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Por que não usamos mais chapéu?

Um dos acessórios mais legais e condizentes ao masculino precisa da sua ajuda, jovem rebelde

Alô você, camarada nato! Lá vamos nós outra vez, hasteando o bastião da sabedoria nas pilastras da galhofa. 

O alvo do dia é o estimado, mas um tanto abandonado, chapéu! Hoje item raro, houve um tempo em que eles eram tão indispensáveis quanto nossas calças. Que vento foi este que varreu os chapéus de nossas vidas? Vamos a um breve recorte histórico: 

O homem cobre a cabeça para protegê-la desde os tempos mais remotos. Em 1991, foi encontrado, mumificado, um tiozinho de mais de 5 mil anos de idade que já protegia a cabeça com um chapéu primitivo (semelhante a um gorro). O chapéu, mais próximo ao que conhecemos hoje, foi desenvolvido no séc. 4 A.C., pelos gregos, e recebia o nome de Pétasos

Sim senhor, adicione asinhas ao Pétasos e temos o chapéu puro estilo do grande Mercúrio

O chapéu tem acompanhado o homem por toda a sua história, não só como acessório de proteção, mas também representando símbolo de status, hierarquia e também, é claro, mero adorno. Então retornamos à pergunta tinhosa do título: 

Por que, raios, um dos itens mais bacanas do vestuário masculino não tem, nos dias de hoje, nem um décimo da popularidade que já teve?

- Ei, parça, lembra de algum presidente americano sem chapéu antes de mim?

Sim senhor, existiu uma conjunção de fatores para levar o chapéu a derrocada, mas, se tivermos que escolher uma representação individual, este alguém é ele mesmo: John “the hair” Kennedy, o presidente mais carismático dos Estados Unidos. Embora tenha usado o acessório em seus primeiros momentos na presidência, Kennedy logo o deixou de lado, associando sua imagem, cada vez mais, aos jovens da época (que também não simpatizavam tanto com a peça). Penso que a escolha foi consciente, ajudando-o na transmissão de uma imagem menos engessada e conservadora, atenta aos “novos tempos” e a saúde que um cabelo bem cuidado representava. 

Eu não acredito em coincidências nesta esfera de poder. 

É, amigão, até um dos mais queridos presidentes dos Estados Unidos levava o vestuário e a estética a sério, então quando você estiver falando sobre o assunto e ouvir aquele seu amigo expansivo falar “eu não ligo pra roupa, isso é bobagem, coisa de mulher”, lembre-se do Kennedy, sorria, e agradeça por saber que ignorância e misoginia não são contagiosos. Mas não paramos por aí, meu bom. 

Outros grande fator foi que, ao fim da Segunda Guerra Mundial, muitos homens (agora heróis) que retornaram a América não queriam mais usar chapéu, 19% deles afirmaram que não o queriam pois tinham que usá-los no exército. Soma-se isto ao fato, não menos importante, da massificação dos automóveis, que, por serem veículos individuais, faziam os homens andarem menos ao ar livre, diminuindo a necessidade de proteção em suas cabeças, além da consequência Tostines da diminuição da altura dos capôs a partir da década de quarenta.

E por mais que Frank Sinatra fosse um amante de chapéus e um dos maiores ícones de estilo do mundo, os tempos estavam mudando. Elvis e seu topetão incendiário encorajavam os jovens a mostrar que a virilidade começava nos cabelos.

Dado todo o background, podemos dizer que John Kennedy só chegou para fechar o caixão, entendendo de maneira fantástica o Zeitgeist da época e tornando a retirada do chapéu um dos símbolos dos novos tempos. O que veio a seguir só reforçou ainda mais o que já estava concretizado: Beatles e seus penteados, a contracultura dos hippies, a ascensão do black power na época da discoteca, o início do punk e por fim, os anos oitenta, a década perdida, em que a Era da Indústria começava a dar lugar a Era da Informação.

Eis que chegamos aos, por enquanto nublados, anos noventa, em que começamos a ver – ainda que de maneira tímida - um retorno do chapéu como item de estilo masculino. Particularmente, creio que o século 21 já tenha se provado como o período de maior variedade simultânea de estilos estéticos, abrindo caminho para o retorno do chapéu, não como tendência, mas – mais importante – como possibilidade funcional e estética de vestuário. 

O que falta para isso efetivamente acontecer?

Tenho alguns palpites. O principal é o mais simples e também o mais crucial, envolve Hollywod, o maior formador de opinião estética masculina do Ocidente. Será necessário uma pequena criação, em sequência, de filmes de sucesso onde os personagens masculinos tenham as seguintes características:

1. Virilidade 

Única condição masculina que se mantém inexorável nos dias de hoje.

2. Enxergar as mulheres em condição de igualdade 

Fator majoritariamente novo e necessário para ter o consentimento (fundamental) do sexo feminino.

3. Ser bem sucedido em suas empreitadas 

Para provar que suas escolhas são acertadas e garantir credibilidade ao usuário.

E a mais importante de todas:

4. Ser jovem e rebelde 

Se pensarmos que o chapéu nos conecta ao clássico e ao tradicional, pode até parecer contraditório, mas é vital que exista esta inversão de valores para o retorno bem sucedido da peça, pois toda grande transformação estética acontece na juventude para só então depois migrar para os homens maduros (por meio do envelhecimento desta primeira juventude). 

Para que se torne um símbolo jovem, é necessário que o chapéu se torne a personificação de algo ou alguém rebelde, para que seja entendido como uma ruptura com a tradição e o conservadorismo, caso contrário, ela não obterá sucesso e não retornará de maneira permanente, se mantendo, apenas, como um item sazonal e de tendência. 

Considerações finais

Gosto muito de chapéus em geral, principalmente pelo fato de serem uma peça totalmente funcional. Também acredito que adicionam um elemento positivo de movimentação física ao usuário, afinal, quem o utiliza demonstra que está nas ruas, andando de maneira convicta, sob o sol ou sob a chuva, além de poder ser relacionado a atividades de perigo e poder (que estão intimamente ligadas a atração sexual), nos fazendo lembrar de capacetes, coroas e quepes. Você pode ser perguntar se, ao invés de filmes, nós víssemos grandes astros da música, aconteceria o mesmo efeito de retorno da peça? Provável que não, pois a música atual segmenta demais o seu público e não teria apelo para uma alteração cultural em massa como o cinema ainda é capaz de realizar.

Então é isso, meu amigo. Por mais que pareça uma ideia legal e um ótimo argumento na hora de defender o chapéu, enquanto o associarmos a homens mais velhos, classudos e estilosos que fazem as coisas “como antigamente”, mais este item será visto como uma peça deslocada no tempo, um item quase excêntrico no vestuário ou então um reles protetor de carecas.

Por isso lhes digo, com firmeza, carecas (sim, pois vocês tem a funcionalidade como legitimação) e jovens rebeldes, uni-vos, vamos trazer o chapéu para o lugar do qual ele nunca deveria ter saído, nossa efervescentes cabeças!

E pra dar aquele reforço de conceito maneiro, segue abaixo um balde de imagens de como contribuir para esse retorno!

Do mais, como sempre, espero que tenha sido útil ou, ao menos, divertido!

Mecenas: Dafiti

Entender contexto histórico e repensar a utilidade de determinadas peças. Esse tipo de olhar olhar e curiosidade é papel fundamental do nosso guarda-roupas. Para isso, a Dafiti pode te dar uma mãozinha: são mais de 100.000 produtos a venda na loja deles, para o seu visual dialogar em qualquer meio, do mais quadrado ao mais descolado.

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publicado em 14 de Julho de 2015, 00:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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