Afrouxem os cintos! 2015 vem aí | Cotidiano #10

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Ela era incrível e eu a odiava. Quando mais jovem eu tive uma namorada parecida, assim, com 2014. Intensa, exigia sempre o máximo de mim e era botão do turbo ligado sem parar. Quanto mais a gente se pegava, mais a gente se pegava e iam aumentando as brigas e os amores.

Foi coisa de meses, era potente demais para durar muito tempo, assim como já estamos no inadiável fim de mais um ano. Até hoje eu lembro dela de quando em quando, do quanto aprendi depois que ela se foi, do quão importante foi esse momento de crise.

Não teremos outro 2014 por muito tempo, pessoal. Afrouxem os cintos, 2015 será um período de marasmo e feriados prolongados. Algo parecido com os primeiros meses do cara que largou a cocaína, o quartinho tranquilo do velho que trabalhou 30 anos na mesma firma, se aposentou, e agora não vê mais sentido na vida. Letargia, inércia, preguiça, chame do que quiser, mas agora vem uma bonança chata a dar com pau.

Imagine, não haverá outra Copa do Mundo, outra Copa das Copas em 2015. A chuva de gols, a chuva de pancadaria nos protestos fora dos estádios. Lindos jogos, golaços e, se poderíamos aprender algo com as frustrações, nessa entendemos tudo no pior cenário possível. Que momento lindo para se viver e estar lúcido.

Não teremos outra eleição no ano que vem, nem federal, nem governamental, nem municipal. Acabou chorare e polarização e as campanhas mais sujas que poderíamos ver. A morte de um presidenciável, as reviravoltas, o final clichê -- as mesmas caras, o mesmo desespero. Percebemos, com a bancada mais conservadora desde 1964, que ainda estamos decifrando como engatinhar, ou seja, a caminhada nem começou. Mas este foi um primeiro lampejo de algo que, lá na frente, se chamará maturidade política. Quando isso acontecer, poderemos dizer que 2014 teve lá sua importância nisso.

Lembre-se de que irá morrer. O memento de 2014 foi poderoso e varreu boa parte dos ídolos e pessoas famosas que julgávamos imortais. De Zé Wilker a Chaves, baque atrás de baque e a morte avisando que morreremos todos, você e eu e mais um bando de gente conhecida e desconhecida. Foi o ano de lembrar. E você? Já se despediu das pessoas que gosta hoje?

2015 não vai ter essa pegada toda. Vai ser aquele namoradinho grudento que te manda poesia e faz vídeozinhos com caretas e espalha flores no caminho da entrada do apartamento até o quarto. Confortável, mas meio sem sal.

Não que o aconchego seja ruim, mas o doce só é doce por causa do azedo. 2014 foi caos, soco na cara e cara na lona o tempo todo, mas e dele que a gente vai extrair muita coisa por conta da intensidade.

E agora já está acabando. Vai tarde, filho da puta.

Vou te amar pra sempre.


publicado em 31 de Dezembro de 2014, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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