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Bellino, o Rei Sadim & o poder da intuição

- O vídeo da Canon, como ficou? - indaguei.

- A bateria acabou no meio.

- E o da Flip Cam?

- Muito escuro.

(...)

Respirei fundo.

O diálogo acima foi travado entre mim e o Gustavo, nosso editor de vídeo. Tinha acabado de chegar no QG, isso em dezembro do ano passado, após entrevistar um grande cara. Não um grande cara aleatório, mas um desses cujo tempo não se desperdiça. Respirei fundo novamente, acalmando meus impulsos agressivos.

Corta.

Algumas horas antes dessa conversa eu estava no saguão do suntuoso hotel Fasano em São Paulo, com câmeras e tripés a postos. Degustava uma água com gás acompanhada de gelo e limão, esparramado numa aristocrática cadeira de couro, enquanto aguardava sua chegada. Como costumo fazer, estava no local 10 minutos antes do combinado. Aprendi bem o valor da pontualidade com meu tio, empresário de sucesso em terras cariocas.

O motivo de minha espera teve sua semente plantada na entrevista realizada com o John Casablancas. Após publicarmos o artigo nossa caixa de comentários recebeu elogios e críticas incríveis, fazendo todo o esforço investido na produção valer a pena. No entanto, um certo email chamou minha atenção. O remetente era Ricardo Bellino.

Esse nome significa algo para vocês?

Talvez não.

Conhecem a Campanha contra o Câncer de Mama estampada nas camisetas Hering ao longo dos últimos 10 anos? Conhecem Gisele Bündchen? Donald Trump?

Perfeito. Estão suficientemente familiarizados para seguirmos adiante. Bellino trouxe a dita campanha contra o câncer de mama para o Brasil. Trouxe a Elite Models para cá - tendo Casablancas como sócio -, quando tinha 21 anos e nenhum lenço nem tostão furado no bolso. E convenceu um mal-humorado Donald Trump a fazer seu primeiro investimento no Brasil, em apenas 3 minutos. Sim, ele foi o "verdadeiro Aprendiz", a notícia dessa negociação de três minutos rodou o mundo e foi registrada em livro pelo próprio Trump.

Link vídeo

Muito mais significativo ainda, foi a maneira como sua presença me impressionou durante nosso encontro cara a cara.

De volta ao saguão do Fasano...

O avistei chegando às 19h, como combinado. Aperto de mão firme, olho no olho, sorriso franco sem exageros. Essa tríade constitui melhor cartão de visitas do que qualquer design pode sonhar produzir, caros amigos.

Procuramos um local tranquilo para não interferir no áudio. Nos sentamos no bar, câmeras foram preparadas. Ele pediu um drink forte, me recomendando a não acompanhar. Naturalmente, pedi o mesmo. Ora bolas se um mineiro bebedor de cachaça das brabas ia recusar um desafio etílico!

Quarenta minutos de conversa fluíram rapidamente. Passei por somente quatro ou cinco de uma lista com dezenas de perguntas. Cada resposta vinha recheada de histórias e mais histórias. A fala bem ordenada, uma visão de mundo ampla, sua crença no poder da intuição bem fundamentada e os relatos enérgicos me fisgaram. Não se conhece pessoas com tamanha capacidade de articulação e realização todos os dias. Pessoalmente, conto nos dedos das mãos as que conheci até hoje.

Ao desligar as câmeras, nos despedimos com a promessa de tomar umas brejas em 2011 - taí outra boa qualidade em um homem, sua disposição a sentar-se num bar sem compromisso. Sai do Fasano completamente energizado.

A tal entrevista, portanto, foi feita com ele.

Print da entrevista. Não brinquei ao falar sobre a imagem ter ficado *muito escura*.

Agora entendem quando respirei fundo após descobrir que a mesma estava inaproveitável. No dia seguinte, enviei um email explicando o revés. Como o Ricardo reside nos EUA, eu não tinha a menor ideia sobre a possibilidade de um novo encontro. Felizmente, ele se mostrou aberto a regravar a entrevista de acordo com sua disponibilidade futura.

Se teve final feliz, pra onde vai esse texto?

Explico. Nos dois dias subsequentes devorei o livro de sua autoria com o qual me presenteou, "Você tem 3 Minutos!" - baseado em seu bem-sucedido embate com Trump, no poder da intuição e nas qualidades de empreendedores de sucesso e caráter. A leitura é rápida e dela extraí três pontos de enorme valia, narrados por meio de pequenas parábolas ao longo do livro.

O Rei Sadim

O Rei Midas, pela mitologia clássica, foi o monarca cujo pedido de transformar qualquer objeto em ouro foi atentido pelos deuses. A suposta benção logo foi percebida como maldição. Ao contrário, hoje pessoas com o "toque de Midas" são profissionais dotados de talento inesgotável para transformar seus negócios em sucessos estrondosos.

O Rei Sadim é seu bizarro oposto.

A expressão cunhada por Bellino se refere a pessoas capazes de transformar qualquer empreitada em insucesso. "Aconselham" recheadas de inveja, congratulam na esperança de puxar o tapete, buscam toda glória para si e só repartem o bolo diante das câmeras, em busca de ainda mais aplausos. Conhecem algum profissional/amigo/colega/filho-da-puta-convicto com esse perfil? Eu conheço, vários.

*Cliquem na imagem acima* para ler todas as tirinhas do Rei Sadim, em tamanho expandido.

Moral da história, ao avistar sujeitos que demonstrem tais características, corram.

Um experimento sobre o poder da intuição

"A PhD em Psicologia Social e professor da Universidade Tufts, Nalini Ambady exibiu imagens de dois segundos, sem sons, para um grupo de pessoas. As imagens mostravam professores que elas nunca tinham visto antes dando aulas. Na sequência ela pediu aos participantes que avaliassem os professores baseando-se nos sentimentos provocados pelas imagens. Surpreendentemente, as avaliações foram basicamente as mesmas feitas por estudantes que tiveram aulas com os mesmos professores durante todo um semestre!"

O trecho acima veio de seu livro, onde encontramos vários outros experimentos na mesma linha. O mecanismo responsável por essa capacidade humana se chama Inconsciente Adaptativo. Definido como um processo mental inacessível conscientemente mas ainda assim capaz de influenciar julgamentos, sentimentos, comportamentos e decisões.

Não desejo entrar no mérito aprofundado da questão, visto que me considero desqualificado para tanto. Como recomendação, indico o livro "Blink: a decisão num piscar de olhos", de Malcom Gladwell.

"Cultive uma irmandade, não um networking"

Finalmente! Alguém cortando o coro das revistas e livros de auto-ajuda com seus incansáveis mantras sobre "trabalhar melhor o seu networking profissional". Networking o caraleo. Sempre fui avesso a fazer pose em busca de favores vindouros. Sempre tive poucos, bons e leais amigos. E nunca me decepcionei agindo dessa maneira. Foi um alívio ler um capítulo com o título acima. Cultivar irmãos, amigos leais, é *completamente* diferente de cultivar networking.

O breve contato com o Bellino caminha por essa direção, acredito. Não coloquei seu email na pasta de "networking", amém.

Aguardem a entrevista, com data ainda não determinada para 2011. Até lá, desejo a todos vocês que confiem mais na intuição, se afastem dos Reis Sadim  da vida e que cultivem irmandades leais.

É isso.


publicado em 13 de Janeiro de 2011, 13:34
File

Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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