Blues: Howlin’ Wolf: os uivos raivosos do blues

Conheça o cantor, compositor e guitarrista de blues, um dos mais significativos cantores de blues clássico de Chicago

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Quando criança, no começo do século passado, Chester adorava ouvir as histórias de seu avô, que giravam normalmente em torno da presença de lobos perto de sua casa, no Mississipi.

Não se sabe se o garoto chegou a ver algum lobo, mas a presença dos animais nas imediações era, com certeza, mais interessante que a realidade. Morando junto com sua família, Chester via seus pais colhendo algodão de Sol a Sol para sustentar os seis filhos. Descontando os momentos que algum cantor de blues aparecia na fazenda e fazia os negros se esquecerem do cotidiano tocando violão sob o olhar atento do garoto, a realidade não era muito fácil.

Talvez tenha sido por isso que o jovem Chester — batizado como Chester Arthur Burnett, em homenagem a Chester A. Arthur, presidente dos Estados Unidos entre 1881 e 1885 — preferia se concentrar nas histórias do avô, muito mais interessantes que a realidade que enxergava com seus olhos. Além disso, eram histórias vivas e muito bem contadas — ao menos, o suficiente para impressionar o menino.

Reza a lenda que, certa vez, ele se assustou tanto com uma delas que entrou correndo em casa e subiu as escadas chorando de uma forma engraçada, como se estivesse uivando. A partir desse dia, seu avô começou a chamá-lo de Lobo Uivante. O homem provavelmente não fazia ideia que o apelido iria pegar e seu neto seria chamado por esse nome pelo resto da vida. E, com toda certeza, nem imaginava que o garoto que subiu as escadas correndo com medo de lobos iria mudar a história do blues.

Com 1,91m de altura e pesando 125 quilos, a presença de Howlin’ Wolf no palco era descomunal, até mesmo ameaçadora, algo reforçado ainda mais pela sua voz ríspida, quase gutural. Mas seu porte físico é minúsculo perto da importância que ele teria na história do blues. Figura-chave na explosão do blues de Chicago, sua influência na música do rock dos anos 60 — e, consequentemente, em todo o rock feito dali em diante — é gigante.

Isso porque, entre todos os blueseiros de sua época, Wolf era um dos mais experimentais, o que fazia com que suas músicas tivessem uma identidade própria — e, frequentemente, estivessem muito mais próximas do que seria o rock’n’roll dos anos seguintes que outras canções contemporâneas. Uma boa amostra disso está em uma das minhas canções favoritas dele: Evil (Is Going On), gravada em 1954.

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Repare como sua voz destoa de tudo o que pensamos de blues. O blues normalmente é associado com melancolia e tristeza, mas sua voz é rasgada, ardida, quase raivosa. E a forma que ele dá peso para a palavra “Evil”, faz você pensar, numa primeira audição, que a música tem um tom quase sobrenatural, falando não sobre um mal, mas sobre “o Mal”, certo?

Errado. A letra gira não em torno de algo místico ou malévolo, mas sim de traição. Basicamente, o músico fala para o ouvinte que “se você está há muito tempo fora de casa, é melhor ficar de olho no seu lar feliz”. Ou seja, é o velho problema da traição do blues. Para mim, é isso que explica a grande magia de Howlin’ Wolf: ele é experimental e arrisca tons modernos em suas canções, mas ao mesmo tempo nunca perde a essência do Delta de suas canções.

Outro exemplo disso está em Killing Floor, um dos seus maiores sucessos. Mais acelerada que a maior parte dos blues do Delta, a canção remete ao tema clássico do blues: o relacionamento fracassado. De forma melodramática — e brilhante, por contrastar com o ritmo acelerado da canção — Wolf se coloca dentro de um abatedouro (o Killing Floor do título), deixando claro que preferia estar morto a vivendo tudo aquilo, algo que poderia ser evitado, caso ele tivesse seguido seus instintos e, ao invés de ter se envolvido com a mulher, partido para o México.

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São roupagens modernas para temas clássicos do blues. E não é para menos, já que o delta era a sua realidade e o blues que se tocava ali foi sua escola. Wolf havia fugido de casa aos 13 anos, por se recusar a trabalhar na plantação e foi morar com o pai, então divorciado da esposa — o músico alegaria ter percorrido os mais de 130 quilômetros que separavam as duas casas a pé — e logo tomou gosto pela música. Aprendeu a tocar ouvindo Charlie Patton (o pai do Delta Blues, que logo se tornaria seu mentor), Blind Lemon Jefferson, Tampa Red, Blind Blake e outros pilares do blues do começo do século.

Em sua juventude, conseguiu fama regional tocando em bares da região, normalmente ganhando 50 dólares por uma noite de trabalho — os shows começavam por volta das sete da noite e terminavam ao nascer do dia. Logo, assim como todos os blueseiros do local, entendeu que o dinheiro de verdade estava nas grandes cidades, e rumou primeiro para Memphis, onde fez ainda mais sucesso, e logo em seguida partiu para a meca do blues: Chicago.

