Como voltar a amar: nos reconectando com o que achamos ter perdido

Em tempos de frustrações, perdas e revezes, como reencontrar motivação, como se dar novas aberturas e seguir

Desencanto.

Quando algum tipo de decepção na vida nos atinge como flecha, parece que o pensamento recorre, imediatamente, à desilusão como mecanismo de proteção. "Nada vale mais a pena".

É como se recolhêssemos a esperança para garantir que ela não seja corrompida. No filme “Beleza oculta” que citamos mais abaixo, um publicitário perde a filha num acidente e fica completamente devastado, ele se isola e passa a escrever cartas para destinatários que nunca responderiam, ele escreve para a MORTE, para o TEMPO e para o AMOR. Isso em si é um sinal de esperança.   

Lembro claramente de um homem que conversei logo depois que a noiva faleceu num acidente de carro. Ele parecia sereno, mas estava em choque. As pessoas que o cercavam não sabiam como reagir à essa aparente tranquilidade, mas a verdade é que ele estava silenciosamente devastado.

Alguns meses se passaram até que ele voltasse a olhar em volta e, como seria de esperar, algo estava cristalizado dentro dele. Um tipo de resistência fundamental à interagir efetivamente com as pessoas, e em especial com as mulheres.

Nossa tarefa de reconsiderar essa muralha emocional parecia intransponível, afinal, ele tinha uma boa razão para se sentir daquela forma, e questioná-lo seria um tipo de sacrilégio.

Essa situação ilustra o que muitas pessoas vivenciam com suas dores.

Desde pequenos somos desapontados em nossas expectativas. Os pais que não são mais nossos heróis, a garota que nos rejeita o afeto, o amigo que trai nossa confiança, o chefe pouco grato pelos nossos esforços. Todas essas situações testam silenciosamente nossa capacidade de entrega mesmo em meio a desilusão.

Seria possível se manter aberto emocionalmente depois do incêndio? Essa é a única maneira de efetivamente seguir em frente com verdadeira sanidade mental.

Apego pedagógico e amor 

Pense numa criança e seus sonhos de astronauta. Pareceria muito insensível incentivar que ela seguisse acreditando no impossível para depois inevitavelmente se decepcionar. Mas o que está em jogo ali não é necessariamente o resultado favorável, e sim o treino de fé, de poder se render a algo incrível, de resultado imprevisível, ainda que eventualmente desfavorável. 

Parece cruel incentivar alguém a criar apego numa ideia que já nasce falida, mas o paradoxo é que o desapego necessário para a desilusão só nasce de uma base sólida. Alguém sem raízes tem mais dificuldade de fazer voo livre, pois não tem um casulo para voltar. Mas para onde voltar depois do incêndio?

Se a própria substância da boa vida parece estar centrada na conexão nutritiva que temos com as pessoas, no amor que nutrimos nisso tudo, é para lá que precisamos voltar. Erguer uma barreira contra novas interações é permanecer intoxicado numa amargura que não ajuda a desenferrujar.

Antecipação inútil do tempo

A estratégia comum diante do sofrimento possível ou concreto é a tentativa exaustiva de imaginar o pior para se refrescar se o melhor surgir. Essa estratégia de maratonista, que treina antes da prova decisiva para driblar o tempo não funciona na esfera emocional. Não há capacidade imaginativa que nos prepare para os reveses da vida.

O que chamamos de revés é a própria subversão de qualquer expectativa possível, das melhores às piores. Brincar com o tempo nesse processo - racionalização excessiva, congelamento emocional, negação, pessimismo ou otimismo - sempre se revelam inúteis.

Diante da queda, é melhor relaxar o corpo para o dano ser menor. A rigidez provoca mais ossos quebrados. 

O presente precioso

Nada do que aconteceu no passado ou alguma imagem que, criada sobre o futuro, traz a chave da tranquilidade diante de grandes mudanças. Há certo clichê ao realocar nossa atenção para o momento presente, mas é nessa dimensão psicológica que a experiência emocional acontece. Temos o tempo em que estamos.

