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Desigualdade, Mané | WTF #63

O que se quer é prover mais ou menos os mesmos direitos a todos, e não a igualdade plena

Confesso sentir vergonha alheia de precisar tratar desse assunto. Porém, não foram uma ou duas situações em que tive que explicar o escancarado óbvio quanto a ele. Quase toda vez em que o termo é mencionado, surge um Mané para revidar.

Veja, meu uso do termo “Mané” no título e no parágrafo acima indica claramente que não sou contra as elites, ou a noção de que uma elite tenha seu espaço. Acredito que as pessoas, embora devam gozar dos mesmos direitos, são mais ou menos nobres, por razões próprias a elas e pelas circunstâncias a que foram expostas. Ainda que eu admita uma grande mobilidade, aceitando que as pessoas podem rapidamente perder sua nobreza, ou mesmo a conquistar, o fato é que a desigualdade existe, e nunca vai ser totalmente superada.

Isso não quer dizer que ela seja correta ou não deva ser combatida.

Deu um nó na cabeça? Explico.

Digressão para explicar o valor independente da ética

Existe uma tendência na cultura, que é injustificada e ideológica, de acatar uma visão naturalista da ética. Ora, se os animais se matam e se alimentam uns dos outros, é justo que os matemos e nos alimentemos deles. Mais do que isso, é justo que nos matemos uns aos outros por recursos: é a “lei da selva”.

"Tiger in the jungle" (arte: Sjoerd Frenay)

Do darwinismo social, passando por Nietzsche, pelo nazismo e por várias ideologias do capitalismo, volta e meia justificamos ações humanas em termos do que ocorre na natureza: o progresso é construído sob os rios de sangue, suor e lágrimas e pilhas de cadáveres. “Fatos da vida, algo a aceitar, se queremos seguir em frente...”. É um tipo de normose virulenta, particularmente quando ganha justificação supostamente racional.

Nos dezoitocentos era perfeitamente normal uma pessoa respeitada e educada nas melhores universidades europeias, como o Jorge Guilherme Frederico Hegel, dizer que as guerras eram boas para os países, já que fortaleciam o povo e lhe davam caráter. Isso em meio a xingamentos quanto aos povinhos ridículos e incivilizados ao redor. 

Deu no que deu.

Embora esses pensamentos em particular não sejam mais kosher (exceto naquela direita mais caricatural, e mesmo assim bem disfarçados), ainda tendemos a achar que, ao observar a natureza, digamos o comportamento dos animais e imperativos biológicos, podemos encontrar justificativas humanas para nossos atos. Pode até ser que isso venha um dia a encontrar algum tipo de justificação, mas sem dúvida o que mais ocorre é que, sem qualquer tipo de exame, simplesmente aceitemos esse tipo de salto. A saber, que podemos saber como nos portar bem meramente ao observar a natureza.

Isso nas priscas eras onde a religião era de fato relevante, evidentemente não entrava em questão. É por isso que algumas religiões e figuras religiosas acreditam no fim da moral com o fim da ideia de Deus. Afinal de contas, nossa consciência interna é o que, mais do que nosso corpo, foi “moldado à imagem e semelhança”. E o livre-arbítrio é, por definição, algo não natural, no sentido de não poder ser determinado por causas e circunstâncias.

No mundo da ciência, em que tanto determinação quanto aleatoriedade são aceitos, mas não há lugar para autodeterminação – e em alguns casos, nem lugar para noção de “consciência” – somos simples resultados evolucionários, e devemos nos portar como tal (e esse é o tal salto injustificado).

Ainda assim, rogo que esses dois extremos não sejam confundidos. Nem é certo que a ética possa ser extraída da observação do mundo natural, nem é certo que precisemos de Deus ou outra figura fantasmagórica para prover a ideia de consciência moral. Não é porque estou refutando um que o outro seja necessário: é simplesmente um falso dilema.

Digamos que por um momento eu assuma a posição existencialista (que de forma alguma defendo). Ela preconiza que, independente de nossos resultados metafísicos e lógicos, temos que assumir a responsabilidade de estar no mundo. Isso quer dizer que os imperativos morais necessariamente vêm de uma postura examinada – reflexiva – perante os conteúdos externos (o mundo observável) e nossa conflituosa liberdade interna.

