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De onde vem o desconforto financeiro? | Duas dicas para se preocupar menos com dinheiro em 2015

 

Não sei se por azar ou sorte, um dos meus primeiros clientes de consultoria financeira foi um cara bastante eloquente. Nos encontramos num café e ele falou feito uma metralhadora por quase uma hora e eu, levemente nervoso, não tive o mínimo tato para interromper. Meio contrariado, fiz valer a minha regra de não ultrapassar demais o tempo combinado.

Saí de lá sem ter falado praticamente nada, imensamente frustrado, pensando que em breve eu precisaria de uma consultoria financeira para dar um jeito na minha falência como consultor financeiro.

Cheguei em casa e recebi um e-mail desse mesmo cara, dizendo que havia achado nossa conversa fantástica, que ele se sentia menos angustiado e que estava animado para o próximo encontro.

Na época eu não sabia se ria ou se entrava em desespero, por não fazer ideia do que tinha acontecido.

De onde vem o desconforto financeiro?

Hoje, passado os anos e os clientes, percebi que o processo que ocorreu ali é muito comum. A gente acha que o que nos incomoda é a dívida, o cheque especial e o cartão de crédito, mas na raiz mesmo, debaixo das camadas, o que realmente não nos deixa dormir é a preocupação, a ansiedade e a ausência da sensação de controle.

Muitas vezes a gente nem parou para pensar nas implicações práticas da escassez financeira, mas já estamos sofrendo de antemão. O desconforto vem da preocupação latente, e não da falta de dinheiro. A gente suporta, sem surtar, uma redução no padrão de vida, mas não suporta meses de ansiedade, nó na garganta e completo descontrole do que vai acontecer daqui pra frente.

Para meu cliente, o que era uma gigantesca névoa, se transformou em uma grande missão, e o primeiro passo em direção a solução ele já havia dado. O que a gente quer é movimento.

O problema financeiro, claro, continuou existindo depois daquele primeiro papo, mas a agonia, que era o que realmente estava incomodando, sumiu.

* * *

Com isso em mente, ao invés de entrar na parte técnica, na logística da coisa, dessa vez as dicas tem como objetivo mexer com essa camada mais sutil.

1. Fale mais sobre dinheiro

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Hoje em dia a gente admite que broxa, mas não admite que está no vermelho.

Precisamos de um espaço onde falar sobre grana não seja um martírio. Nós subestimamos o valor dessa conversa. Não precisa de script, nem de formalidade, mas tem que ser franca: não adianta ser uma conversa onde cada um diga o quão milionário quer ser (nenhum problema nisso, ser milionário deve ser legal pra caramba, inclusive).

Num nível mais prático, trazer o assunto pra mesa faz com que a gente se habitue com a linguagem e que o conhecimento venha de maneira menos artificial, mais fluida. Não é por acaso que a gente sabe tudo de futebol, nós falamos sobre isso o dia inteiro. Papos pontuais e muito espaçados não costumam ajudar. Eleja alguns amigos e confie que eles vão apreciar a iniciativa. É provável que ele esteja espiralando em cima de questões muito parecidas.

Pensando no aspecto mais sutil, é como se, ao tocar no assunto, nós criássemos pequenos compromissos, internos e externos. A narrativa reforça o sentimento de percurso e nos dá a sensação de movimento.

Expor de maneira crítica, destrinchando detalhes, acaba por evidenciar a inevitável possibilidade de falha de todo e qualquer planejamento. É como se a gente conseguisse ficar amigo do fracasso antes dele acontecer.

2. Jogue fora o controle se ele não for muito, muito útil

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Não importa se é uma planilha, um software, um site ou um aplicativo de celular, o controle só tem real utilidade se:

  •     for totalmente intuitivo e natural;
  •     não tiver funcionalidades inúteis que poluem a tela;
  •     não trouxer complexidade desnecessária;
  •     trouxer dados que você é capaz de interpretar.

Se não preencher os requisitos acima, é muito provável que o controle, que deveria ser uma ferramenta de auxílio, se torne algo prejudicial. Fatalmente se tornará obsoleto, porque uma vez que não nos apropriamos da ferramenta, temos uma tendência fortíssima a tratar com desprezo. Deixaremos de alimentá-lo da maneira apropriada.

Com o abandono, vem a culpa. A gente larga as promessas de ano novo bem rápido, mas seríamos bem mentirosos se falássemos que isso não nos causa dor. Algo como “meu deus, eu não consigo manter minhas decisões por duas ou três semanas”. O movimento natural seguinte é tentar adicionar um pouco de charme, disfarçando a sensação ruim com uma risada de desdém ou uma piada sarcástica.

O método tem que ser construído. Se a gente não se sente totalmente confortável e se não conseguimos ter completo domínio sobre a ferramenta, o melhor a fazer é deixá-la de lado. É melhor do que seguir forçado e frustrado (depois da frustração vem a chutada de balde).

Uma alternativa que costuma funcionar bem é, pelo menos em um primeiro momento, nós mesmos elaborarmos a maneira com que brincaremos com nossos números. Para quem se interessar, vale começar por aqui.

Educação financeira realista

Publicamos bastante sobre finanças em 2013/2014, dentre eles:

A educação financeira está na moda e isso é ótimo, mas a gente ainda não sacou muito bem como sair da parte técnica, do número, e bater com mais força numa esfera bem mais sutil, que é, na real, de onde surgem as aflições todas. A organização pela organização é inútil, o dinheiro pelo dinheiro também.

Listamos duas dicas que flertam com esse aspecto menos óbvio nesse texto. Tenho algumas outras questões que me deixam bem curioso:

  • Em quais situações você sente que perdeu o controle financeiro? É quando o número aparece vermelho? Como funciona isso para você? Enquanto tiver limite está tudo bem, ou a coisa aperta antes?
  • Tem alguma atitude que te ajuda a colocar a coisa de volta no eixo? Tem gente que faz umas semanas monásticas e, com esse sacrifício, parece que a a consciência para um pouco de doer. Como você faz?
  • Escuto muito coisas do tipo: “para mim, sensação boa é entrar no restaurante e não olhar o preço do prato”, ou “o dia que eu não tiver que abrir o extrato, sei que vou estar bem”. Qual pequeno ato ou trejeito te deixaria com a sensação de estar com a vida financeira estável e bem resolvida?

Convite feito para o papo seguir nos comentários.


publicado em 09 de Dezembro de 2014, 08:53
Eduardoamuri

Eduardo Amuri

Autor do livro Dinheiro Sem Medo. Se interessa por nossa relação com o dinheiro e busca entender como a inteligência financeira pode ser utilizada para transformar nossas vidas. Além dos projetos relacionados à finanças, cuida também da gestão dO lugar.


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