Dave Grohl, você é foda. Mas o músico não vem primeiro

Há alguns dias está circulando um vídeo com uma palestra do Dave Grohl no SXSW. Por um acaso, começamos a discutir esta fala no e-mail do PapodeHomem. Como o desdobramento foi bem legal, decidimos compartilhar.

O vídeo é longo, mas recomendo que você pare, veja e depois nós partimos para a discussão. Sem isso, fica difícil o entendimento.

Link Youtube | Tem legendas, é só dar o play

E, realmente, o que ele diz é muito bonito. Dave Grohl tem essa coisa que incendeia multidões e sabe falar de um jeito capaz de acender um brilho no olho, faz você se sentir motivado e especial.

Mas eu fiquei com um pé atrás porque esse tom romântico ativa um alarme em mim. Eu penso que ele não precisava falar quarenta minutos só para contar a maior parte do que contou. Não que seja errado, não que não houvesse interessados. Apenas sinto que ele não ofereceu nada muito diferente do que já se conhece sobre sua vida.

Sobre esse ponto, o documentário que o Dave Grohl lançou na ocasião do último disco, o Back And Forth, pra mim, pareceu bem mais pé no chão e honesto do que esse discurso.

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E digo isso porque o melhor ponto da palestra foi quando citou sobre o quanto ele trabalhava arduamente no começo, quando ainda era garoto. O quanto era dedicado e não se importava com as restrições e dificuldades que enfrentava por ter absoluta paixão pelo que fazia – o momento no qual ele reproduz a maneira como gravava suas canções aos 12 anos é genial.

Achei simplesmente sensacional quando ele conta sobre como os ensaios – de adolescente e depois, no próprio Nirvana – eram sobre desenvolver vozes com as quais eles podiam se comunicar de uma maneira não verbal e que era o desenvolvimento dessa habilidade que era mais importante. Se sentir conectados e aprender a se conectar por meio da música que faziam. Esse trecho foi foda.

Não era o foco, não era o que ele realmente queria dizer, mas foi a mensagem que pra mim mais tocou. Aquela coisa de executar até odiar as suas próprias canções. Não focar em nenhuma outra coisa. Puta esforço. Mas que depois fazia diferença.

Mas de resto, aquele papinho de "o músico vem primeiro". Bullshit. Aquela coisa sobre querer que as próprias filhas também sejam heroínas de alguém no futuro? Igualmente, um monte de besteira perigosa.

Isso me soa como uma pista a respeito de um fator cultural americano citado pela Verônica Gunther na nossa troca de e-mails. Ela lembrou de um tweet do Alain de Botton.

"US: Everyone should have the right to try to be special. Europe: Being normal should be OK for everyone."

"EUA: Todos devem ter o direito de tentar ser especial. Europa: Ser normal deve estar OK para todos."

E é este ponto que levanta minha maior desconfiança. Eu não acho que essa noção/sensação de protagonismo seja benéfica para o ofício musical/artístico. Aliás, acho que não mesmo em outras esferas de atuação. Vejo vários problemas que já explicitei em um outro texto.

Tudo isto posto à mesa, convido-lhes a participarem da roda de papo. E aí, o que acharam da fala do Dave Grohl? O que pensam sobre esse "heroísmo" todo? O que mais viram no vídeo?


publicado em 24 de Março de 2013, 16:23
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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