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Seu churrasco e seu bife são mais prejudiciais do que você imagina ou Por que vivo sem carne #1

Os danos à saúde são só uma parte das consequências do consumo desenfreado de carne

A ideia de um texto sobre os efeitos do excesso da carne já me martelava há algum tempo. Esta é apenas uma visita àquelas coisas que, sem pensar, acabaram assumindo um espaço tão relevante e tão absoluto (no sentido de não-contrariado) em nossas vidas.

Em momento algum ao longo desta série (aguardem os próximos capítulos!) eu vou fazer apologia ao vegetarianismo (ainda mais porque ter consciência de suas escolhas e assumir a responsabilidade por elas não tem absolutamente nada a ver com ser vegetariano). Ok, talvez eu reserve algumas dicas lá para o último texto, mas meu objetivo principal é incitar a reflexão - e não ditar regras - quanto ao excesso de carne que consumimos atualmente, os efeitos disso para nossos organismos e para o meio-ambiente, e o que você pode fazer a respeito.

Pra isso, trago alguns dados ao longo do texto, sem citar posições contrárias. Em primeiro lugar, este texto é obviamente parcial: eu acredito nos danos causados pelo consumo de carne. Em segundo lugar, aqueles que já têm uma posição formada e são absolutamente irredutíveis não vão mudar de ideia nem que Einstein ressuscite dos mortos e prove, por A + B, que o consumo de carne, tal qual feito hoje, é prejudicial a nós, aos animais, e ao meio-ambiente. Ou seja, os argumentos pontuados a seguir pretendem promover o exame individual das convicções de cada um. E só.

Amigos?

Começa logo, Nicole.

* * *

Cena um

Eu tinha 16 anos quando fui diagnosticada com minha primeira úlcera nervosa. Ótimo. Depois de anos de gastrite, azia e refluxo, só me faltava essa. O tratamento? Além da remedaiada toda, o médico foi taxativo: nada de queijos gordurosos, frituras, refrigerante, carne vermelha, bebidas durante as refeições e comida muito condimentada.

Pausa.

Meu cardápio até então: ovo frito e pão branco (café da manhã), bife e batata-frita (almoço), bife (jantar). Tudo regado a muito suco de caixinha – e eu me achava saudável porque não bebia refrigerante e não gostava de coxinha.

Despausa.

Minha nossa, eu vou morrer de fome.

Cena dois

Munique, Alemanha, idos de 2012. Eu tentando convencer meus amigos alemães que, aqui no Brasil, comer carne estava intimamente associado à noção de masculinidade:

“Por isso que mais difícil para os meninOs do que para as meninAs, entende?”

Mentalizem uns 4 alemães extremamente transtornados.

“Mas o que tem uma coisa a ver com a outra?”

***

Carne sempre (e até bem pouco tempo atrás) foi um artigo de luxo. Aquele pedaço de bacon, toucinho, mocotó que a mãe colocava no macarrão, no molho, no feijão, somente aos domingos. Os imigrantes usavam as carnes “de segunda”, os residentes, as “nobres”. Os trabalhadores ficavam com as peças gordurosas e fibrosas e os chefes ficavam com as limpas e macias.

Oh, sim, sim, coma mais

Se levarmos em consideração os pratos mais emblemáticos das mais diferentes culturas, perceberemos que uma grande maioria deles não leva, em sua versão mais tradicional, carne: chucrute (Alemanha), fondue (Suíça), pappa al pomodoro (Itália), mjadra (Palestina, Líbano), falafel (Israel), curry (Índia), arroz-feijão-couve-farofa (Brasil), sopa paraguaia (que não tem nada a ver com sopa e, óbvio, é do Paraguai), arroz (China), tajine (Marrocos), baked beans (Inglaterra).

Hoje praticamente todos esses pratos foram “enriquecidos” com carne com o objetivo de, principalmente, agregar (i) sabor e (ii) calorias, o que é importante para garantir energia. Mas, na origem, eles preservavam a lógica de que a comida do dia a dia não levava carne. Ela só tinha lugar em ocasiões especiais, festas, exceções. O que mudou?

Pecuária intensiva. Uso da tecnologia na agropecuária (hormônios, vacinas, antibióticos). Multinacionais. Marketing. Aumento do poder aquisitivo da classe média. Em suma, um aumento combinado da oferta e da demanda.

E hoje a consumimos todos os dias, em todas as refeições. Os dados apresentados são controversos. Tem acadêmico alegando que a alimentação do futuro deixará de lado produtos de origem animal, enquanto outros dizem que isso é uma grande bobagem. Tenhamos em mente três coisas, apenas:

1. Tudo o que é demais, é demasiado – by vovó da Nicole.

2. Se existe tanta celeuma, vale a pena deixar de lado o preconceito e dar uma chance aos dois lados da história.

3. Consciência é a chave de tudo. Sempre. Não se gabe da sua ignorância. Não bata no peito para dizer que não liga. É feio.

