Você já desconstruiu sua desconstrução hoje?

O erro de problematizar bem sem olhar a quem

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Ah, Carol, mas quer dizer então que você tá querendo problematizar a problematização?

Calma. Vem aqui, puxa uma cadeira e senta. Vamos conversar?

Todo mundo já foi babaca (e ainda vai ser)

Pra começo de história eu queria compartilhar o quanto já fui filha da puta nessa vida. Já ri da cara do coleguinha porque ele usava tênis furado na escola. Mas também defendi político corrupto. Achei que direitos humanos eram para humanos direitos, no pior sentido da frase. Fui racista, fui homofóbica. Tive a maioria dos preconceitos de classe que a gente tá cansado de ver por aí.

Cultivei aqueles pensamentos porque era uma bolha na qual eu estava inserida. E essa não é uma tentativa de justificar erros. Essa sou eu apontando que as minhas conclusões caminhavam para esse tipo de interpretação porque era exclusivamente a esse tipo de discussão que eu tinha acesso. E quando você tem apenas um tipo de bagagem não dá para esperar outra coisa.

Sabe, eu odeio azeitona. A textura, o gosto, o aspecto, tudo. E eu sei que não vai mudar, ela vai ser sempre assim.

A notícia boa é que nós não somos azeitonas. Nós mudamos. Nos transformamos.

Guarda essa ideia.

A importância de ter os pés no chão

O mundo gira, a catraca roda, ainda bem. Depois de algum tempo, eu  finalmente furei a danada da bolha e comecei a me envolver com outras discussões. Percebi que muito dos preconceitos que eu reproduzia trabalhavam contra mim. Em 2012 entrei na Universidade de São Paulo e, no momento em que eu descobri a militância estudantil, uma estrela (não, não a do PT) caiu do céu e foi parar do meu olho. Minha pupila brilhava e  parecia que o mundo poderia ser desmontado e reconstruído. Tudo ia dar certo. Uma revolução ia acontecer no dia seguinte e as injustiças sociais virariam uma lenda mais potente que as promessas de fim de ano. 

É, a gente se empolga quando descobre outras referências, conversas, possibilidades. Foi como se eu tivesse ido à uma festa e comido uma azeitona com gosto bom. Minha vontade era fazer com que todo mundo experimentasse ela também. "Olha, gente! Olha o que eu descobri!". 

Mas aí eu acabei entrando em outra bolha, e só quando caminhei para fora da sala da faculdade, fui até ponto, peguei o ônibus, o metrô, outro ônibus e cheguei na minha quebrada fui cair na real. Alguns dos discursos que eu escutava na academia estavam tão, mas tão distantes da realidade, que eu comecei a reparar melhor nesses dois mundos. E o mundo, meus caros, é realmente diferente da ponte pra cá.

Quais pontes são essas? Várias. 

A ponte é a base familiar. A cor, a grana. A ponte é o bairro, o estudo, a oportunidade. A ponte é a bagagem acumulada. 

Eu senti que aquele discurso desconstruidão, burocrático, rebuscado, cheio de palavras de ordem e termos específicos, carregava uma espécie de barreira. Ele não chegava nas pessoas da minha quebrada. Ele não chegava no meu vizinho, na minha tia, na minha mãe. E não chegava porque era um discurso que estava mais preocupado em apontar os erros do que construir acertos. Não chegava porque não fazia questão de conhecer a história de vida por trás das pessoas.

Pregar pra convertido é muito fácil. Difícil mesmo é rever nossas próprias formas engessadas de pensar. Mas, como fazer, então?

Quando o glossário da problematização entra em cena.

Pare de colocar todo mundo no mesmo saco

O ponto é: ninguém é obrigado a desconstruir outra pessoa, mas se for fazer isso, seja sensível o suficiente para perceber as diferentes bagagens. Existem assuntos com os quais eu prefiro não lidar e não expor minha opinião, por uma questão de saúde mental.  Mas a partir do momento em que alguém quiser aprender e você se propuser a fazer isso, considere todos os aspectos que construíram a pessoa com quem você está falando, ou o grupo no qual está inserido. Nem sempre dá pra saber o passado completo de alguém, é claro. Mas tente compreender o porquê de um discurso preconceituoso, por exemplo, estar sendo reproduzido.

Será que essa pessoa teve acesso às discussões que você teve? Será que a realidade em que ela está inserida permite que determinadas questões sejam ao menos citadas? 

Observar minha mãe me ajudou muito nesse quesito. Depois de passar 3 horas dentro de transportes públicos e 8 horas trabalhando em casas de família, sentar para jantar e conversar sobre as correntes do feminismo não era exatamente o tipo de coisa que ela queria fazer. E eu também não acho que o barco deva correr por esse lado. Um exercício que tem funcionado muito com a gente é o de observar os problemas práticos do dia a dia (a fala torta e preconceituosa de uma patroa ou a encoxada no metrô de um cara, por exemplo) e conversar a respeito deles.

As problematizações são importantes, mas trazer as discussões para a prática é essencial.

Construir é tão importante quanto desconstruir

A gente é cobrado pra ter certeza das coisas o tempo todo, pra ter uma opinião firme, pra ser desconstruidão. Mas é importante tem em mente que o processo de aprendizado é constante.

Passamos por experiências que mudam completamente nossa percepção de mundo. Conhecemos pessoas que nos mostram outras referências, outras realidades, e a gente dá muito com a cara no poste antes de ter essa bagagem. Lembrar disso e repensar as formas de desconstruir preconceitos são partes do aprendizado, mas para construir algo é imprescindível pensar em todas as variáveis que ajudaram a compor o ser humano que está ao seu lado, e entender que ele é mutável. 

Até porque eu acho que as únicas certezas que vou ter para a vida toda são duas: azeitona é ruim e a gente se transforma. 

A gente, não a azeitona. Ela vai continuar ruim.


publicado em 10 de Fevereiro de 2017, 22:20
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Carol Rocha

Leonina não praticante. Produziu a série Nossa História Invisível , é uma das idealizadoras do Papo de Mulher, coleciona memes no Facebook e horas perdidas no Instagram. Faz parte da equipe de conteúdo do Papo de Homem, odeia azeitona e adora lugares com sinuca (mesmo sem saber jogar).


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