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As arenas vão mudar o modo do brasileiro torcer?

O surgimento das inevitáveis arenas no futebol brasileiro pautam um avanço histórico no país. Além de se tratar do que há de mais moderno em complexo esportivo no mundo, esse formato de negócio, para a nossa realidade, é muito mais rentável que o estádio, podendo se adaptar para quaisquer tipos de mega-eventos e lucrando a partir de aluguel e negociação de espaço para lojas, restaurantes e etc.

Alguns clubes receberam as próprias arenas com o incentivo do Governo Federal por conta da Copa do Mundo. Um presente que nasce com a responsabilidade de reverter sua pompa em negócio de sucesso. A priori, algo simples. Nenhum torcedor vai querer perder a inauguração ou re-inauguração do estádio do clube que é fã. O grande desafio dos clubes parece ser realmente dar alma às arenas. E o principal: não deixar que a imagem de grande estádio seja superior à experiência do torcedor.

Basta lembrar: ainda estamos tratando de futebol. As cadeiras podem até substituir o concreto. Mas o torcedor e o seu radinho de pilha são os mesmos de sempre.


Arena do Grêmio: rolava um jogo de futebol nesse momento
Arena do Grêmio: rolava um jogo de futebol nesse momento

Uma principais características da arenas e os novos estádio do Brasil é a presença de cadeiras em todos os setores, uma exigência da FIFA para as competições oficiais. O argumento da entidade -- dentro do seu repetido conceito de "futebol é experiência" -- é de privilegiar o conforto e também, aí sem admitir, aumentar o preço do ingresso e nivelar por alto a classe dos que ainda vão ao estádio. Já funciona bem na Europa, onde a média de brigas nos estádios ingleses diminuiu drasticamente na década, mas que também afastou os torcedores mais pobres.

Acontece que conforto não é exatamente o que o torcedores brasileiro está acostumado a encontrar em estádios de futebol. Pelo contrário. É praticamente normal ter que torcer, especialmente para os visitantes, em instalações antigas, sem segurança e cobertura pra chuva ou sol. A maioria dos nossos estádios pararam no tempo, fazendo da prática de ir ao campo uma eterna aventura. Um pouco pelo eterno medo da insegurança que ainda ronda os estádio, outro pelo propínquo encontro com uma estrutura nada indicada para principiantes.

Isso não é motivo de orgulho. É óbvio que não. Mas as diversidades desenvolveram de maneira natural um modo do brasileiro torcer futebol. Não só aqui, mas em toda a América do Sul. Temos, sim, uma característica própria de entoar cantos, apoiar o time e protestar contra ele. Os estádios não foram projetados para isso, mas nós nos adaptamos a ele. Esse processo natural durou décadas e foi gerado da maneira mais orgânica possível: sem o percebimento dos envolvidos. Se hoje existem avalanches ou camisas girando sobre a cabeça, é porque o reflexo natural do torcedor adequado ao momento falou mais alto.

Acontece que os estádio, esses estádios, estão mudando.

Será que o nosso modo de torcer vai mudar também?

Manifestação de torcedores do Grêmio a favor do setor sem cadeiras
Manifestação de torcedores do Grêmio a favor do setor sem cadeiras

Um dos pontos cruciais para a criação de um modo típico de torcer foi a construção de estádios pensados para o espetáculo. O caminho de como se comportar nas arquibancadas foi natural, ou seja, real. Sem qualquer influência. Um bom exemplo de valorização desse fato é o espaço destinado para a Geral na Arena do Grêmio. Com ingressos mais baratos que o comum, a área comporta a torcida que fica de pé e faz um espetáculo característico na torcida daquele clube (atualmente o espaço está fechado devido um acidente no jogo Grêmio x LDU).

Em dias de jogo FIFA, cadeiras móveis são adaptadas para o lugar.

Essa atitude não é exclusividade brasileira. A projeção de um estádio pensando na torcida também aconteceu no Signal Iduna Park, estádio do Borussia Dortmund. Conforme diz o repórter Rafael Maranhão nessa reportagem do GloboEsporte.com, a geral quase sumiu do futebol alemão nos anos 1990, quando, sob o impacto da tragédia de Hillsborough, em 1989, em que 96 pessoas morreram num jogo entre Liverpool e Nottingham Forest pela Copa da Inglaterra, teve início um grande debate sobre segurança nos estádios.

O exemplo da Premier League virou referência: arenas mais confortáveis e ambientes menos hostis. Isso tornou os ingressos mais caros, mas, naquele momento, a medida foi encarada como um preço a se pagar pelo conforto adicional e como uma forma de banir de vez os hooligans.

Os torcedores alemães, porém, se organizaram e contestaram a relação entre a falta de segurança e o fim da geral. Não que não houvesse necessidade de reformar os estádios e muito menos que não ocorressem brigas entre torcidas rivais - ainda que o país não tivesse sofrido do mal de forma tão profunda quanto a Inglaterra -, mas essas não eram exclusividade do setor mais popular. A questão virou política e os torcedores venceram. Hoje, seria impensável para o Borussia Dortmund botar assentos na Südtribune. Na página oficial do clube, a geral é anunciada como o ponto alto da visita guiada pelo estádio.

A atitude do Borussia, assim como a do Grêmio, talvez são exemplos da importância que as arenas, por mais modernas que sejam, precisam dar ao romantismo que o torcedor ainda vê o futebol. Não se trata de agir de maneiro xiita e manter-se no passado. Mas, se é pra fazermos uma transição de rotina, que seja assim natural como foi o surgimento da primeira.

Signal Iduna Park e a arena que todo mundo quer igual
Signal Iduna Park e a arena que todo mundo quer igual

As arenas multiuso possuem como grande característica a versatilidade. Por mais que sejam excelentes e indicadas para grandes eventos como shows, cultos religiosos e ações corporativas que podem ser, de fato, uma boa fonte de receita, o futebol precisa ser a referência. Não se trata de manter o estádio lotado em todos os jogos. Mas ações que aproximam o torcedor da casa nova devem ser realizadas constantemente. Só assim será possível criar um novo laço de fidelidade que faça da ia ao estádio não mais uma aventura, mas um passeio tradicional de final de semana.

Destaco: não é via modelo inglês, aumentando o preço do ingresso e afastando torcedor, que a violência será combatida. Não é pagar quase 100 reais no ingresso que te impede de ser um assassino. Essa mania de colocar a culpa sempre no torcedor e com uma polícia agindo não de maneira preventiva, mas sim higienista, é um dos grandes perigos para o futebol de arena no futuro. Caso espaços para a Geral desapareçam ou a elitização da torcida se concretize, a transformação do nosso modo de torcer será para algo que todo mundo teme: fazer do futebol um teatro.

Ninguém é contra o conforto. Muito menos a favor dos perigos que os velhos estádios brasileiro ainda oferecem. As arenas continuarão sendo erguidas. Nós, torcedores, no adaptaremos a esse estilo de torcer. O que realmente desejo é que a principal experiência consumida de ir ao estádio de futebol continue sendo o arrepio com o hino na entrada do time. Nada, nem mesmo uma cadeira almofadada, deve ser mais relevante que o coração pulsante do time por meio da torcida.

Afinal, o que seria do futebol sem o cinza da arquibancada?

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Valendo!


publicado em 24 de Abril de 2013, 09:42
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Fred Fagundes

Fred Fagundes é gremista, gaúcho e bagual reprodutor. Já foi office boy, operador de CPD e diagramador de jornal. Considera futebol cultura. É maragato, jornalista e dono das melhores vagas em estacionamentos. Autor do "Top10Basf". Twitter: @fagundes.


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