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Ele foi obrigado a casar | ID #12

"Fred,
Um belo domingo, o sol em seu devido lugar ao meio dia, mulheres passando e eu deitado na rede pensativo e deprimido.
Sou Alagoano, tenho 18 anos e há três namoro essa mesma garota. Sempre nos demos muito bem e acredito piamente no nosso sentimento.
No entanto, a família dela está nos pressionando a casar. Hã? Eu só tenho 18 anos, acho que ainda não é a hora certa. Mas ela começou a me pressionar também.
E agora o que eu faço?"

Meu caro,

O velho dilema do caso ou compro uma bicicleta bateu em sua porta e, tratando-se de Alagoas, imagino que essa pressão social venha muito antes do que nas cidades mais cosmopolitas como São Paulo. Aqui a pressão começa entre 25 e 32 anos, mas o tema é universal. Vou tentar ajudar nessa.

Casamento

Cópia da cópia

No texto sobre culpa falei a respeito desse mecanismo poderoso que é passado de geração em geração e que domina subliminarmente nossa vontade "própria". Frequentemente vejo pessoas absolutamente convencidas que são muito diferentes de seus pais e, ao longo da terapia, percebem que são versões repaginadas com novas gírias de preconceitos antigos.

Adotam posturas extremistas, só que na outra ponta da balança.

Quantas pessoas você conhece que não agem como ripongas por terem pais workaholics e defendem comida natureba com o mesmo radicalismo que o pai defende o mercado de ações? Muda o conteúdo mas o modus operandi é o mesmo.

Se você prefere imaginar que é um livre pensador, pode continuar se idealizando dessa forma, mas de modo geral somos apenas replicadores de ideias pré-concebidas. Nada muito original.

Aprovação social

É incrível como somos persuadidos pelo meio social. Prova disso é que não fazemos coisas que não são necessariamente ilegais, mas que seriam vistas como imorais. A moral do grupo que pertencemos é um fator poderoso nas nossas escolhas cotidianas, mais do que gostaríamos de admitir.

Em março de 1964 a jovem de quase 30 anos – Catherine Genovese – foi assassinada no distrito nova-iorquino do Queens. Essa morte teria entrado para as estatísticas se não fosse uma investigação detalhada do jornalista Rosenthal, ganhador do Pulitzer, que estranhou um fato "banal": durante 30 minutos ela foi perseguida e esfaqueada em 3 ataques separados que foram testemunhados por 38 cidadãos respeitáveis.

Apesar dos gritos de socorro, ninguém ligou para a polícia, a não ser depois que a vítima estava morta. Quando questionadas sobre o motivo de terem permanecido passivos eles respondiam perplexos: "não sei", "simplesmente não sei", "tive medo" ou "não quis me envolver".

A gente chama de louco quem quebra os nossos já estabelecidos rituais sociais

Os psicólogos Latané e Darley não se conformaram com a explicação clichê de que os EUA estavam se tornando uma nação de pessoas egoístas, insensíveis ou alienadas e chegaram a duas conclusões.

Primeira, com tantas pessoas podendo ajudar a responsabilidade de cada um foi reduzida: "alguém já deve ter ligado para a polícia".

O segundo motivo e mais perturbador é a ignorância pluralista do tipo: "será que é algo sério ou uma briga de casal?" "será que alguém está passando mal ou é uma brincadeira?" "será que devo me meter?".

Como gostamos de parecer seguros, equilibrados e discretos, olhamos de canto de olho e para não destoar dos demais e, por isso, não agimos de forma abrupta ou interventiva.

Prova disso é que realizaram pesquisas demonstrando que quando um carro pára quebrado no meio de uma via, enquanto ninguém pára, todos seguem como se nada tivesse acontecido. Mas quando uma pessoa resolve parar, outros carros param também.

Em outro experimento, um jovem que simulava um ataque epiléptico foi ajudado 83% das vezes quando havia um só expectador presente. Mas somente 31% quando havia cinco pessoas observando. É o famoso "deixa que eu deixo", se ninguém faz nada diante daquilo, os demais agem da mesma forma.

Se algum dia, portanto, você tiver passando mal e for desmaiar, seja explícito e anuncie o autor do socorro sem ambiguidades:

"Você de camisa amarela, estou passando mal, chame uma ambulância".

É irresistível. Ninguém recusa um pedido direto, claro e contundente, também pelo princípio da aprovação social.

Ou seja, muitas vezes as pessoas casam, pedem demissão ou cometem atrocidades por conta do pensamento de manada, se ninguém faz não faço, se alguém fizer me sinto impelido a fazer também.

Nesse caso, pense com cuidado, pois apesar da vontade de todos a implicação do seu matrimônio é sua e da sua namorada e mais ninguém. E nem a vontade dela deve prevalecer sem seu consentimento.

Coerência cega

Existe outro fator muito poderoso no comportamento humano que é a necessidade de se mostrar o mais coerente possível na maior parte do tempo ao longo da vida.

Adoramos dizer que somos capricornianos ou palmeirenses inabaláveis ou qualquer outro adjetivo que tenha marcado a nossa personalidade durante a fase de construção da personalidade. Se sua mãe evidenciou muitas vezes seu temperamento calmo e terno enquanto bebê, é bem provável que leve esse tipo de script comportamental por muitos anos de sua vida. O mesmo vale para os que se vangloriam de sempre terem sido espertos e encapetados.

