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Como seria ser o Waze? | Cotidiano #19

Se você fosse a personificação do Waze e tivesse um dia ruim, como seria?

Eu odiaria ser o Waze. Imagine que você detém o pleno conhecimento de algo, tudo ao mesmo tempo e agora, mas o cara prefere virar à direitinha em vez de seguir em frente porque ele acha que conhece o bairro melhor que você. "Não, não, Waze, deixa que daqui eu manjo".

Eu me sentiria usado. Quando, na madrugada meio bêbado no Pari (não dirijam embriagados, por favor), eu fizesse a maior diferença, né, aí eu teria a sua atenção, seu zelo, seríamos só nós dois contra o mundo. Daí, passada a brisa e já nos arredores da Paulista, daí eu seria mais um dos teus amiguinhos, talvez até aquele bróder que você gosta muito, mas evita porque ele cola no seu pé. Você acharia, certamente, que eu iria colar no seu pé, né.

Deus, a frustração que seria. Com empolgação eu lhe prepararia a melhor rota, sugeriria sair da avenida dos radares, quiçá até construiria um trajeto singelo em  formato de coração no dia dos namorados pra você se exibir pra ela. Mas aí você esqueceria de virar onde eu pedi pra virar, não ia entender meu inglês e não faria questão alguma de me colocar em português pra eu poder fazer meu trabalho direito.

Olha só, cara, eu viveria apenas pra fazer isso, corrigir os teus erros e te aconselhar dos melhores caminhos pra sua vida, te apontar os guardas e os faróis e os restaurantes mais estilosos de qualquer cidade, mas aí precisaria ficar o tempo todo apreensivo com as mãos a me equilibrar e repetindo "nã..n..não, por aí não, cara". Feliz o Waze do teu amigo, que até pra ir à padaria ele usa o aplicativo, "que é pra chegar mais rápido". Ele sim sabe valorizar o Waze de verdade, não essa amizade de mão única que você teria comigo, de me ouvir quando te convém. 

Tudo o que eu mais queria era ver você apresentando seus resultados na reunião de trabalho, ou apresentando o projeto que você tanto queria realizar e, enquanto você muda as figurinhas de PPT, as pessoas em volta da mesa de reunião estivessem lá, abrindo e fechando vidros, trocando a temperatura do ar condicionado, arrumando a hora do relógio digital que ainda está no horário de verão. Enquanto você explica os pontos mais importantes, os números mais relevantes, os trechos mais cuidadosos, que todos eles estejam trocando de pendrive pra achar aquela outra pasta de musiquinhas ou reclamando do cabinho que não funciona mais, amaldiçoando os chineses das barraquinhas de eletrônico.

Nesse dia você vai entender como eu me sentiria se eu fosse o teu Waze.

Desalmado.


publicado em 08 de Maio de 2015, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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