Carta de um professor de artes marciais

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Há uns dias, contei por aqui de uma conversa que tive com o Gil Eanes. Se você se interessa pelo tema, sugiro ver aquele post antes deste, pra coisa fazer um pouco mais de sentido.

Além de ser um daqueles amigos que não se acha em qualquer esquina, o Gil é um professor bastante experiente de artes marciais, responsável por treinar e liderar outros grupos de instrutores e alunos em várias regiões do país.

Ele é tido como um "Dai Si-Hing", que significa "irmão mais velho". Na tradição chinesa de artes marciais, este nome é dado para aqueles que, além de ter as habilidades técnicas necessárias para o ensino, têm capacidade de ajudar os mais novos, não só no treinamento de lutas, mas no que lhe for possível.

Estou retomando o assunto porque esta semana ele enviou um comunicado para todo o grupo de instrutores, alunos, ex-alunos, amigos, pessoas próximas... Uma carta aberta, uma fala de coração, que eu achei bonita e sincera demais pra ficar apenas nas nossas caixas de entrada de email. Pensei que seria algo bom de compartilhar aqui.

Este é o Gil.

O Si-Hing mora num lugar onde não chega internet e sinal de celular – uma zona rural bem bonita e retirada na região de Joinville-SC. Há dois dias enviei email e sms perguntando se ele achava uma boa fazer a publicação aberta da sua carta aqui no PdH. Ele não respondeu ainda... mas já vou abrindo tudo e torcendo pra ele não achar má ideia.

O texto é maior, entra em detalhes de treinamento e mudanças ousadas na organização geral das academias e hierarquias. A parte que nos interessaria mais, penso, é esta:

Olá, meus amigos,
Estou enviando este email para vocês, que sei terem um interesse de coração no treinamento e na amizade que desenvolvemos nesses últimos tempos.
Queria comentar que no último ano fiz várias experiências em nossa escola de artes marciais, tanto em termos de didática, quanto em valores e horários de treinamento, tentando sempre achar um melhor resultado pra todos nós. E tendo pensado bastante, e com a ajuda de vários alunos e amigos, estou com uma percepção que gostaria de compartilhar com vocês.
O caminho da artes marciais é bastante duro, exige-se bastante disciplina e vontade, e é um verdadeiro desafio conseguir conciliá-lo com os outros compromissos e demandas que temos na vida – família, trabalho, relações, estudos...
Já há um bom tempo que sempre me surge uma dúvida, um questinamento: “O que me motiva a estar 16 anos neste caminho? E o que me motivará a ficar nele mais 16 anos ou o resto de minha vida? Será que é só ser bom em luta? Saber me defender? Desenvolver autoconfiança, disciplina e direcionamento? Ter e manter uma boa saúde? Ter melhor controle emocional? Conseguir viver bem fazendo o que amo? Etc, etc...
Eu tenho pensado que é tudo isso misturado, mas também tem que haver algo mais. Pois, quando eu alcançar tudo isso... e aí? Quando eu ficar bom tecnicamente, quando for capaz de vencer todos os outros, e aí, qual terá sido exatamente o valor disso? O que vai me sobrar a fazer?
Penso que, de certa forma, em todas as coisas que fazemos, na verdade o que buscamos é sermos felizes, melhorarmos a nossa vida, termos satisfação e relações boas ao nosso redor. E acredito, de coração, que as artes marciais podem nos ajudar em alguma medida a fazermos isso. Eu acho que é acreditar nisso que me dá a maior motivação pra continuar treinando, ensinando e ajudando, conforme a minha capacidade, a manter a tradição viva.
Às vezes me parece que vivemos numa sociedade e num tempo em que nós temos tantas dificuldades... Estamos cheios de problemas psicológicos, fraquezas físicas, falta de saúde, vícios e hábitos ruins que não conseguimos superar. E se nós mesmos temos pouca capacidade física e mental, então podemos fazer muito pouco pelos outros ao nosso redor, pelos nossos amigos, pela nossa família...