Ora, mesmo perante o problema mais óbvio de acrasia –, a determinação sobre se comemos aquele quindim adicional ou não, e que tipo de consequências ele pode ter para nossa felicidade futura – sabemos que há uma luta entre a consciência humana (que existe dentro de um tempo conceitual projetado e que coordena “eus futuros”) e nossos impulsos. E qualquer um sabe bem que a resposta não é simplesmente seguir os impulsos, e nem mesmo simplesmente reprimi-los – e que uma aristotélica moderação, refletida e refrescada a cada oportunidade, é provavelmente o caminho da boa vida.

Ainda assim, todo dia você vai ler, no Facebook, por exemplo, gente promovendo ora os impulsos desenfreados, ora (um tanto mais raramente) o autocontrole neurótico. Essa tensão claramente vivida por cada um de nós é na verdade a própria a expressão de nossa reponsabilidade ética. O fato de isso nos voltar à mente vez após vez é simplesmente o processo que nunca acaba: encarar nossas responsabilidades. Por mais que tentemos descartá-las ou ignorá-las, ou nos comprometermos a sermos “bons moços”, o fato é que novos desafios surgirão, e não há como resolver a ética e deixar ela guardada em uma caixa: ela vai sempre exigir interesse e atenção, a cada circunstância que se apresenta. É a responsabilidade “existencialista” de, ora, existir.

Isto é, não só estar ali, como uma pedra inerte (cheia de determinismo e aleatoriedade, mas sem nenhuma autodeterminação), mas reconhecer a responsabilidade de existir no mundo como um participante (e portanto atento, interessado, não alienado, inserido).

Pois bem, como cultura a tendência tem sido desconsiderar a ética – a dimensão ética não entra em nossas terapias, não é considerada fonte principal de nosso florescimento pessoal e felicidade verdadeiras. A palavra “moral” é quase um xingamento para o pós-moderno. Ainda assim, é algo que exigimos dos políticos, e cobramos dos outros numa postagem de agressividade passiva: “não adianta cobrar ética dos políticos se você fura fila”, etc.

E, sem dúvida, se um suposto amigo nos prejudica deliberadamente, justamente o consideramos um sacana e não lhe oferecemos mais amizade! Ainda assim, a pós-modernidade vai dizer que “moral não existe”?! Para quem, cara pálida? Talvez seja algo que você fala para levar alguém para a cama, para deixar a noite mais divertida. Mas se você acorda pela manhã sozinho e reconhece que a carteira foi roubada, saber que a moral não existe (mais do que apenas não existe naquela pessoa – não existe ponto final) não lhe dá nenhum tipo de conforto. O fato de você ficar chateado com o furto de sua carteira, isso por si só é prova da existência da moralidade.

Invariavelmente nossas amizades surgem de nosso teor moral, “diga-me com quem andas”, etc., exatamente porque proporcionamos uns aos outros justificativas para nossas visões de mundo, boas ou ruins – e as ações que advém delas.

A ética só vem de uma vida examinada – porém normalmente não estamos querendo examinar a vida, queremos que algum artigo (preferencialmente de algum cientista) nos diga o que é certo fazer. Antes era fácil botar a responsabilidade no padre, ou na tentação do diabo – e adicionar o perene perdão divino – etc. mecanismos bizantinos, mas perfeitamente explicáveis perante nossa necessidade de examinar cada ação (e cada impulso) sob a luz de cada situação e dos resultados que queremos para nossa vida.

Hoje, se a psicologia evolucionária diz que a prerrogativa masculina é desejar muitas parceiras, pronto, aí a justificativa para nossa infidelidade: somos homens.

Assim está tudo explicado, e também nos eximimos de qualquer necessidade reflexiva, ou de pensar nas expectativas das parceiras. Ora, será que elas não leram a pesquisa?