Foi uma jogada arriscada, mas muito menos desesperada que de seus companheiros. São famosas as histórias de blueseiros que foram tentar a sorte em Chicago tendo apenas seu violão e alguns trocados no bolso. Com Wolf a história foi diferente, já que ele era bem sucedido em seu local de nascimento — tanto que passaria anos dizendo que “fui o único blueseiro que deixou o Delta dirigindo um carro próprio”.

Entretanto, um de seus maiores sucessos, que se tornaria um marco do blues, deixou essa parte de sua história de lado, remetendo apenas ao sonho de todo o blueseiro do Mississipi: escapar da solidão e da dureza daquela terra, e mostrando o meio mais comum disso acontecer: por trem. É isso que Wolf canta em Smokestack Lightining — que, numa tradução livre, seria o brilho da chaminé da locomotiva que, aos seus olhos, “brilha como ouro”, por significar a passagem para fora daquela realidade sofrida.

Eu gosto sempre de colocar as versões de estúdio das músicas no texto principal, mas aqui vou de uma ao vivo, mostrando Wolf em ação no palco, no ano de 1964 — e você pode reparar, além de sua habilidade com a gaita, uma de suas marcas registradas, que eram justamente os uivos em falsete que ele disparava no meio de algumas canções.

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Numa letra brilhante, porém, Wolf alterna os temas da canção entre o trem (que significa a esperança de um dia melhor) e a mulher que o maltrata (no papel da realidade que o mantém preso). Entretanto, no final da canção, trem e mulher coexistem e deixam um mistério no ar: qual dos dois partiu: ele ou a mulher? Algumas pessoas dizem que ele a matou, mas eu não faço essa leitura. Mas, independente disso, é de uma ambiguidade brilhante.

Se Wolf escapou do Delta de forma pouco usual, seus primeiros dias nas cidades grandes seguiram a mesma toada: lançou canções por duas gravadoras diferentes quase ao mesmo tempo (eu coloco essas músicas no final do post). Mas uma delas conseguiu contratá-lo definitivamente: a prestigiada Chess, lar de Muddy Waters, fazendo o músico se mudar definitivamente para Chicago…

E o blues nunca mais seria o mesmo. Interpretando as canções escritas por Willie Dixon, compositor oficial da casa, Wolf atingiu um sucesso que rivalizava com o de Muddy palmo a palmo. Aliás, a história dos dois é curiosa, visto que desenvolveram uma relação de amor e ódio, cultivando uma rivalidade que muitas vezes ultrapassava os limites do saudável.

Howlin’ Wolf e Muddy Waters: amigos e rivais. Muitas vezes, mais rivais que amigos

Muitas canções nascidas na parceria entre Dixon e Wolf se tornaram clássicos do blues, graças não apenas à voz única de Wolf como à forma que lidava com sua banda. Ao longo dos anos, os músicos que o acompanhavam mudavam constantemente (contando com gente do calibre de Buddy Guy), mas sua banda nunca perdeu qualidade, já que ele era um dos poucos músicos que tinha o hábito de pagar em dia.

Além disso, compensava sua incapacidade de ler partituras de uma forma simples: tocava o acorde que achava melhor para a canção e fazia sua banda seguir o ritmo, sempre incentivando um instrumento a duelar com o outro, para fazer a música ganhar corpo. Nesta canção, Back Door Man, dá para ouvir claramente como a guitarra e o piano (tocado por Otis Spann, que muitos consideram o maior pianista da história do blues) caminham lado a lado, servindo como suporte para a voz rasgada de Wolf

Aliás, um detalhe: Já vi mais de uma pessoa interpretando essa canção como a primeira menção a sexo anal na história da música. Mas isso é de uma burrice — ou vontade de polemizar — sem tamanho, já que Willie Dixon, tão rico em metáforas, jamais faria algo tão grosseiramente escancarado assim. O Back Door Man, na verdade, deve ser traduzido de forma literal (o homem da porta dos fundos) e é um termo clássico do blues para o sujeito que se torna amante de uma mulher casada. No blues, o amante sempre entra pela porta dos fundos (em Evil, que coloquei acima, Wolf faz menção a isso no final da letra).

Wolf com sua banda. À esquerda, o guitarrista Hubert Sumlin, um dos seus grandes parceiros na música e na vida

Mas, para quem procura metáforas, Spoonful é um prato cheio. Quem me segue no Twitter ou acompanha essa coluna sabe que essa canção é, de longe, uma das minhas preferidas de todo o blues. Eu sempre imaginei que falaria sobre ela quando escrevesse sobre Willie Dixon, mas como considero a versão de Howlin’ Wolf como a definitiva, acho que o mais honesto seja pensar sobre ela aqui mesmo.

