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Corrida SP–Rio: do estímulo à superação

225 corredores, divididos em duas categorias – "Coisa da Boa", para atletas com até  25 anos e "Ultra Desafio", sem limite de idade –, atravessaram os limites interestaduais do eixo Rio – São Paulo a pé.

A maior prova de revezamento das Américas, famosa não só pelo título que ostenta, mas também pelo esforço e dedicação que cobra ao longo de seus 600 km de estradas, trilhas e praias, será lembrada com muita emoção.

"Finalmente! Cheguei! O mar de Ipanema!" "Err... Isso aí é a reserva de Xerém, ainda faltam 100km...""
"Finalmente! Cheguei! O mar de Ipanema!" "Err... Isso aí é a reserva de Xerém, ainda faltam 100km...""

Para quem não é assíduo de corrida e provas de rua (e aqui vai um estímulo para começar), o meu relato parecerá conversa de louco, de gente que não tem o que fazer. Mas vale a pena ler e, quem sabe, encontrar não apenas uma boa história, mas uma nova perspectiva para a sua vida.

É difícil conviver com a nostalgia que assombra os 225 atletas que correram do Parque do Ibirapuera até Ipanema. Falo isso porque acompanho as fotos, os vídeos, os comentários e me vejo dentro da van, dias atrás, em algum lugar da Rodovia Rio-Santos, pronto para correr. Quando mostro a medalha que ganhamos, fruto do segundo lugar na categoria #coisadaboa, ouço basicamente as mesmas perguntas: "Por que você corre?", "Você não tem o que fazer?", "Tá fugindo da polícia?" Às vezes, também ouço os incentivos, como: "Parabéns, eu nunca seria capaz de fazer isso!"

"CARALHOOOOO! Quem foi que bebeu meu Gatorade, PORRA?!"
"CARALHOOOOO! Quem foi que bebeu meu Gatorade, PORRA?!"

A verdade é que a corrida transforma a vida de um ser humano. O exemplo disso é a pequena Marcella Nissental que, com apenas dezessete anos, encarou a prova com peito de aço. Iniciada na corrida há três meses, correu todos os trechos que lhe foram designados. Com sede de quem já corre há anos, mostrou que não estava para brincadeira. Surpreendeu muitas pessoas, inclusive a mim, que não acreditava que ela seria capaz de agüentar o tranco. E ficamos felizes por ela. Muito felizes!

Mesmo sendo uma competição, a união mostrou-se mais importante do que a briga pelo pódio. Corredores rivais trocaram abraços, se ajudaram, correram juntos. A corrida é  uma atividade solitária, mas não corremos 100% do tempo sozinhos. A galera da van, que passa gritando rumo ao próximo ponto de troca; o motoqueiro que não nos deixa desanimar, que abre a garrafa de água e, entre nossos goles ofegantes, grita para que continuemos; o adversário que nos ultrapassa muito mais rápido e olha para trás perguntando se estamos bem, que grita para que aceleremos o passo; as pessoas na rua, no trânsito... todos correm conosco. E, por essas pessoas, corremos.

"Campo Grande! Sepetiba! Bangu! Três reau! Três reau!"
"Campo Grande! Sepetiba! Bangu! Três reau! Três reau!"

Esse estímulo externo é essencial para vencer o maior inimigo de um corredor: ele mesmo. Quando doem as pernas, a respiração fica difícil e você percebe que ainda falta muito para chegar, começa a considerar a desistência. O seu limite é posto à prova. Mas você já atravessou metade do percurso. Seus amigos de equipe estão do outro lado te esperando. Você não pode jogar a toalha. O corpo entra no automático, a mente obriga as pernas a continuarem. É impossível parar. A dor dá lugar à obstinação de entregar a pulseira e continuar o esforço em conjunto. E é quando você chega lá, e recebe os abraços, os tapas nas costas, os sorrisos, que você pára, respira, sente a adrenalina e a endorfina correndo pelas veias, e mal pode esperar para correr de novo.

Correr no asfalto, correr na areia, subida íngreme, nada disso importa. O "sangue no zóio", como dizemos na estrada, te domina. Você corre e grita, grita e chora, chora e comemora, vence seus próprios obstáculos, vira seu próprio fã.

"Ai, não faz cosquinha na minha mão..."
"Ai, não faz cosquinha na minha mão..."

Logo, a partir de uma vontade de melhorar sua qualidade de vida, a corrida desafia o indivíduo a dar o seu melhor. Torna-o guerreiro, ensina que a dor é passageira, mostra que a sensação de dever cumprido muda o seu mundo. Competir, perder, ganhar, lutar, ajudar e ser ajudado em uma prova como essas é primordial para a evolução humana. Como homem, como marido, como pai, irmão, empregado e empregador.

Assim como a edição de 2010 da maior maratona de revezamento das Américas deixou bons frutos para todos os que atravessaram o estado correndo e serviu como base para quem correu a SP–Rio 2011, iniciamos um novo ciclo de introspecção pessoal e esportiva.

Parabéns aos amigos e corredores da equipe Fitt & Furious que chegaram ao Rio de Janeiro em primeiro lugar; aos amigos de equipe Corre Paccas, que me acompanharam durante os três dias e garantiram a segunda colocação e foram  importantes para que eu alcançasse o meu melhor tempo nos cinco mil metros; a todos os corredores e amigos que participaram desse desafio, não de distância, mas de superação.

Para chegar aonde chegamos, bastou apenas dar um passo atrás do outro.

"Finalmente, chegamos! O mar! O mar! Mas cadê a Maria?" "Ihh, vi ela lá atrás mergulhando na reserva de Xerém..."
"Finalmente, chegamos! O mar! O mar! Mas cadê a Maria?" "Ihh, vi ela lá atrás mergulhando na reserva de Xerém..."

publicado em 08 de Novembro de 2011, 11:31
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Bruno Acioli

Bruno Acioli é jornalista, corredor e cosplay do Paulinho Vilhena. É obrigado a cozinhar sempre que o miojo acaba e adora discutir a guerra dos sexos. Ele escreve no A Melhor das Intenções.


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