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Colocar-se em outra pessoa | Exercícios de empatia, 8

A empatia é tão impossível quanto soa e tão imprescindível quanto parece.

Empatia não é pena, dó, caridade — todos sentimentos condescendentes.

Empatia não é amor, simpatia, agrado — todas manifestações de afeto pessoal.

Empatia não é entendimento, compreensão — todas operações de redução e controle.

Empatia não é algo que se exerça de fora para dentro, de uma pessoa para outra.

Empatia é ESTAR dentro de outra pessoa, sentir o que ela sente, pensar o que ela pensa.

E, sim, é tão impossível quanto soa e tão imprescindível quanto parece.

* * *

Esse é o sétimo exercício de empatia. Antes de continuar a ler, ou de fazer o exercício, por favor, leia o primeiro texto dessa série, onde eu contextualizo os exercícios. 

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A boneca de sal

Era uma vez uma boneca de sal. Após peregrinar por terras áridas, descobriu o mar e não conseguiu comprendê-lo. Perguntou ao mar: “quem é você?”

E o mar respondeu: “sou o mar.”

“Mas o que é o mar?”

E o mar respondeu: “o mar sou eu.”

“Não entendo”, disse a boneca de sal, “mas gostaria muito de entender. como faço?”

O mar respondeu: “encoste em mim.”

Então, a boneca de sal timidamente encostou no mar com as pontas dos dedos do pé. Sentiu que começava a entender mas também sentiu que acabara de perder o pé, dissolvido na água.

“Mar, o que você fez?!”

E o mar respondeu:

“Eu te dei um pouco de entendimento e você me deu um pouco de você. Para entender tudo, é necessário dar tudo.”

Ansiosa pelo conhecimento, mas também com medo, a boneca de sal começou a entrar no mar. Quanto mais entrava, e quanto mais se dissolvia, mais compreendia a enormidade do mar e da natureza, mas ainda faltava alguma coisa:

“Afinal, o que é o mar?”

Então, foi coberta por uma onda. Em seu último momento de consciência individual, antes de diluir-se completamente na água, a boneca ainda conseguiu dizer:

“O mar… o mar sou eu!”

* * *

Todo conhecimento tem um custo.

O texto acima foi adaptado das versões do Frei Leonardo Boff e do padre jesuíta Anthony de Mello.

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"Trate as pessoas como gostaria de ser tratada"

Poucos conselhos podem ser mais egocêntricos e narcisistas do que esse.

Não é verdade que devemos tratar as pessoas com gostaríamos de ser tratadas.

Porque a outra pessoa é uma outra pessoa. Porque ela teve outra vida, outras experiências. Porque ela tem outros traumas, outras necessidades.

Basicamente, porque ela não sou eu. Porque eu não sou, nem nunca vou ser, nem devo ser, a medida das coisas.

Utilizar a mim mesmo, minhas vontades e necessidades, o jeito que quero ser tratado, como se eu fosse o parâmetro para todas as outras pessoas é a essência do narcisismo e do egocentrismo. É o exato oposto de empatia.

A outra pessoa deve ser tratada não como eu gostaria de ser tratado, mas como ela merece e precisa ser tratada.

E como vamos saber como essa tal outra pessoa merece e precisa ser tratada?

O primeiro passo é sair de mim mesmo e deixar de me usar como parâmetro normativo do comportamento humano. Essa é a parte fácil.

Depois, preciso abrir os olhos e os ouvidos e o corpo inteiro, e reconhecer que existem outras pessoas no mundo, e que elas são todas bem diferentes de mim.

E que o único jeito de perceber o quão diferentes elas são é enxergando-as, escutando-as, conhecendo-as.

Com atenção plena e empatia verdadeira.

* * *

Reconhecer nossa ignorância e abrir nossos ouvidos

Para praticar a empatia, é preciso antes reconhecer que não sabemos nada.

Que a vida de cada pessoa inclui um horizonte de acontecimentos que se estende perpetuamente além de nossa visão: a gonorreia de uma anciã está conectada a sua culpa que está conectada ao seu casamento que está conectada aos seus filhos que estão conectados aos seus próprios dias de menina...