A “colherada” é outro tema clássico do blues. É, na verdade, uma unidade de medida usada em muitas letras desde os anos 20, e sempre faz referência a algo valioso ou importante. Existem diversas leituras sobre o que estaria na colherada de Dixon. A primeira delas, literal, aponta para a música falando sobre amor:

“Poderia ser uma colherada de café
Poderia ser uma colherada de chá
Mas só uma colherzinha do seu precioso amor
É bom o suficiente para mim.”

Entretanto, quando se avança na letra, se percebe que o tom muda um pouco.

“Homens mentem sobre colherada
Alguns morrem por essa colherada
Alguns choram por essa colherada
Mas todos brigam por essa colherada.”

A música deixa de ser romântica e se torna mais violenta. Ainda poderia ser vista como uma música sobre amor, mas sua letra também leva a outras interpretações — a mais evidente delas é com drogas.

Nunca achei algum indício de que Dixon usasse heroína, mas a época confirmaria isso — e daria ainda mais força para o verso “só uma colherada do seu precioso amor é suficiente para me satisfazer”. Para encerrar isso, uma vez perguntaram a Dixon do que a música se tratava e ele respondeu que “a ideia era mostrar que você não precisa de muito “de qualquer coisa” para ser feliz, apenas uma colherada”. Ou seja, falou, mas não disse nada.

Eu acho a versão de Wolf estupidamente brilhante. A música é cadenciada e guiada por uma guitarra doce e moderna (afinal, já estamos em 1960), mas sua voz rasga a canção a cada verso — e na segunda estrofe isso acontece de forma quase impiedosa nas palavras “lie”, “cry”, “die”, mostrando um talento enorme no momento de escolher qual palavra (ou emoção) ele quer destacar em cada verso.

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Wolf foi um dos blueseiros mais bem sucedidos de sua época, já que a redescoberta do blues pelos artistas britânicos aconteceu pouco depois de sua carreira começar a decair — ou seja, ele passou pouco tempo “esquecido”. Tornou-se um ícone para os membros de bandas como Cream e Rolling Stones.

Mas quem cobrou seu preço foi sua saúde. Ao longo dos anos 60, Wolf enfrentou diversos problemas cardíacos, e um acidente de carro em 1970 prejudicou seus rins — o que não o impediu de, em 1971, gravar um disco extremamente importante, The Howlin’ Wolf London Sessions, ao lado de nomes como Eric Clapton, Steve Winwood e membros dos Rolling Stones.

A nata do blues excursionando pela Europa no começo dos anos 60. Da esquerda para a direita: Howlin’ Wolf, Willie Dixon, Sleepy John Estes, Sonny Boy Williamson II, Sunnyland Slim, Sugar Pie DeSanto, Lightnin’ Hokins, and Hubert Sumlin

O garoto que escapou do Mississipi de cabeça erguida morreu em 1976, deixando um legado incomparável no blues. Voltou poucas vezes para sua terra natal, mas uma delas, no auge do seu sucesso, foi marcante. Reencontrou a mãe e tentou ajuda-la financeiramente, mas caiu em lágrimas quando ela recusou o dinheiro, reclamando que “o filho havia enriquecido cantando a música do demônio”.

Talvez tenha sido ali que Wolf descobriu que podia deixar o Mississipi do começo do século para trás, mas que, não importava a distância ou a passagem do tempo, a vida dura de sua infância estaria sempre dentro dele. Sorte do blues.


Clique e Ouça — Músicas para Conhecer:

How Many More Years — É seu primeiro single gravado para a Chess e já mostra uma música vibrante e arrojada — lembre-se que ela é de 1951 — mas com uma letra típica do Delta, em que o músico preferia estar “dormindo sete palmos abaixo da terra” ao invés de passar pelos problemas que enfrenta no relacionamento (e que ele pergunta, logo no primeiro verso, quantos anos isso ainda irá durar).

Moaning at Midnight — Wolf foi esperto e gravou um single para a Chess (How Many More Years) e outro para a RPM Records (Riding in the Moonlight). E foi mais esperto ainda e usou o mesmo lado B para os dois discos. Talvez ele não tivesse feito se adivinhasse que o lado B se tornaria um dos maiores clássicos de sua carreira.

Little Red Rooster — Outra canção brilhante de Dixon que remete a uma velha tradição do Delta, que dizia que um galo traz paz para a fazenda. Sua letra, no velho esquema “pergunta, repete a pergunta, resposta” é acompanhada por um ritmo lento, quase preguiçoso. Mas, como se trata de uma canção de Dixon, seu sentido é ambíguo e há quem jure que a música não seria sobre um galo, mas sim… Um pouco mais, digamos, fálica.

Sitting of the Top of the World — E fechamos o post com um vídeo que mostra Wolf entregando sua versão de Sitting of the Top of the World, o maior sucesso dos Mississippi Sheiks, grande grupo musical dos anos 20 e 30. Até onde sei, é o único vídeo colorido de Wolf.

* * *

Obs.: Este texto foi originalmente publicado na série Sábado de Blues, lá no Medium do autor, Rob Gordon, que sai - pasmem - todos os sábados.


publicado em 21 de Julho de 2016, 00:00
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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