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Como ganhar dinheiro com blog, ano 2

O Rodrigo Ghedin, do Manual do Usuário, retoma sua conversa sobre como faturar escrevendo um blog

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Abrir o seu próprio negócio é difícil, mas mantê-lo, é mais. Quase toda pauta sobre empreendedorismo veiculada pela imprensa inclui aquela famosa taxa altíssima de mortalidade das empresas em seu segundo ano de existência — em 2010, segundo o Sebrae, ela estava em 60%. Eu acabei de passar por esse período comumente turbulento e, dando sequência ao exercício feito aqui no ano passado, compartilharei novos dados sobre o lado business de ter e viver de um blog no Brasil.

Antes de começarmos a devorar os números, uma recapitulação. O Manual do Usuário, meu blog de tecnologia, foi criado no final de 2013 com a proposta de ser um lugar Slow Web, focado em menos matérias mais aprofundadas. Com o passar do tempo ele conquistou uma pequena base de leitores bastante participativa e desenvolveu seções próprias, como o post livre, um post publicado toda sexta-feira, sem conteúdo algum, apenas para conversarmos nos comentários. Acabou que ele ganhou uma cara e uma voz bem características.

Números, números e números

O Manual do Usuário cresceu bastante em 2015. Praticamente todas as métricas de praxe do mercado mais que dobraram. É relativamente mais fácil, no começo, observar esses grandes saltos, já que a base, o ponto de partida, deixa margem para aumentos expressivos.

Entre 2014 e 2015, o site cresceu esse tanto:

  • Visitantes únicos: +154,37%;

  • Visitas: +167,29%;

  • Visualizações de páginas: +159,43%.

Embora acumular grandes números não seja o meu objetivo principal, é algo útil (me dá mais material para trabalhar estratégias comerciais) e, confesso, uma bem-vinda massagem no ego. Afinal, se tem mais gente interessada e lendo o que eu publico, é sinal de que alguma coisa ali está certa.

No faturamento as coisas melhoraram também. Naquele primeiro texto usei um referencial de meta (100%) para indicar em que ponto estava rumo a ela. Em 2015 avancei um pouquinho, o suficiente para ultrapassar a metade dela:

O crescimento bruto no faturamento foi de 20%, o que é bem fantástico independentemente de qualquer coisa. Só que tem um detalhe que se revela ao quebrar esse grande valor em fontes, um que me deixou animado. Tente localizá-lo:

Em 2014, mais da metade do faturamento não tinha origem direta no Manual do Usuário. Os freelas que fiz naquele ano para outras publicações foram responsáveis por 55% do total. Já em 2015, não fiz nenhum, nada, zero; toda a renda veio do próprio site.

Nesses termos, ou seja, se excluirmos os freelas do primeiro gráfico, o aumento no faturamento do Manual se mostra bem maior, de 164,5%. Para mim, nada mal.

Nesse período me foram oferecidos dois ou três trabalhos por fora, os quais recusei, em parte, para me manter focado no Manual do Usuário. (Em outra, devido à universidade, que ainda me toma um bom tempo em paralelo ao site.) Eu gosto desses freelas, eles costumam ser desafiadores e quase sempre pagam bem. As recusas, difíceis, foram feitas pensando no longo prazo. Pode-se encará-las nesse contexto como investimentos. Afinal, cada trabalho recusado se converteu em um ou alguns posts extras no meu site, mais atenção aos leitores e no desenvolvimento de ideias para melhorá-lo.

O crescimento, em detalhes

Veja este outro gráfico, com os freelas de 2014 excluídos, e repare como a participação de cada área mudou de um ano para outro:

O maior aumento de participação, de 114,3%, foi o do AdSense, os anúncios programáticos do Google. Não sou um grande fã desse tipo de inserção publicitária e tento evitá-la sempre que possível, mas, respondendo por 15% do faturamento no ano, não posso me dar o luxo de removê-la por completo. Porém, se você entrar no Manual do Usuário pela capa, não verá nenhum AdSense. Deparar-se com um por lá, na real, é bem difícil. Isso é algo deliberado. Como?

É bem simples: eu mostro anúncios a quem é mais propenso a clicar neles.