Empatia vem do grego "em" + "pathos" (sentimento), ou seja, é um penetrar, uma jornada.

Entrar em outra pessoa é como visitar em um país estrangeiro: temos que passar pela imigração e pela alfândega, caminhando com cuidado, de pergunta em pergunta, de sentimento em sentimento.

Empatia é tentar entrar em outra pessoa, nesse país estrangeiro, mas sempre reconhecendo que jamais, jamais conheceremos realmente essa pessoa, que nunca seremos cidadãs desse país.

(As observações dessa subseção vêm de Leslie Jamison, em The Empathy Exams, 2014.)

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Um exercício para praticar empatia

Sente-se em um lugar tranquilo, onde possa ficar só por no mínimo meia hora. Coloque o cachorro ou gato para fora. Desligue retângulos luminosos. Tire o telefone do gancho.

Assim como não dá para conhecer uma época sem conhecer sua história, não dá para conhecer uma pessoa sem conhecer sua vida.

Por isso, escolha uma pessoa que você conheça razoavelmente bem, com quem tenha tido ou ainda tenha uma convivência intensa ou tumultuada.

Aquela pessoa que às vezes te tira do sério, para quem acaba falando coisas que realmente não tinha intenção. Talvez uma pessoa que não te entende, que não tem simpatia por você.

Vamos tentar entrar nela.

Pense nela, lembre-se dela. Veja sua imagem em sua mente. Ouça sua voz em seus ouvidos. Sinta seu cheiro em suas narinas.

Que histórias ela já contou de sua vida? O que você sabe sobre ela?

Tente lembrar-se de tudo. Cada detalhe. Mergulhe nessa pessoa.

Como ela se move? Como ela se coloca? Como ela se veste?

Como ela é? Como se sente? Como interage consigo mesmo, com as outras pessoas, com o mundo?

Qual é a sua narrativa pessoal de vida? Como ela se insere nessa narrativa?

Não se compare. Não pense no que teria feito no lugar dela. Não julgue.

Você não importa. Você não tem opinião. Você não existe. Você só entra no exercício como um ser humano visto através dos olhos dela, da visão de mundo dela, da biografia dela.

Como ela te vê? O que ela sabe de você? Como ela interpreta suas ações ou suas palavras a partir do ponto de vista dela?

Lembre-se: entendimento e compreensão, em sua essência, são operações de redução e de controle. (Veja a introdução aos exercícios de empatia.)

Não estamos tentando entender ou definir essa pessoa; reduzi-la ao seu mínimo denominador para então rotulá-la.

A operação que buscamos é expansiva. Não dedução, ou seja, partir do geral para o específico, mas indução, ou seja, partir do específico para o geral.

Estamos tentando ter acesso à totalidade dessa pessoa. Ver o mundo como ela vê. Sentir como ela sente.

Entrar nela. Estar nela. Ser ela.

Não é fácil. Não tem manual. Cada pessoa é uma pessoa.

Boa sorte.

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Exercícios de empatia, a série completa

1. Praticar um olhar generoso

2. Dar-se conta das pessoas

3. Ver na sua totalidade

4. Ouvir com atenção plena

5. Cultivar o não-conhecimento

6. Exercer a não-opinião

7. Não ser a constante

8. Colocar-se em outra pessoa

9. Escolher agir com empatia

10. Visualizar o privilégio

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Três avisos importantes sobre meus textos

Eles falam sempre sobre e para as pessoas privilegiadas, justamente para tentar fazê-las ter consciência de seus enormes privilégios. (Leia também Carta aberta às pessoas privilegiadas e Ação de graças pelos privilégios recebidos);

Buscam sempre usar uma linguagem de gênero neutra (Para mais detalhes, confira meu mini-manual pessoal para uso não sexista da língua);

E são sempre todos rigorosamente ficcionais(Ou não: Alex Castro não existesó o texto importa. Em caso de dúvida, consulte minha biografia do meu site pessoal.)

 


publicado em 21 de Abril de 2015, 12:40
File

Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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