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Borges, autor de Borges | WTF #70

É Borges um escritor ou é o escritor um Borges?

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Algumas vezes me deparo com alguém que não conhece Borges. Como diante de uma figura digna de um bestiário medieval, a surpresa se mistura com desprezo e inveja. Eis alguém que pode encontrar Funes pela primeira vez, e não como um rastro fugidio de uma sequência de encontros cumulativos, mas como primeira experiência.

"Como assim você não leu Borges? Retire-se do recinto"

Caso trate-se de alguém que se interessa por ler, ou por especulação filosófica – ou apenas que seja um esteta em qualquer nível – a inveja é justificada: aí temos alguém que vai arregalar os olhos perante um cego gaúcho de estirpe britânica. “Borges e eu” e o leitor num espelho-labirinto, onde nos deparamos com Martin Fierro e delírio de Almotássim. E Tlön se descortina diante de nossos olhos.

Meu primeiro site na internet foi dedicado a Borges. Antes da academia se deslumbrar com a meta-hipertextualidade do Aleph numa Biblioteca de Babel agora tanto mais real quanto virtual, eu photoshopei uma letra hebraica e a centralizei com html numa página branca, linkando duas ou três traduções de Borges que me impressionaram a adolescência. As pessoas entravam no meu site e escreviam para meu e-mail para conversar sobre o nome de Deus impresso nos padrões de pelo de um tigre, ou algo assim – em 1996.

Sei exatamente como cheguei a Borges. Foi borgiano. Num volume ensebado de comentários sobre ficção científica, um nerd medieval (anos 80) brasileiro (Gilberto Schroder) comparava algum autor – ou dois autores, provavelmente Philip K. Dick e Kafka – ao lorde fantástico dos pampas.

Livros fáceis de encontrar, muitos leitores entusiastas nesta Porto Alegre lúgubre e senegalesa, e ainda assim parecia que penetrara uma sociedade secreta. Algum horizonte de eventos onde um Argentino escrevia uma prosa curta lapidar intertextual fantástica – um verdadeiro Escher linguístico do estranho, mas não do sobrenatural ou decadente: um estranho filosófico, um estranho de sofisticação estética e prosa lapidar.

O Aleph (o de verdade)

Mencionar Borges numa conversa é, há pelo menos cinco décadas, ganhar o banco imobiliário do capital intelectual. Não há quem conheça que não louve, não há quem louve que não reconheça uma irmandade de leitores.

Certo, Borges era alguma espécie de almofadinha. Seus textos estão mais para a fuga teológica do que para algum nível de consideração sobre o sofrimento no mundo – que não seja da ordem mais abstrata e “existencial”, mas nem bem isso. Borges é o platônico da biblioteca invisível e infinita, de uma cultura de iniciados um tanto ensimesmados: Borges é meta.

Seu apoio a ditaduras e o aparente se entregar pra cultura gringa – um elitismo desbragado e sem desculpas – o fizeram um escritor pouco amado pelos argentinos. Quando estive em seu país imaginei livrarias lotadas de boas edições suas, mas encontrei o que se encontra no Brasil, talvez um pouco menos. Além de tudo, após a morte da mãe, de quem dependia fortemente, casou – dizem, sem consumar, teria morrido virgem: “os espelhos e a cópula são abomináveis, pois reproduzem os homens” – com uma japonesa muito mais jovem, que detendo seus direitos se tornou um pesadelo para as editoras.

E também almofadinha porque não se desculpava da erudição e não estava nem aí para “público-alvo” – se você não saca que ele está falando de alguma obra ficcional, você perde a piada, apenas isso. Mais almofadinha ainda porque completo rato de biblioteca, crítico literário em meio à ficção, em mais de um sentido produzindo “ficção crítica”.

Porém, tudo num estilo terso, claro na superficialidade, profundo no contexto intertextual. Enganosamente simples, portanto.

O conundrum de Borges explicita algo de sua relação com recursividade, circularidade, infinito e autorreferência:

“Se não estou equivocado, as peças heterogêneas que enumerei se assemelham a Kafka; e, se não estou equivocado também, nem todas se assemelham umas às outras. O segundo fato é mais importante. Em cada um destes textos encontramos a idiossincrasia de Kafka num grau maior ou menor, mas se Kafka nunca tivesse escrito uma só linha, não seríamos capazes de reconhecer esta qualidade; em outras palavras, ela não existiria. O poema Fears and Scruples de Browling é um presságio do trabalho de Kafka, mas a leitura de Kafka perceptivelmente tanto torna precisa quando refrata nossa leitura do poema. Browning não o leu como nós agora o lemos. No vocabulário dos críticos, a palavra ‘precursor’ é indispensável, mas deve permanecer limpa de qualquer conotação de polêmica ou rivalidade. O fato é que cada escritor cria seus próprios precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado, da mesma forma que modifica o futuro.”

É o autor que escreve o texto, ou o texto que escreve o autor?

Claro, se você já leu Borges, não sei para que serve esse texto, senão para reforçar uma irmandade já estabelecida. Para quem não leu, minhas recomendações de contos essenciais de Borges são:

As ruínas circulares, sobre idealismo e imortalidade, que em conjunto com Pierre Menard, Autor do Quixote, também trata do conundrum de Borges, bem como questões de tradução e crítica literária com suprema fina ironia. Na Biblioteca de Babel, Borges foca o mesmo tema da reprodutibilidade do texto, só que agora não como forma de enriquecimento da obra, mas o oposto. Os filósofos Quine e Daniel Dennett desenvolveram experimentos de pensamento conectados com esse conto.

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius usa o idealismo berkeleyano como uma crítica contra o totalitarismo, enquanto que Funes, o memorioso trata de epistemologia da memória, savants, “milagres desperdiçados”, sistemas de contagem, linguagens artificiais, universais e insônia.

A aproximação ao Almotássim detalha um enorme e intrincado livro de detetive ficcional – Borges relata em sua biografia que na primeira publicação do conto algumas pessoas escreveram para Londres encomendando o livro.

Isso tudo num só livro de contos, Ficções. É caro, se mostrará essencial ler também O Aleph e História Universal da Infâmia, O Livro dos Seres Imaginários, O Livro de Areia e Labirintos.

Borges disse que “O importante é imagem de você que você cria na mente dos outros. Muitas pessoas consideram Burns um poeta medíocre. Mas ele representa muitas coisas, e as pessoas gostam dele. Essa imagem – como também com Byron – pode no final ser mais importante que a obra.” E alguns críticos acreditam que, de fato, Borges foi eclipsado pela própria obra.

Enquanto que estes contos fantásticos são a diversão de estudantes de filosofia por todo lado, e louvados por todos – a poesia e o resto da prosa de Borges são ignorados. Talvez por isso também Borges nunca ganhou o esperado Nobel: o Borges como figura humana, dotada de calor humano, nunca foi enfatizado. Embora ele tenha escrito um tanto de coisas, talvez não tão brilhantes, mas calorosas, nunca ninguém enfatiza isto perante o fascínio com seus puzzles filosóficos.


publicado em 17 de Setembro de 2015, 00:00
File

Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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