Recorrer ao que vivemos como parâmetro é um tipo de recuo que ajudaria em uma nova situação, mas na maior parte das vezes usamos a memória como uma confirmação negativa do que está acontecendo. Um impasse sempre se ancora numa relação pessoal que estimamos e está ameaçada, e é nessa interação que precisamos estar apoiados.

Um término de relacionamento acontece aqui e agora, com uma pessoa concreta e de sentimentos reais. É preciso dar uma chance para que um novo acordo pessoal surja. Até de um rompimento.

Ao negar um novo nascimento para alguém que amamos e que nos causa dor, estamos bloqueando um fluxo valioso de reconfigurações internas. 

A fragilidade forte em nossas mortes

Existe certa desconfiança coletiva sobre permanecer vulnerável, disponível e aberto numa situação crítica.

É um engano equiparar vulnerabilidade com fraqueza e firmeza com força. Não estamos numa guerra.

Há vulnerabilidades que nascem de uma força interna e firmezas que surgem de uma desestrutura fundamental. Um organismo psicológico vulnerável está mais aberto a ser acolhido, recomposto e nutrido. As imagens invioláveis de força, de bravos guerreiros que mal piscam, criam abismos  que cronificam más formações emocionais.

Qual seria o benefício de não ser coerente com uma perda emocional?

Por que não deixar a lágrima cair ou uma palavra de pesar sair em velórios, processos demissionais, assinatura de divórcio ou qualquer perda significativa? Precisamos saber lidar com as mortes.

Por que sustentar uma esquizofrenia entre emoção e aparência a pretexto de garantir admiração baseada em uma força enrijecida? O resultado pessoal de longo prazo vale a pena?

Lembro de uma mãe que lamentava profundamente a partida do filho para estudar em outro país, em especial pela indiferença que ele mostrava aos seus sentimentos. O impulso inicial dela era fingir que aquilo não a afetava também, até que eu disse: "nesse momento tão poderoso, carregado pela ambiguidade da alegria e tristeza, fazer de conta que nada está acontecendo pode fechar espaço para que vocês confessem sentimentos que só são possíveis nessas situações-limite". Ela sorriu e, chegando em casa, pôde se despedir do filho com todo riso e choro que tinha direito.

O filho, que até então agia de modo protocolar, desabou emocionado e compartilhou receios que ela desconhecia até então. 

Corpo relaxado, respiração consciente e a busca de se reconectar com as pessoas. Receber essa conexão com alegria e gratidão faz esse contato cair sobre você como uma boa ducha de água quente. 

Daí é só se molhar.

Mecenas: Beleza Oculta

 

Uma tragédia pessoal pode nos ferir de forma profunda e a ajuda dos amigos é indispensável para nos levantarmos.

Beleza Oculta conta a história de um publicitário bem-sucedido que sofre uma tragédia pessoal intensa e se isola de tudo. Seus amigos elaboram um plano drástico para o tocar antes que ele perca tudo.

Eles o forçam a enfrentar a verdade de formas surpreendentes e profundamente humanas.

Beleza Oculta, que será lançado dia 26/01/2017, traz um elenco de estrelas, incluindo Will Smith (“Esquadrão Suicida”, “Um Homem entre Gigantes”), Edward Norton (“Birdman ou [A Inesperada Virtude da Ignorância]”), Keira Knightley (“O Jogo da Imitação”), Michael Peña (“Perdido em Marte”), Naomie Harris (“007 Contra Spectre”), Jacob Latimore (“Maze Runner: Correr ou Morrer”), com as vencedoras do Oscar Kate Winslet (“O Leitor”, “Steve Jobs”) e Helen Mirren (“A Rainha”, “Trumbo – Lista Negra”).


publicado em 27 de Janeiro de 2017, 12:08
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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