"Conhecer a si mesmo é estudar a si mesmo na ação com outra pessoa" –Bruce lee

O caminho nas artes marciais não é perfeito e completo, não é imune a estas fraquezas todas, aos maus hábitos de corpo, mente e relações, mas acredito muito que ele pode ser útil se o usarmos como uma ferramenta, um jeito de nos juntarmos, que ele pode nos transformar e nos tornar mais fortes, hábeis e úteis, de verdade.
Queria pedir que pensassem um pouco sobre estas coisas. Nem sempre eu consigo expressar isso direito pra vocês, por escrito ou mesmo quando estamos juntos, mas queria que soubessem que é isso que está no meu coração. No fundo, é isso o que me motiva com amor a me dedicar neste caminho.
Agradeço a todos por me ajudarem e me darem a oportunidade de fazer isso.
Um abraço sincero e bem grande, do seu Si-Hing.

Vamos nos encontrar?

Em duas semanas vai rolar o 3º Cabana-Do. O motivo porque estamos novamente fazendo este encontro é porque nós também acreditamos em coisas assim. No fim das contas, ninguém quer lutar por lutar, suar por suar. Parece que ficamos nos engajando nas atividades todas com uma esperança não percebida de que aconteça alguma outra coisa.

A minha aposta também é a de que o que queremos mesmo é sermos mais felizes, mais relaxados, menos ansiosos. E de quebra, fortalecer vínculos, aumentar e melhorar nossos círculos de amigos e relações, dar uma volta em outros mundos, passear um pouco mais longe dos nossos umbigos.

Gil Eanes e Alberto Brandão aprontando altas confusões no 2º Cabana-Do

E na verdade daria pra fazer isso através de qualquer atividade. Por aqui já subimos montanhas, cozinhamos, tocamos música, meditamos, trabalhamos, empreendemos, visitamos e desafiamos os nossos amigos e a nossa solidão, dançamos, filosofamos, vamos fazendo mil coisas de um jeito meio maluco, e mesmo sem saber direito como, vamos aprendendo.

Por acaso, no dia 25 agora, vamos fazer isso com exercícios físicos, socos e chutes. O Gil Eanes vai encontrar o seu professor, o Sifu Cemil Uylukçu. ("Sifu" significa uma mistura de professor, pai, padrinho e cuidador). E nós queremos nos juntar a eles e passar um dia usando as artes marciais como desculpa pra fazer o que importa mais.

Link YouTube

25 de novembro | 10h às 18h30
Academia Bodytech do Shopping Eldorado | São Paulo - SP
R$100,00 pra quem participa ou já participou da Cabana PdH
R$150,00 para mulheres e homens leitores do PdH
Vagas: 50

O valor pra participação do evento é uma tentativa de cobrir ao menos gastos – passagens, alimentação e hospedagem do Sifu, nossas horas de trabalho, etc. Até este momento, como de costume (por burrice, romantismo, idealismo, ingenuidade ou por uma inteligência maluca – sabe deus) estamos dando prejuízo pra empresa PapodeHomem. Desculpa, departamento fincanceiro.

De qualquer forma, ainda estamos aqui, ainda conseguimos nos reunir assim. E este é um convite. Um convite de coração. Ah, e desta vez as mulheres também estão especialmente convidadas.

O post com todas as informações está aqui.

Pra fazer sua inscrição online, vá aqui.

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

veja como entrar e participar →


publicado em 08 de Novembro de 2012, 16:39
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Fábio Rodrigues

Trabalha em espaços onde se pode aprender como melhorar as relações, cultivar o mundo interno e florescimento humano — sem oba-oba, com os pés no chão do cotidiano. Coordenador do lugar, tutor no CEBB Joinville, professor do programa Cultivating Emotional Balance, artista visual, pai do Pedro.


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