É possível ser forte sem ser bruto?

Força não é igual a violência.

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Lembro como se fosse hoje de ver os filmes "Desejo de Matar" ao lado do meu pai, durante a década de 80. Ele não tirava os olhos da tela e parecia degustar a vingança dos personagens de Charles Bronson.

Eu assistia aquilo meio fascinado e, ao mesmo tempo, apavorado. Um homem com aquele bigode, injustiçado pela morte de uma pessoa próxima parecia não piscar ao executar os criminosos que o haviam agredido. Meu pai dizia: "assim que se resolve as coisas, sem piscar".

Mas eu nunca tive muito desejo de matar, nem tinha a frieza do Bronson. Para ser honesto, sempre fui muito sensível com as necessidades dos outros, das formigas aos humanos adultos. Como eu poderia me sentir forte nesse meio onde os fortes são brutos, cheios de si e sem piedade dos outros?

Para minha alegria , algumas outras figuras surgiram no meu imaginário de garoto sofredor de bullying. O Sr. Myiagi, de Karate Kid fazia algo ligeiramente diferente com o Daniel Larusso. Treinava a sua mente, para que seu corpo fosse um instrumento de defesa e não o agente da ação violenta.

Um pouco mais velho notei no terapeuta Sean Maguire, personagem de Robin Williams em Gênio Indomável um tipo de intervenção ainda mais sensível ao mundo interno, para conter aquela fúria avassaladora de arrogância do personagem de Matt Damon. Parecia que outras respostas me abriam um espaço para agir no mundo dos garotos e me safar de problemas. Usei a tática.

Na adolescência um garoto prometeu, no primeiro dia de aula, me atormentar por todo o ano letivo. Realmente parecia um pacto delicioso para um garoto assustado como eu. Todos os dias, no intervalo, ele invariavelmente me batia, até que comecei a caminhar em círculos pelo pátio do colégio. Talvez ele desistisse por cansaço.

Mas resiliente que era, não cansou. Eu disse "já que você vai me bater todos os dias poderíamos fazer isso conversando, seria menos sofrido para mim", ele concordou. Conversamos sobre tudo e eu fui descobrindo os assuntos que faziam com que ele diminuísse o rimo das pancada. Daquele ambiente inóspito nasceu uma grande amizade que me poupou outros garotos de se aproximarem da mesma forma pelos próximos anos.

O que Miyagi, Sean e outros mestres tinham em comum que criavam uma força interna que não necessariamente dependia da força bruta? A força deles vinha de outro lugar, parecia um tipo de sabedoria, uma capacidade de recuar, olhar de outro modo e mesmo quando podiam atacar ou revidar, abriam um espaço de reflexão. Faziam o inimigo cair mostrando um pouco de sua vulnerabilidade ou humanidade.

Talvez por sempre ter sido o menino mais frágil da turma não me restasse outra chance, mas sem dúvida, comecei a descobrir um tipo de força que não vem do corpo, ainda que não o dispensasse.

De qualquer forma, a força física tem um prazo de validade na escala de importância social. Ela é válida com mais eficiência na adolescência. Depois disso, vi muitas pessoas seguirem apoiadas numa suposta sensação de soberania bruta que não refletia em uma autoimagem positiva e atualizada. Muitos garotos brutamontes, agora em ambientes menos bélicos ou esportivos pareciam viver de uma nostalgia estranha, sem o ringue simbólico faltava um recurso interno para atuarem em suas vidas.

Não seria então, uma espécie de sabedoria e bondade associada com um senso de respeito por si e pelos outros que criaria essa aura de força? Não poderíamos desarmar muitos dos problemas de relacionamento na medida que tocamos outra pessoa com mais profundidade. Pense nas pessoas que você efetivamente respeita, qual a força do caráter delas que desarmam você? Sua avó conseguia arrancar de você qualquer coisa baseada em safanão?

As pessoas admiradas, lembradas e que serviram de inspiração para os que vieram depois delas tinham menos a oferecer em matéria de punhos. O legado que realmente deixaram tem mais conexão com estratégia e bondade (até feroz, quando necessária) mas profundamente conectada com princípios mais elevados.


publicado em 23 de Abril de 2017, 00:05
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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