Como se vestir bem em um país quente: a verdade inconveniente

Cá estamos novamente, agora para falar com o leitor ansioso por mais informações sobre vestuário masculino e, claro, para falar também com nosso querido leitor machão, que não se importa com moda (aquela coisa fútil de mulherzinha), que ele não tem nada a ver, que ele não liga pra isso, afinal, ele é homem, e homem é homem.. que é homem e tal.

E eu concordo, tem mesmo é que ser muito macho pra suar bicas num terno sob o sol de quase 40 graus e ainda ficar feliz achando que isso é sinal de status.

Tá firmeza, tá gostoso
Tá firmeza, tá gostoso

Se não bastasse o calor transbordante do nosso verão, enfrentamos algo que complica ainda mais nosso vestir: a oscilação térmica.

Acredito que a situação que vivo seja partilhada por muitos homens. Brasil, São Paulo, Barra Funda, Esquina com o Parque da Água Branca.


  • 8h – 10 graus celcius / nublado

  • 13h – 29 graus celcius/ sol a pino

  • 19h – 19 graus celcius / chuva dos infernos

Agora a pergunta que não quer calar:

É possível se vestir bem com um clima doido como o nosso?

Sinto muito. Para você, provavelmente a resposta seja não e provavelmente ela não tenha nada a ver com o clima.

É, na verdade, sobre como a grande maioria dos homens têm medo de se individualizar, de saírem de um grupo seguro e ficarem solitários, expondo suas opiniões ao sabor da revelia alheia.

Explico. Embora a maioria dos brasileiros não tenha conhecimento cultural e reflexivo sobre a moda, ela, como qualquer outra ciência, pode ser aprendida e utilizada a nosso favor.

O problema aqui é bem mais embaixo, mais especificadamente, nos culhões.

Basicamente, a maioria (com grande chance de você estar incluso) simplesmente não tem culhões para romper com o pré-estabelecido e viver de maneira distante do seu grupo de semelhantes.

Muito provavelmente você também aja assim, inconscientemente. Ao se identificar com um grupo, você mimetiza suas características. Gírias, roupas, passeios, até sua barba (ou ausência dela).

Olhe os que estão próximos à você e com certeza serão seus semelhantes (e não estou falando no sentido cristão da palavra).

Somos "os barbudos cabreros que se vestem de mecânicos"
Somos "os barbudos cabreros que se vestem de mecânicos"

Não credito este tipo de atitude somente a um fator cultural, afinal, ignorar milhares de anos de evolução seria burrice.

O homem derivou-se de animais que sempre viveram em grupos e esta vivencia sempre foi vital para sua sobrevivência, portanto, é natural que ainda tenhamos em nós esta característica intrínseca.

Qualquer semelhança não é mera coincidência
Qualquer semelhança não é mera coincidência

Agora, o ponto que julgo mais interessante, se nos vestimos para sermos acolhidos no grupo que mais nos identificamos ou que almejamos pertencer, isso quer dizer que nunca teremos autonomia, nem pra escolher nossas próprias calças?

Fiquem calmos, senhores, afinal, vocês podem ter vindo do macaco mas não almoçam mais bananas, correto?

Voltando aos culhões, supondo que está um calor dos infernos e você é obrigado a usar terno e gravata para trabalhar, qual alternativa você tem?

Talvez não tenha dado a devida atenção a uma palavra na frase acima:


“ Você é obrigado a usar.”


Pense comigo.

Você pode se comunicar instantaneamente com um cara do outro lado do mundo, pode cruzar os mares em horas dentro de um avião, pode imprimir praticamente qualquer coisa em uma impressora 3D, mas trabalhar de camiseta em um ambiente social, não pode!

“Não pode.”

É hora de notar, senhores, que, neste caso, não é a moda a grande ditadora maléfica, mas sim a mentalidade preguiçosa e engessada que está enraizada na maioria do inconsciente popular, incluindo no seu.

Sejamos extremamente racionais: quantas vezes você usou uma gravata e se perguntou porque raios estava fazendo um nó no seu pescoço com um pedaço de tecido?

Provavelmente nenhuma. Mas caso queira uma resposta, ela será uma só:

"Porque é o que as pessoas que irei encontrar esperavam ver."

Não poderia existir resposta mais sincera e, também, mais imbecil.

Desmembremos parte do processo

Por que tenho que ir de roupa social trabalhar?


Meu chefe me deu esta ordem.


Por que ele me passou esta ordem?


É uma norma da empresa.


Por que a empresa criou esta exigência?


Porque as pessoas esperam isso dela.


E por que as pessoas esperam isso dela?


O porque ela não tem a mínima ideia, mas, se fizesse diferente, com certeza essa empresa seria vista com desconfiança pelos seu clientes.


Novamente, esta é a cerne da questão: o risco da diferenciação.

O que ainda não compreendo é por que temos tanta resistência em aceitarmos o que é diferente?

Penso, mais uma vez, que isso tem relação com a nossa evolução animal. Porém, acredito que ainda estamos evoluindo e, se toda evolução é também uma mudança, não vejo razão para não tentarmos algo diferente e nos adaptarmos a um mundo que hoje também é diferente do que era ontem.

Caso não goste da ideia de arriscar, continue mirando no exemplo da natureza e note que a maioria das espécies que não mudaram ao longo da evolução do mundo, acabaram extintas.

Tradição de vestes -- e do que quer que seja -- são abreviadores de comunicação e, como toda abreviação, podem encurtar caminhos e também torná-los turvos.

Você já parou para pensar que tradição e evolução são palavras de essências antagônicas?

"Pra que evoluir? Saca só meus dentes-zica, mano! Fera demais."
"Pra que evoluir? Saca só meus dentes-zica, mano! Fera demais."

Atente-se para o fato de, em nenhum momento, eu dizer se é ruim usar este ou aquele tipo de traje. Cada vestimenta (aliada ao ambiente onde é usada) te dará certa característica.

O que pretendo é torná-lo consciente, que você pode fazer escolhas e não precisa (nem deve) aceitar tudo que lhe é imposto, só pelo fato de sempre ter sido assim.

Cabe à você se dar o poder de escolher o que usar e, claro, sofrer as consequências e também colher os louros de sua decisão.

Pense nas grandes personalidades que você admira. Muito provavelmente o seu apreço tenha vindo do fato de elas terem rompido com as tradições e arriscado algo novo. Também é provável que uma grande parte delas usava roupas, penteados ou, quem sabe, um bigodinho bem diferente dos seus pares da época.

"Ô, chefe. Não posso mesmo usar o bigodinho? Juro que sou bom no que faço"
"Ô, chefe. Não posso mesmo usar o bigodinho? Juro que sou bom no que faço"

Nada que escrevi aqui se trata de uma verdade absoluta mas sim da minha verdade. Encontre a sua. Quem sabe assim, quando estiver aquele sol dos infernos, você esteja suando um pouco menos.

As mulheres queimaram sutiãs em 1968 e você não consegue nem sequer ir pro serviço de camiseta?

Elas, definitivamente, não estão passando o mesmo calor que você para irem trabalhar.

Como diria Augusto Liberato: “ponto para as mulheres!”

Não se trata do resultado que consegue, mas sim do que você faz a respeito do problema.

Como sempre, meus amigos, espero que tenha sido útil, ou ao menos, divertido!


publicado em 25 de Setembro de 2013, 21:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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