Não é raro que alguém fale de ética e seja exposto a um dilema moral a ser resolvido, muitas vezes um experimento de pensamento cheio de hipóteses e nuanças complexas: em certo sentido, é um resultado do exame ético reconhecer que dilemas artificiais são diversões limitadas: é somente legítimo aquele problema que se apresenta numa situação vivida, particular, nada geral. Os exercícios mentais dizem muito mais respeito à lógica e ao exame de teorias éticas – algumas delas extremamente abstratas e irreais, e cujo escrutínio gera benefícios duvidosos – do que propriamente ao examinar a vida para viver bem, de forma autêntica e com interesse verdadeiro pelas situações e pessoas.

Ainda assim, não são só os “filósofos” que se prendem nisso: qualquer comentaristas de blog hoje se acha esperto ao apresentar um dilema moral perante uma colocação clara e perfeitamente legítima. Isso é o problema básico do sofisma: o próprio refutador, se apresentado com uma versão do problema, sua forma real e particular, teria que dar a melhor solução. E como um argumentador, usando o caso geral, todo mundo se contenta em reconhecer a aparente insolubilidade do problema, tal se fosse um descrédito total para a disciplina da ética inteira.

Voltando à desigualdade

Nossa cultura tem valores tão invertidos que ostentar poder ou posses pessoais é considerado “elitismo”. Ou mesmo ostentar conhecimentos, credenciais, colações de grau – fama, celebridade. Porém, a nobreza vem do examinar a vida, e à partir disso levar uma vida ética. O pecado da idolatria tem, no fundo, a ver com isso: tomar valores torpes como se fossem realmente elevados.

Quantas são as figuras vivas que exemplificam uma vida ética que reconhecemos hoje? Não estamos nem ocupados de reconhecê-las: como parte de nossa falência moral (que vem de nossa escravidão perante o entretenimento e o consumo), olhamos para exemplos de sucesso que nada tem a ver com uma vida examinada, bem vivida e que traz benefício aos outros.

E então retomo o tema da desigualdade: ela existe e sempre vai existir, mas a elite verdadeira é aquela que reconhece a desigualdade como inerentemente imoral, e busca sua diminuição. O resto é, literalmente, Mané.

Mas não me entendam mal: manés podem nos linchar, podem decidir leis na Suprema Corte, podem destruir florestas, fazer guerras e discursar na ONU. Todos, até mesmo os outros manés, tem que tomar cuidado com os tacapes aleatórios, já que muito geralmente os manés estão no poder, e quase todo mané se considera elite.

Pessoas razoáveis aspiram à nobreza, reconhecem a existência da nobreza, e por vezes encontram exemplos de nobreza nos outros – particularmente a nobreza de espírito e levar uma vida bem vivida – mas raramente se consideram elite: se achar elite, particularmente garantida e injustificadamente elite, é uma prerrogativa dos manés.

Mas isso não quer dizer que a elite não exista. Normalmente essa palavra surge muitas vezes no contexto do ressentimento: não aspiramos a elite, aspiramos derrubar as elites que estão nos impedindo de ser seres humanos basais, comuns, ordinários – mas com boas condições básicas de saneamento e TV a cabo, porque “somos filhos de Deus”. E aí há os manés que querem nivelar por baixo: ao não conseguir sequer projetar sobre si mesmos qualquer tipo de dignidade humana, a nobreza basal de respirar, agir e existir no mundo, não podem ver qualquer ser que se saliente (mais do que eles, na mente deles), que já desejam acabar com essa aberração.

A desigualdade que realmente importa

A desigualdade existe, sempre vai existir. Mas se falamos em grana (o que significa direitos, em nossa sociedade) ela tem aumentado. Aumento de desigualdade significa não só que há uma discrepância maior entre os pobres e os ricos, mas que há mais pessoas com menos dinheiro, e menos pessoas com mais dinheiro. E, a boa notícia, se ela pode aumentar, em todos esses sentidos, ela também pode diminuir.

E aí que está. Não existe mundo possível ético em que o aumento de desigualdade seja correto. Se medidas políticas a fizeram aumentar, medidas políticas a podem fazer diminuir – e se isso é possível, e não há dúvida de que é correto. Qualquer pessoa que diga coisas como:

 As pessoas sempre vão ser diferentes;

— Você quer que todo mundo ganhe o mesmo valor independente do esforço que faça?

— Se você garante condições mínimas para pessoas, elas não fazem mais nada, daí como a sociedade progride?

É, indubitavelmente, um enorme e vasto Mané.