Colesterol

O colesterol é uma substância presente apenas em alimentos de origem animal, como manteiga, ovos, carnes e laticínios.

Menos inocente do que parece

É ele o principal responsável pelo entupimento das artérias que causa, principalmente nos rapazes, ataques cardíacos, infartos e impotência (pois se o sangue não flui, meu caro...).

Em 2010, estima-se que 79 mil pessoas tenham morrido em decorrência de infarto. O problema deixou de ser exclusivamente masculino e, hoje, atinge mulheres e homens praticamente na mesma proporção.

“(...)a relação entre o consumo de carne vermelha e carnes processadas e maior número de mortes por câncer e problemas cardiovasculares. A pesquisa, uma das maiores já realizadas, analisou dados de 500 mil norte-americanos de 50 a 71 anos de idade.

Em dez anos de acompanhamento, morreram 47.976 homens e 23.276 mulheres. Para os pesquisadores, 11% das mortes em homens e 16% das mortes em mulheres poderiam ser adiadas se houvesse redução do consumo de carne vermelha para 9 g do produto a cada 1.000 calorias ingeridas - o grupo que mais ingeriu carne vermelha (68 g a cada 1.000 calorias) foi o que apresentou maior incidência de morte.”

E sim, colesterol também é produzido por nós mesmos (somos animais, né?) e tem até estudo dizendo que o que consumimos não altera cáspita nenhuma nos exames de sangue. Mas é ingenuidade acreditar que a alimentação que vimos levando nos últimos anos não interfere com o nosso bem estar físico.

Também não dá pra achar que o nosso estilo de vida alimentar é o melhor e o mais adequado. Repensar as próprias escolhas é a definição de maturidade.

Hormônios

Eu, uma das crianças mais carnívoras que já passaram por esta São Paulo, daquelas que destacavam a gordura da picanha para comê-la purinha depois (não recomendo), menstruei aos 11 anos. Minha mãe devia ter uns 17 anos na vez dela. Minha avó, por aí também. As meninas menstruam cada vez mais cedo, e é difícil não levar a revolução alimentar da última década em consideração.

Os hormônios utilizados na pecuária contribuem tanto para o crescimento e amadurecimento precoce dos bichinhos como para a concentração de determinadas características na carne: mais macia, menos fibras, mais gordura e, consequentemente, mais sabor.

"Os animais que são implantados com estes hormônios crescem de 15 a 20% mais rápido que os animais não tratados. Como beneficio, o gado produz mais carne magra e menos gordura que o gado criado sem hormônios."

O problema é que esses hormônios não são “desativados” com o calor do cozimento e vão, do sangue de um (boi) para o sangue de outro (vós). Resíduos também são encontrados no leite e, consequentemente, nos subprodutos (queijos, iogurtes, whey) das vacas/ovelhas/cabras que receberam a substância.

"Em 2007, um estudo da Universidade de Rochester (EUA) relacionou o uso de hormônios na carne a danos no espermatozóide humano. “O uso de substâncias que promovem o crescimento do gado foi proibido na Europa em 1988, mas, embora os Estados Unidos tenham banido alguns desses produtos em 1979, outros, tais como os hormônios sexuais testosterona e progesterona, ainda podem ser usados na pecuária.”

Na Europa, o uso de qualquer hormônio na pecuária é terminantemente proibido (dá pra ver nas Diretivas 96/22/EC,  2008/97/EC e 2003/74/EC da União Europeia). O motivo é simples: “evitar a ingestão [dos hormônios] é de absoluta importância no resguardo da saúde humana” (Diretiva 2003/74/EC, artigo número (9).

E nem começamos a falar dos antibióticos, dos pesticidas, da obesidade, do câncer, do mercúrio...

Prontos para as cenas dos próximos capítulos?

Até terça que vem!

Para ler mais da série Por que vivo sem carne:

A cara feia da destruição ambiental ou Por que vivo sem carne #2

E se eu quiser mesmo mudar meus hábitos? ou Por que vivo sem carne #3


publicado em 02 de Fevereiro de 2016, 15:37
Lattes

Nicole Fobe

Por um erro de cálculo, formou-se em Direito. Agora luta para abandoná-lo. Enquanto as circunstâncias não permitem, dá umas aulas, escreve uns artigos e tenta concluir uma dissertação. Seus vícios incluem ler Drummond, ouvir o silêncio e procrastinar até o pânico bater.


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