O ponto alarmante é que essa aparente febre de agir com coerência e integridade naquilo que se comprometeu a ser ou fazer. O "seja você mesmo" nem sempre precisa ser mantida a ferro e fogo. Você não precisa ficar acorrentado ao seu passado por toda a vida.

O medo de muitas pessoas na hora de fazer uma mudança em suas vidas é se perguntar: "mas o que os outros vão pensar" ou "não soará falso?"

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A preocupação com a ideia de hipocrisia ou ser taxado "sem personalidade" aprisiona muitas pessoas em coisas que pareciam fazer sentido no começo, mas que ao longo do tempo mudaram.

Ouvi de um rapaz que atendo:

"Sempre quis ser milionário, mas nos últimos tempos essa ideia tem sido cada vez mais distante, me sinto feliz com as conquistas que atingi."

Seu drama era a decepção que teria consigo mesmo se parasse de buscar a riqueza colocando tudo a perder só porque prometeu a si mesmo que não passaria necessidade como em sua infância.

Isso nos leva À seguinte reflexão: você não precisa casar só porque disse que ela era a mulher da sua vida. Ela continua sendo a parceira que escolheu para seus dias atuais, mas a decisão do casamento não precisa ser uma consequência óbvia e imutável do seu namoro. Existem coerências que são cegas.

Pressão para engravidar

É muito comum acharmos que o relógio biológico de muitas mulheres começa a gritar por volta dos 30 anos para ter filhos e que por essa razão surge uma aflição mais ou menos inconsciente para encontrar um parceiro e casar.

Curiosamente, o "relógio biológico" das mulheres da década de 30 despertava mais cedo por volta dos 20 anos, se elas não estivessem casadas e com filhos seriam consideradas passadas ou fracassadas em sua feminilidade.

Como a mulher se emancipou social, financeira e profissionalmente, esse "relógio biológico" está mais generoso, possibilitando que elas façam todo o esforço necessário para atingir um bom status profissional e aí sim buscar um parceiro leal que possa criar uma família com ela.

Aquelas que por volta de 35 a 40 anos ainda não conquistaram seu par começam a entrar num pânico não revelado justificando que seu útero está reclamando pela presença de uma criança.

Oras, se até agora nós entendemos como a aprovação social é um elemento muito poderoso em nossas escolhas, claro que não tem nada de exclusivamente biológico nesse chamado à maternidade, apesar da limitação para a gestação saudável após os 40 anos. A loucura que assola muitas mulheres é serem consideradas "broxas" por não terem sido capazes de encontrar um parceiro digno de ser o pai de seus filhos.

O preconceito "biológico"

A sombra coletiva e carregada de machismo que ronda essas mulheres é a imagem maldosa da velha dos gatos, fracassada no amor, mal comida, com buço, mal humorada e rondada por gatos que deixam sua casa cheia de restos e cheiro.

Essa opressão que seleciona as mulheres entre as boas como esposas e mães e as ruins como "solteironas encalhadas" é realimentada por todos nós.

Toda mulher tem a opção de não se casar, não ter filhos e viver feliz dessa maneira.

Elizabeth não cedeu Às pressões
Elizabeth não cedeu às pressões

O amor se tornou uma religião tão poderosa que se uma mulher sem um parceiro é vista imediatamente como amargurada. Já os homens que não se casam até os quarenta são vistos como espertos e agraciados pela sorte de curtir a vida como solteiros convictos.

No caso dos homens existe a opção explicitada no adjetivo "convicto", ele escolheu ficar solteiro. Será?

Já as mulheres que "passaram do ponto" são vistas como indesejáveis pelos homens e vítimas de fofocas pelas amigas "bem casadas".

Honestamente, acho bem cruel esse tipo de perspectiva que pressiona mulheres a casarem desgovernadamente e pressionarem seus parceiros a casamentos sob ameaça psicológica.

Se não sente que está nesse momento pessoal, não há porque abraçar esse delírio coletivo cegamente.

Namoro X Casamento

Seu relacionamento não será mais feliz por que o casamento bateu na sua porta. Casado, solteiro ou namorando podemos nos beneficiar mutuamente com a felicidade que produzirmos com nossa dedicação.

Certamente a felicidade não é exclusividade de nenhum status de relacinamento.

Já vi pessoas solteiras que agem de forma automática, vão no embalo da galera, se sentem aflitas e apenas reafirmam suas limitações psicológicas ao se autorrotularem livres. Pode-se viver com tédio e aprisionado no meio de uma balada quando se tenta divertir a qualquer custo.

Acho também que existem casais que realmente tentam sequestrar a liberdade alheia e tentam eclipsar o desenvolvimento do parceiro para que este seja só seu. Isso uma prisão sem fim, mas provavelmente não fazem isso só no relacionamento, mas consigo mesmas, com familiares, colegas de trabalho. A liberdade pode ser cultivada num relacionamento com muita vivacidade sem nenhum impedimento.

Espero que faça realmente uma escolha e não apenas se submeta sem o menor questionamento. Boa sorte!


publicado em 19 de Abril de 2013, 11:39
File

Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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