Em primeiro lugar, quando se fala em desigualdade econômica, ninguém está querendo que todo o dinheiro seja forçosamente distribuído e que todos sejam relativamente o mesmo tipo de “pobres”. O que se quer é prover mais ou menos os mesmos direitos a todos, por meio de ações como impostos progressivos (quem ganha mais, paga percentualmente mais). Esses direitos incluem acesso a educação, saúde e habitação – bem como alguns outros como mobilidade urbana e acesso à cultura.

Juro que me dói ter que explicar isso, experiências anteriores mostram que é necessário: diminuir a desigualdade não é tornar as pessoas iguais, ou padronizar as pessoas de qualquer forma.  Diferenças, e mesmo diferenças de valor (veja: eu defendo a diminuição da desigualdade e chamei quem não acredita nisso de Mané! E isso não é uma contradição!), sempre vão existir.

Quando a gente fala que quer o “fim da desigualdade”, pode até haver algum lunático que fique chateado caso alguém possa comprar dois caramelos a mais do que a outra pessoa num dado ano: mas modo geral o que se quer dizer, e o que se quer, é o fim da EXTREMA desigualdade. E muitas vezes o que se acha que se está dizendo é que se quer o fim das pessoas ricas: não, se quer o fim da concentração de renda.

Em outros casos, se quer justamente que as pessoas ganhem o mesmo pelo mesmo esforço. Ora, se essa não é a maior e mais justa reivindicação do feminismo? Se isso é uma reivindicação, é porque obviamente a meritocracia está, justamente, distorcida. Fim da desigualdade é também corrigir as muitas distorções da meritocracia, em outras palavras, melhorar a meritocracia com o uso de critérios não arbitrários.

Além disso, acima de um determinado valor, pesquisas já mostraram, o dinheiro não aumenta a satisfação de ninguém. O problema é que, com o fim das elites de sangue, “linhagens de origem divina”, que misturavam poder político, econômico e religioso – e que davam suporte ao feudalismo e aos reinos, e cuja expressão atual é simbólica (Bourdieu indica que persiste principalmente na forma de títulos educacionais, como doutorado, etc.) o único indício de elite que temos hoje é puramente o dinheiro.

E o dinheiro, por sua natureza abstrata e gamificada, por sua tendência à concentração, e por sua conexão com a meta-abstração dos mercados financeiros, não é indício de qualquer valor. Se algum dia foi, cada vez menos é. O conceito de valor, aliás, é muito mais complexo do que o conceito de dinheiro.

Daí que o pensamento mané usual acredite que dinheiro é igual a nobreza, e que uma pessoa, por ter dinheiro, é merecedora de respeito e de agir com liberdade máxima com relação a esse dinheiro.

Quanto mais dinheiro, mais liberdade: isso não só é assim, quanto o dinheiro cada vez mais quer comprar que isso seja assim.

Isto é, gentinha como os irmãos Koch, que acreditam que, já que tem bilhões de dólares, estão prestando favor à humanidade ao impor sua ideologia irracional perante os poderes constituídos por meio do lobby. Não só o dinheiro naturalmente manda, como através da crença injustificada do naturalismo, o topo da cadeia moral é quem tem dinheiro, e não só merecem esse poder, como tem a obrigação moral de o ampliar e garantir.

Porém, as pessoas que ganham muito dinheiro nem são mais sábias, nem são mais necessariamente mais capazes – e muito menos são mais morais. O único valor que se pode subscrever a alguém que tenha muito dinheiro, é que saiba ganhar dinheiro. Claro, se não o obteve de herança.

E uma coisa é o poder e prestígio naturais que o dinheiro produz, e que todo mundo reconhece: ora, o dinheiro, em grande medida, facilita a vida das pessoas. E apenas conhecer alguém que tem muito dinheiro pode nos abrir muitas portas – eu tenho certeza que se eu ou você fossemos recebidos em audiência por um bilionário qualquer (não algum que é famosamente escroque), nós trataríamos essa pessoa com o mais cuidadoso respeito e atenção – afinal, no mínimo pode haver uma oportunidade de carreira aí. Isso ninguém aqui está negando. O que se está negando é o passo adicional, que a mera posse de dinheiro garanta uma posição de elite. Isso apenas numa determinada visão distorcida de elite, muitas vezes patrocinada por quem tem dinheiro (e por isso mesmo menos valiosa).

Em outras palavras, a ideia de que corporações ou pessoas muito ricas, por meramente estarem onde estão em termos financeiros, merecem mais poder do que o que já exercem sobre a política e as outras esferas humanas, não só é errônea, é execrável.

Meritocracia não deveria ser uma simples mensuração de quantos empregos se gera, ou de quanta filantropia se faz – muito menos de quanto lobby se exerce.

Não, sério, a desigualdade que realmente importa

Desigualdade também significa o fim de valores tais como “como você é Mané eu não deixaria minha filha casar/frequentar o mesmo clube com o seu filho”. Ou seja, o fim de valores tradicionais de elitismo “de sangue” e de “linhagem” que em grande medida as sociedades modernas aos poucos vão dissolvendo.

Aqui no Brasil, um assalariado de classe média muitas vezes trata o subalterno, ou a pessoa que está prestando serviço, como um subumano de algum tipo (Às vezes condescendentemente, como “parte da família” que come na cozinha, o que é um tanto desonesto).

Nós, depois de nossa entrevista com o bilionário, também comentaríamos para os outros “pô, o cara é super ser humano”, só porque, talvez, ele perguntou a você se você queria açúcar no seu café, ou algo assim.

Nossa perspectiva é ainda bastante enviesada.

Nos EUA, com toda a tensão racial e todos os problemas que eles enfrentam, uma pessoa fazendo seu trabalho e ganhando seu dinheiro modo geral recebe o mesmo respeito basal que qualquer outro. Por outro lado, essa é a cultura em que o termo “perdedor” nasceu: é uma cultura em que se você não se coaduna a certas expectativas sociais de sucesso, você é um pária.

Esse tipo de desigualdade também é um problema. Porém, essa é uma questão cultural, e a ação do estado quanto a isso é bastante reduzida. Portanto, não há muito que fazer quanto a isso, senão depurar os próprios vieses e abandonar a idolatria.

Portanto, voltamos à desigualdade econômica

Quanto a redução de desigualdade social, econômica, nossos estados já são instituições que supostamente deveriam fazer isso – e, de fato, já o fazem – muito imperfeitamente, mas essa é a ideia principal por trás deles, depois de garantir infraestrutura.

Portanto, quando a desigualdade (econômica) aumenta, é por que há certo desgoverno: se a desigualdade não diminui ou pelo menos fica estável, é porque a legislação e o poder público de forma geral estão beneficiando e facilitando a concentração de renda. Particularmente isso é verdade se a desigualdade acelera, como é o caso na vasta maioria dos países (não no Brasil) nos últimos 30 anos.

Além disso, fica evidenciado em inúmeras pesquisas que a satisfação em todas as classes aumenta com a diminuição da desigualdade. Todos os fatores que são problemas para até mesmo bilionários, como a violência urbana, são piorados com o aumento da desigualdade.

Você pode tentar argumentar: por que um bilionário que não anda na rua e tem carro blindado e segurança estaria preocupado com violência urbana? Ora, ele pode até não se incomodar de ter que pagar um segurança, ou de blindar o carro, ou de não poder frequentar certos lugares do mundo: mas todas essas coisas são uma perda de liberdade dele. E, além disso, por mais ativamente desinteressado que ele seja, ele não escapa da “feiúra” do mundo.

E é por isso que até mesmo bilionários manés e escroques muitas vezes ocupem grande parte do seu tempo com filantropia, tentando achar algum modo de se sentir bem consigo mesmo e ser relevante no mundo – por mais que alguns mantenham ideologias políticas absurdas e sem dúvida prejudiquem muito mais do que ajudam.


publicado em 11 de Junho de 2015, 00:00
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Eduardo Pinheiro

Diletante extraordinário, ganha a vida como tradutor e professor de inglês. É, quando possível, músico, programador e praticante budista. Amante do debate, se interessa especialmente por linguística, filosofia da mente, teoria do humor, economia da atenção, linguagem indireta, ficção científica e cripto-anarquia. Parte de sua produção pode ser encontrada em tzal.org.


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