar sobre A Primeira Noite de um Homem para abordar a relação de um rapaz com a própria virgindade.

Então, eu queria discutir sobre Benjamin Braddock – personagem de Dustin Hoffman – e a inexperiência sexual masculina. Fui assistir novamente para refrescar a memória. Daí, encontrei tanta coisa.

Não se pode ter certeza absoluta de que ele era virgem. Entrelinhas à parte, não há confissão. Isso nem deve ser tão importante. A primeira vez ou não é apenas a superfície da história. O ponto de partida.

Vejamos. No filme há boas soluções de montagem, como quando a Sra. Robinson (Anne Bancroft) acua Benjamin no quarto da filha para seduzi-lo: o desespero dele revelado em flashes de detalhes do corpo da senhora nua, bronzeada e marcada de biquíni, intercalados com a cara abobada do protagonista.

Contudo, após algum tempo e intimidade a dois, ele não deixa por menos, e faz com que ela assuma ter se casado por gravidez, além de confessar viver uma relação de fachada com o marido.

A trilha sonora é agradável para quem gosta de Simon & Garfunkel, especialmente a canção The Sound Of Silence, que aparece em momentos decisivos. A abertura mostra Braddock ao desembarcar em Los Angeles, de volta ao lar. Ele está sobre uma esteira do aeroporto, e a forma como a imagem é apresentada traz a ideia do porvir.

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É isso que inicialmente o fascina, mas depois apavora. Está preocupado com o próprio futuro, quer que seja diferente. A constatação frustrada chega em tom de conselho, "você nunca mais será jovem".

E o que seria o igual? Um mundo de aparências. É recorrente a presença de aquários e a referência a vitrines, com Braddock de olhos parados na frente ou por trás dos vidros. E se num momento ele encara o boneco do mergulhador que solta bolhas dentro do aquário, em outra cena ele é o próprio: ganha um escafandro de presente no aniversário de 21 anos, e é obrigado a fazer performance no fundo da piscina para os amigos da família.

E aí, novo homem, durante quanto tempo você aguenta a pressão da água? Sensação de afogamento e sufoco. Claustrofobia de ser manipulado, conduzido, colocado à prova. De ter que satisfazer expectativas.

A interpretação de Hoffman parece caricatural e irônica. A beleza das atrizes do filme é descomunal, mas elas também conseguem assustar quando aos berros histéricos escancarados. Uma mulher e tantos decibéis, perigo. O figurino da Sra. Robinson diz muito sobre ela, com juba de leoa, estampas de onça e de vaca.

Olhar ferino de pantera ou serpente, algoz que se diverte ao preparar o bote. Benjamin Braddock, pobre presa frágil. Os planos em que o protagonista aparece pequeno, emoldurado pelas insinuantes pernas de Bancroft, ilustram bem essa relação.

Chamo atenção para o pseudônimo criado por Braddock ao reservar o quarto de hotel onde terá encontros adúlteros com a mulher do sócio do pai: Sr. Gladstone, arrisco a tradução “Pedra Feliz”. Mas a chegada de Elaine Robinson (Katharine Ross), a filha da amante, provoca uma revolução no então paspalho imobilizado, e ele começa a agir até demais.

Tudo vai mudar: a família das convenções em xeque, tempestade à vista, uma estrada nebulosa a ser percorrida de carro e ônibus. Ainda há muitas observações a serem feitas, mas não cabem aqui, eu teria que fazer um artigo acadêmico, mais longo.

Eu quero te acolher, moço

Sempre fui interessada pelo que se passa na mente de um rapaz, pois acho que os homens são seres encantadores e sensíveis, muitas vezes obrigados ao disfarce. Desperta-me toda curiosidade imaginar como deve ser sentir-se impelido assim a determinados papéis. No que me cabe como mulher, sou ciente e plena dos questionamentos e fragilidades com os estares no mundo que me são sutilmente impostos.

Às vezes, tem-se a impressão de que homens precisam ser seguros de si em tudo. Até na primeira relação sexual. Não é simples. Onde é que está a fórmula dessa tal segurança? Quem passa isso para eles? E quando eles não têm? Para mim, continuam a ser homens.

Cresci rodeada das preocupações quanto ao que pode ser esse momento para uma moça ou mulher. Da cautela necessária, da pessoa "certa", dos medos, das adequações, do intrigante "se dar o respeito e fazer só por sentimento verdadeiro". Mas, puxa vida, nunca participei de roda onde os garotos fossem aconselhados com o mesmo cuidado que as garotas quanto às iniciações no sexo e no amor.

Pelo menos, não na minha geração ou nas anteriores. Ouvi falar que antigamente acontecia num bordel, e em alguns lugares a tradição se mantém. Porém, não sei se vinha ou vem com tudo que eles precisavam ou precisam para exercer essa parte da vida. Não sei se hoje mudou, ou se eu perdi alguma coisa, se voei nalgum momento quando a lição foi dada a eles e nem fiquei sabendo.

Isso é um tanto injusto. Pois o "forte", cobrado por ter iniciativa, cuidar da mulher e tomar conta da situação, não ganha atenção ou carinho aos anseios que pode ter num evento como esse? O que fazer? Como regular o tempo, as sensações, o corpo?

Como se portar se algo dá "errado", tudo tão cheio de cobrança que até um desagradável imprevisto pode ser chamado de "erro deles", coitados? Alguém conta para eles que o negócio é viver as experiências e que nem sempre os manuais estarão certos? Que cada caso é um caso? Que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra?

Fico aqui nas leigas elucubrações de botões internos, filosofia de botequim. Nessa vontade de entender. Até tento achar alguma explicação nos livros e filmes. Estudo para buscar sentidos. Mas não me leve a mal, não me julgue o pouco conhecer e as conclusões ingênuas.

É só que eu queria te acolher, sabe, moço. Para você se sentir mais à vontade no mundo, entendido, querido, desamarrado. Então, de repente, livrar-se de um clássico pensamento: "como é difícil ser eu".

Porém, não se esconda nisso, caso o motivo real dessa ambiguidade seja mera babaquice. Não se comporte como um tolo, se não for. E nem sempre será. Talvez seja um alguém lindo – não digo de aparências – talvez seja um imbecil. Talvez, simplesmente seja um. Não se acomode. Mas, sejamos fáceis.

Pode ser legal e não custa sonhar.


publicado em 18 de Agosto de 2012, 11:52
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Carolina Alves

Carolina Assunção e Alves é jornalista, com dez anos de experiência em telejornais, professora universitária em Brasília. Mestre e doutora em Análise do Discurso pela UFMG com estágio doutoral de um ano na França, estuda as sutilezas discursivas do cinema de ficção. Conta histórias de homens, mulheres, encontros e desencontros no blog C'est n'importe quoi!, a partir de imagens de filmes e imaginações.


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