Para ver um anúncio do AdSense no Manual você precisa:

  • Acessar algum post via buscadores (Google, Bing). Nesse caso, ele aparece no topo da página; ou

  • Acessar um dos dez posts mais populares do mês anterior. Aqui o anúncio fica embrenhado no texto.

Cruzando as estatísticas de visualização de anúncios do Google com as de acesso do site, essa configuração entrega anúncios a 70-75% dos visitantes, a maioria gente que chega via… buscadores. O melhor aspecto dessa estratégia é que o leitor regular, que acessa o site diretamente, via redes sociais, pela newsletter ou agregadores de feeds, jamais se depara com anúncios do tipo. (Vez ou outra algum leitor se dá conta de que não vê anúncios e fica surpreso/confuso.)

O segundo maior aumento foi o das assinaturas (22,6%). Ofereço aos leitores a opção de se tornarem assinantes do site, contribuindo com uma pequena quantia mensal a fim de manter as luzes (e os PCs) do Manual ligados. O valor sugerido é de R$ 8; alguns contribuem com mais, outros com menos. Em troca, o leitor assinante ganha acesso a um grupo secreto no Facebook, recebimento de uma newsletter/curadoria de tecnologia semanal e dois adesivos do logo do Manual — que são bonitões! Para muitos, porém, esses benefícios são só extras; a maioria assina com o intuito de ajudar mesmo a manter o site e, como se vê, é uma ajuda determinante para que ele continue ativo.

Até o ano passado usava o Patreon como plataforma para os assinantes. Tem lá suas vantagens: fica tudo centralizado, permite às pessoas contribuírem com mais de um projeto sem muita dificuldade e tem um sistema de “perks" e conquistas atrelado ao valor da contribuição e ao montante total recebido pelo produtor de conteúdo. Só que ele tem problemas, também. Para mim, os que mais pesavam era o descaso do painel administrativo, que não me avisa quando alguém cancela a assinatura, e as taxas que, somadas, chegavam a quase 20% do valor bruto.

A disparada do dólar foi o estopim para sair do Patreon e lançar planos de assinatura em real, usando não um, mas quatro meios de pagamento simultaneamente. Hoje, quem quiser assinar o Manual do Usuário pode fazê-lo via: PayPal, PagSeguro, boleto bancário ou depósito em conta. Na média, cortei pela metade os encargos e comissões dos intermediários e, para o assinante, ficou mais previsível o impacto da assinatura nas contas, já que agora ela é paga em real, não mais em dólar.

Como esses novos meios de pagamento entraram no ar no começo de 2016, ainda não dá para saber que diferença farão. Mas espero que eles ajudem a manter o fluxo e a trazer mais gente para colaborar com o Manual.

Próxima área: comissões, com um aumento de 16,7% em 2015. Várias lojas virtuais oferecem programas de afiliados. O site cadastrado gera links com um código de referência e, se um leitor compra qualquer coisa por esse link especial, uma pequena comissão é destinada ao site que fez a indicação. O valor não muda para o consumidor, mas a porcentagem da comissão, sim — depende do departamento/tipo de produto. Na média, consigo comissões de 3,5%.

Alguém pode dizer que isso é um tipo de publicidade. Não nego, é mesmo. Por isso conduzi a implantação desses links no Manual com muito cuidado. No começo inseria links comissionados ao final de análises de produtos. Depois, passei a publicar posts semanais numa espécie de curadora das melhores promoções do varejo. E em novembro, na semana anterior à Black Friday, veio a solução definitiva: uma área à parte, dentro do site, dedicada a promoções.

O projeto foi desenvolvido do zero pelo Vitor Paladini em cima de funções nativas do WordPress — não há plugin algum envolvido. A nova seção foi incorporada da maneira certa: acrescentando, sem interferir ou atrapalhar a linha editorial. Para ajudar na divulgação, criei um perfil para promoções no Twitter que publica automaticamente toda promoção cadastrada e toda alteração de preço.

Novembro e dezembro foram os melhores meses de comissões da história do Manual e credito boa parte desse desempenho ao então novo sistema. Além da centralização, ele permite manter um fluxo constante de promoções (em vez dos posts semanais de antigamente) e facilita muito o cadastramento de novas ofertas, um trabalho totalmente manual, da pesquisa à inserção dos detalhes, feito por mim.

Cadê as empresas?

