Estamos procurando um autor para escrever sobre saúde do homem no PdH! Topa? Mais informações aqui.

É possível educar uma criança sem usar o castigo?

Como é importante entendermos de fato como funcionam os castigos para que saibamos lidar com as crianças em formação

Isso depende do que entendemos por castigo e do que entendemos por educação. A verdade é que uma criança aprende muito com o castigo, mas será que aprende o que queríamos que aprendesse?

O castigo, entendido como uma abordagem violenta e abusiva (violenta porque se vale da força, abusiva porque se vale do poder), costuma assumir duas formas principais na nossa cultura: o castigo pela função e o castigo pelo conflito.

No primeiro grupo, a maioria dos pais acredita que as regras devem ser cumpridas, que o respeito seja mantido e que a ordem seja instaurada... e eu só posso concordar com isso. O lance complicado é os caminhos que encontramos para que os nossos filhos façam aquilo que acreditamos ser bom pra eles.

Nesse sentido, muitos pais assumem (aprenderam quando pequenos?) que a disciplina deve ser severa, que a flexibilidade é coisa de gente fraca e que a negociação e o diálogo cria gente folgada e mal acostumada. Muitos pais caem no que chamamos de “armadilha da eficiência”. Uma criança desregulada e surtada deixa de gritar quando leva um tapa. É um mecanismo eficiente. Uma criança que não faz o que pedimos começa a se mexer quando a ameaçamos. Superefetivo. Se tivesse um ser que é três vezes o teu tamanho e pesa pelo menos quatro vezes mais que você, que sabe usar máquinas (carro, moto, serra elétrica) que você nem sonha em sequer segurar, você também ia se mexer, rapidinho.

O medo motiva.

Mas o que foi o que a criança aprendeu afinal dessa experiência?

Essa eficiência é uma merda, pois confundimos uma estratégia imediatista que funciona com um plano de educação real. Estamos colocando o adestramento antes da educação emocional. Isso é uma aposta muito arriscada. Hoje temos pelo menos 70 anos de dados acumulados, de todos os tipos, relacionando o castigo (físico, especialmente), em todas as culturas estudadas, com o baixo aproveitamento escolar, o uso de substâncias, o aumento da agressividade, a baixa autoestima, o comportamento antissocial e a depressão ou ansiedade. Estamos regando a plantinha que virará a árvore onde vamos pendurar a nossa forca.

A verdade é que as crianças, em condições normais de sono e alimentação, respondem muito bem a outros caminhos menos dramáticos. A firmeza não precisa ser violenta, só precisa ser isso, firme. A contingência funciona mil vezes melhor que a ameaça. É melhor explicar as consequências dos atos para o mundo e para as pessoas do que ameaçar alguém com consequências negativas. A identificação dos motivos da resistência e o diálogo e a negociação só fazem bem para a relação entre pessoas no geral, de governos no cenário mundial até crianças na creche.

O castigo pelo atrito é muito comum também. A nossa irritação cresce, o cansaço vence. A frustração própria da paternidade, somada ao trabalho, a conta, o trânsito e o desempenho do time no campeonato brasileiro às vezes entram todos ao mesmo tempo na décima casa de aquário (sei lá se isso existe) e o bicho pega. A questão é que se irritar e gritar é uma opção sua e não é uma propriedade das crianças.

Não acredito que existam crianças mais irritantes e sim pais menos tolerantes. Esquecemo-nos do nosso papel na vida. Esquecemo-nos que os adultos da relação (em teoria, pelo menos) somos nós. Quando você chuta uma porta, a culpa é da porta?

A verdade é que, pra responder a nossa pergunta inicial, o castigo é muito educativo sim. No caso dos castigos pela função, as crianças aprendem que podem usar a violência se as condições forem favoráveis. Se eu tiver mais poder ou mais força, eu posso simplesmente me impor perante um que é mais fraco ou que é menor. A criança aprende que o poder é uma arma, não uma responsabilidade. Que o poder serve pra mandar, não pra conciliar e construir. Que o desejo do fraco, do pequeno (da minoria?) é menos importante que o do forte e poderoso (eu estou cansado... hoje não.. agora não filho. Para de brincar).

É uma baita lição.

Um aprendizado e tanto.

E o castigo pelo atrito?... A criança não só aprende tudo o anterior como também aprende as piores respostas emocionais para enfrentar os desafios da vida. Aprende a mascarar suas emoções com justificativas e razões. Aprende que a violência é o passo seguinte natural para a frustração. Aprende que sua vontade é mais importante que a integridade física e emocional dos outros. Agora é torcer pra essa pessoa não virar prefeito de uma grande metrópole ou vice-presidente de algum país tropical!

Precisamos parar. Precisamos interromper nossa programação maldita herdada e entender o que temos pela frente. Não é só um filho. É uma pessoa, em formação. Uma pessoa que está aprendendo as lições mais importantes da sua vida inteira. É a sua oportunidade, não como pai, mas como pessoa, de fazer alguma coisa de boa pelo mundo, pela humanidade.

Alguma dica prática? O que dizem as pesquisas? As pesquisas dizem que o castigo físico não só não funciona, como provoca consequências indesejáveis no desenvolvimento psicológico da criança. A perda de benefícios é um excelente caminho, sempre que bem relacionado no tempo e no espaço. Não adianta eu ter uma criança surtada num restaurante na segunda feira e ameaçá-la com a perda de um beneficio no final de semana. Explicar as consequências dos atos é mais eficiente do que repetir mil vezes as mesmas instruções.

Uma criança tem muitas vezes mais probabilidade de repetir um comportamento que é elogiado do que suprimir um que é punido. Identifique você mesmo os comportamentos opostos desejados. Seja você um modelo do que espera dos seus filhos. Não adianta não gritar com ele e chutar o gato ou xingar no transito.

Nós adultos precisamos de grandes eventos para aprender pequenas coisas. As crianças precisam de pequenas coisas pra aprender grandes lições.

Mecenas: Natura

Natura Homem acredita que existem tantas maneiras de exercer as masculinidades quanto o número de homens que existem no mundo. Sem modelos a serem seguidos, sem colocar ainda mais pressão sobre os nossos ombros.

As nossas verdades, os nossos ritmos, os nossos jeitos de ser e estar no mundo. Seja homem? Seja você. Por inteiro. Natura Homem celebra todas as maneiras de ser homem.


publicado em 24 de Agosto de 2017, 23:25
Whatsapp image 2017 08 14 at 14 32 05 jpeg

Leonardo Piamonte

É psicólogo formado na Universidad Konrad Lorenz, de Bogotá, na Colômbia. Depois de trabalhar em clínicas psiquiátricas, centros de detenção e consultórios psicológicos, mudou-se para o Brasil há 12 anos, onde trabalha como psicólogo focado essencialmente nas questões relacionadas à paternidade, futuros pais e relações familiares.  


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura