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Bolhas de realidade | Mundo interno #10

Se num dia estamos felizes, querendo mandar flores e no outro brigamos, qual o detalhe sutil que nos fez surgir diferentes?


Voltei recentemente de um período imerso em contemplação, observando e conhecendo melhor a minha mente, tendo acesso a sabedorias que fogem de tudo que já conhecia. Literalmente tocando o céu.

Fiquei com vontade de tentar aprofundar e explorar, com vocês leitoras e leitores, um dos aspectos que contemplamos por lá e que podem nos ajudar a caminhar melhor pelos mundos em que vivemos e pela vida de forma geral.

A pergunta seria, mais ou menos, assim: se num dia estamos felizes, querendo mandar flores para o mundo inteiro e no outro brigamos com alguém, qual o detalhe sutil que nos fez surgir diferentes? Ou ainda, quando duas pessoas estão na mesma casa, uma trocando mensagens apaixonadas e outra pensando em se matar, onde elas realmente estão? Em que lugar sutil nós vivemos?

O lugar sutil onde colocamos nossa mente cria as bolhas de realidade em que entramos e que acabam por modificar nosso jeito de ver o mundo, que nos condicionam a agir de formas pré-definidas, que nos travam quando não conseguimos enxergar adiante. Essas bolhas surgem como um modo padrão pelo qual andamos pelo mundo, quase como um software que usamos para enfrentar as várias situações que nos acontecem no dia a dia.

As bolhas de realidade são construídas e surgem com um forte senso de identidade; um senso de propósito; um senso de urgência; senso de competitividade. Podem fazer brotar, também, emoções perturbadoras (medos, culpas, orgulho, inveja etc), narrativas que contamos pra nós mesmos para justificar a situação, metas e planejamentos restritos.

Quando reclamam que a pessoa é de um jeito quando está com a namorada e de outro quando sai com os amigos, elas já estão identificando as bolhas por onde a pessoa transita. No final do expediente, quando pegamos o carro para ir pra casa já estamos operando com todas as características que descrevemos acima. O trabalho é outra bolha que, além de tudo que já identificamos, ainda tem uma noção meio truncada de que aquilo é realmente muito importante e não conseguiríamos viver sem.

Os relacionamentos, mais especificamente os conflitos, são ótimos exemplos para contemplar as bolhas. Quando brigamos, já estamos operando a partir de identidades e cada um está defendendo a sua. Numa briga também sempre existe um propósito, seja de acusar, defender, explicar, cobrar, justificar... e sempre surge um senso de urgência para resolver aquilo o mais rápido possível, sem nem dar chance de ver o caos operar por algum tempo.

Quanto mais exemplos nós conseguirmos encontrar, melhor vamos ficar em identificar os condicionamentos que levamos pra cada situação. Isso porque vai ficando mais fácil perceber quais são os automatismos que levamos para cada bolha, como agimos diferentemente em cada uma.

Se conseguirmos enxergar os exemplos então seremos capazes de “furar a bolha” e operar de forma mais ampla, acessando aspectos que a visão limitada da bolha não nos permitia.

"Tudo aquilo que chamamos de sabedoria surge quando estamos olhando de forma mais ampla"

—Lama Padma Samten (durante o Retiro de Verão 2015)

Acessar uma visão mais ampla significa não entrar no jogo que se apresenta acreditando que ele seja sólido, fixo, pesado, impossível de jogar de outra forma. Essa visão, ou sabedoria, seria o início do rompimento dos limites usuais em que operamos.

Por exemplo, um competidor pode olhar a prova como sendo super sólida, acreditando que aquilo é pra valer, questão de vida ou morte, mas o mesmo competidor pode olhar aquilo de outro jeito e simplesmente parar de competir ao encontrar um adversário machucado.

O mesmo vale para a discussão que, se não treinarmos esse olhar que vê além das bolhas, vai parecer super séria e densa. Mas a discussão só surge quando não enxergamos a situação de forma mais ampla, entendendo o outro e entendendo as limitações inevitáveis das coisas.

"Quando você vê uma pessoa, é muito difícil não olhar de dentro de uma bolha" —Lama Padma Samten (durante o Retiro de Verão 2015)

Isso porque sempre que tentamos entender alguma coisa cognitivamente estamos tentando encaixar aquilo dentro da bolha em que já estamos. Se chega uma pessoa nova no departamento, tentamos entendê-la dentro da base pela qual estamos operando, como encaixá-la dentro dos condicionamentos que já estão presentes. Quando olhamos a esposa (ou marido) de dentro da bolha não conseguimos ver a pessoa por trás desse título, mas depois de uma separação dizemos que “só demos valor depois que perdemos”. O que mudou senão o olhar sutil?

Mas operar em bolhas não é nem bom nem ruim em si, é apenas um jeito de viver, uma operação mental que usamos sem nem nos darmos conta. Podemos descrever as bolhas como algo mais grosseiro, uma zona de conforto que se rompe, mas podemos enxergá-las como algo mais sutil que rompemos e recriamos infinitamente durante o dia.

O que devemos evitar é atuar dentro disso às cegas, obedecendo as “regras” sem suspeitarmos do que está acontecendo. Para isso, nós não precisamos negar as bolhas e nos desesperarmos quando percebemos que estamos em uma. Podemos apenas relaxar não dando tanta solidez para aquilo, não agindo de forma automática — por condicionamentos — e lembrar que existe um aspecto muito mais amplo operando a todo instante, sempre trazendo outras opções e ações possíveis. A partir daí podemos sorrir.

Sobre a série colaborativa "Mundo interno"

Junto com as pessoas que participam do lugar e também com qualquer leitor ou leitora do PdH que quiser colaborar, vamos publicar alguns textos com essa motivação de mapear e ganhar clareza sobre nossos mundos internos.

A ideia é descrever em primeira pessoa, iluminando por dentro, processos que normalmente são abordados de modo exteriorizado. Será um exercício de introspecção e também de linguagens mais precisas, estimulado empatia e conversas mais profundas.

Em vez de testar mais um método de produtividade, como posso trabalhar diretamente com os processos sutis de distração, torpor e ansiedade? Se lá fora vejo qualquer que seja o fenômeno, o que vejo quando olho para dentro? Qual o mundo interno de uma empresa? De uma avenida congestionada? De um site como o Facebook ou o PapodeHomem? Quando aparentemente estamos aqui ou ali, onde estamos de verdade?

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

veja como entrar e participar →


publicado em 23 de Março de 2015, 00:35
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Marcos Bauch

Nascido na Bahia, criado pelo mundo e, atualmente, candango. Burocrata ambiental além de protótipo de atleta. Tem como meta conhecer o mundo inteiro e escreve de vez em quando no seu blog, o De muletas pelo mundo.


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