A parte que encolheu foi a dos anunciantes diretos. E o tombo foi grande, de 62,5%.

Tenho plena consciência de que o Manual do Usuário não é uma potência em números. Eu, e por extensão, o site, não temos um perfil mobilizador ou influenciador. Sequer tenho essa pretensão. A minha proposta é mais horizontal, é a de trazer assuntos interessantes e discutir, de igual, com os leitores. Frequentemente revejo pontos de vista e aprendo com quem me lê. Talvez eu tivesse mais seguidores, mais propostas comerciais e mais dinheiro sendo mais “dono da razão”, menos aberto a estar errado e aprender, mais propenso a ser estrelinha. Essa troca, porém, não me interessa muito.

Esse papo todo não é para me pagar de bom moço. É que, aqui, parece imperar a noção de que somente grandes campanhas direcionadas a grandes públicos são consideradas. É um mercado muito apegado à grandiosidade. Não há espaço, interesse ou vontade de promover produtos e serviços a públicos menores e mais seletos como o do Manual do Usuário. Grandes marcas focam em influenciadores capazes de dar grandes retornos; quem é médio ou pequeno parece ter ter algum bloqueio que os impedem de fugir do impulso no Facebook e, agora, fotinha patrocinada no Instagram.

E não é como se esses fossem os únicos caminhos possíveis. Por acompanhar uma área que se desenvolve em maior parte nos Estados Unidos, a tecnologia de consumo, acabo vendo, por tabela, alguns movimentos do mercado publicitário de lá. Em blogs do mesmo porte e até menores que o Manual do Usuário (exemplo, exemplo, exemplo), a frequência com que anúncios são veiculados é altíssima. Empresas como Squarespace e Mailchimp apostam em blogs e podcasts pequenos e segmentados porque enxergam um público especial neles. Por aqui, não consigo quebrar esse enigma das empresas que anunciam (ou que não anunciam) em sites pequenos. É um tanto desalentador, mas enfim. Choramingar não resolve o problema.

“People tend to have warmer feelings about advertisers on podcasts than other media, and they tend to remember us a lot more than on other media.”

— Mark DiCristina, diretor de marketing do Mailchimp.

Ter bom conteúdo não é garantia de retorno, da mesma forma que… sei lá, ter um diploma superior não garante mais um bom emprego. Por isso sempre investi mais tempo em meios alternativos de faturamento, sem depender de empresas, de anunciantes, do que correndo atrás deles. Por enquanto essa estratégia tem segurado as pontas e permitido manter algumas das bases do Manual: layout com visual limpo, pouca publicidade, publicação de conteúdo que eu julgo importante/interessante, e só, além de eu mesmo, ou seja, de pagar minhas contas e gastos. Mas “segurar as pontas” significa que o dinheiro que entra é insuficiente para qualquer coisa além de me manter e ao site.

Não consigo, por exemplo, trazer mais gente para escrever comigo. O servidor e os ajustes técnicos no site são feitos na camaradagem, por pessoas talentosas que gostam muito do Manual. São profissionais de ponta que, se fossem cobrar pelo que fazem, eu não poderia bancar.

O site é, em outra analogia, um trabalho artesanal em meio a redações, físicas ou virtuais, cada vez mais assemelhadas a linhas de montagem e que, num futuro breve, poderão ser, de fato, automatizadas. Há um "quê" de charme nessa abordagem; particularmente gosto da ideia, tanto que a reproduzo e acompanho muitas pessoas de fora com histórias e trajetórias similares à minha no Manual — e lamento, ao mesmo tempo, a escassez delas por aqui.

O terceiro ano do Manual do Usuário será muito provavelmente o mais difícil. As expectativas se elevaram com o bom desempenho do segundo e, além disso, fatores externos, especialmente a retração da economia, devem impactar o balanço no final do ano. Ter jogo de cintura e novas ideias para ultrapassar esses obstáculos será bem imprescindível. O futuro é incerto; isso amedronta e, ao mesmo tempo, me anima bastante.


publicado em 16 de Março de 2016, 00:00
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Rodrigo Ghedin

Escreve sobre tecnologia, estuda comunicação e vive tentando entender a convergência dessas duas áreas. Está à frente do Manual do Usuário, um blog de tecnologia diferente. Ele não sabe consertar seu computador.


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