E se a vida rodasse ao contrário?

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Uma diferença de nove anos entre um filme e outro e a trilogia se completa. Antes de me aprofundar em qualquer reflexão, vale lembrar que, como já dito pelo amigo João Baldi, seu relacionamento é melhor do que qualquer romance de cinema.

Mas, dito isso, é preciso também saber que a sétima arte serve de termômetro para o que anda acontecendo por aí, desde a visão macro (a política mundial, as guerras, as visões universais de cultura e sociedade) até o micro de tudo isso (a sua vidinha e a minha vidinha). Logo, para saber se estamos mesmo nos trilhos, uma olhadinha nos filmes vai dar uma boa direção.

E, me diz: como anda o teu relacionamento?

Obs. importante: se você ainda não viu os filmes Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr-do-Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013), pode rolar alguns spoilers. Se você não liga para isso, vai entender o texto mesmo assim. Pode continuar lendo.

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Quando botamos os pés na casa dos vinte anos, entramos em uma quebra de ritmo de vida. Paramos (nem todos, mas vamos manter essa linha de raciocínio) de depender de nossos pais, de vê-los como comandantes dos nossos atos e passamos a vê-los como iguais, como pessoas que, como a gente, estão levando a vida. Tudo é novo e intenso. Nasce, nesse momento, uma necessidade de conhecer mais o mundo e as relações que temos com ele. Cresce a intensidade de como olhamos e reparamos as coisas.

A vida amorosa é assim e foi assim com Jesse e Celine, personagens do Antes do Amanhecer. Eles se falam em um trem, descem em Viena no começo da tarde e precisam tomar, um do outro, o máximo de sabores que podem conseguir. Eles se exibem um para o outro, enfiam um ao outro em um pedestal e se entregam com força total nessa coisa doida que é se apaixonar. Tudo isso antes do Sol tornar a nascer. Depois disso, eles precisam ir embora, conhecer outras coisas e são lúcidos o suficiente para deixar o outro ir embora para, depois de maturado, poderem -- um dia -- tornar a se encontrar.

Eles sabem que o que tiveram foi delicioso, mas que tudo não passou de um recorte da vida todinha.

Pois bem. Passam nove anos.

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Antes do Pôr-do-Sol

O segundo filme, , é uma tristeza só. Um filme lindo, claro, mas com uma inversão sutil de expectativa que só é percebida (pelo menos só foi percebida por mim) quando se tem nas mãos a terceira e última película (chegaremos lá). Nessa parte que liga começo e fim, o casal Jesse e Celine se encontram depois que ele vai à França como um escritor com livro recém lançado e a encontra em uma sessão de autógrafos.

Antes, o que seria um momento bonito de reencontro de duas pessoas que tiveram algo lindo e inesquecível no passado, agora é uma prova da lástima de vida de ambos. Ele, um cara casado e preso a um relacionamento do qual não gosta e, ela, uma mulher que tem um surto e resolve procurar um cara que ficou quase uma década atrás.

Se pararmos para analisar, o segundo filme é sobre isso, conta que, depois de anos, o casal não se encontrou em seus mundos. Como uma fuga da realidade chata de ambos, eles resolvem se apegar um ao outro. O primeiro filme deixa no ar as perguntas de como seria. Agora, ele evidencia duas vidas chatas que param para pensar no que teria sido. O futuro do pretérito, nesse caso, não é agradável ("meu deus, será que eu seria um homem melhor se tivesse mantido contato com ela?". Ou "minha nossa, será que eu seria uma mulher mais feliz se não tivesse deixado ele ir sem ao menos pegar um número de telefone?").

Mas lá estão ambos, largando tudo para ficarem juntos e, no cinema -- ou seja, na ficção -- isso é lindo.

E agora chegamos ao último filme. Jesse e Celine estão casados, tiveram duas gêmeas lindas de morrer e estão passando férias na Grécia. É chegado o momento que provavelmente nem eles e nem nós, os espectadores, esperávamos: a hora de pensar tudo o que efetivamente foi.

Ou seja, foram dois filmes que mostram divagações, enquanto a última obra evidencia a realidade. São duas pessoas vivendo a vida juntos. Filhos, contas, frustrações, muletas.

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Eles dependem um do outro, precisam do apoio um do outro para caminharem, mesmo que seja para o lado oposto ao que queriam. Ela está em crise com o trabalho e ele não ajuda. Ele está em profunda crise com sua consciência de ter largado o filho do primeiro casamento na América enquanto ele goza a vida na Europa e ela, claro, não ajuda. É uma dependência exacerbada que dá a liberdade de, em um confrontamento da realidade, eles resolvem se atacar para expor suas frustrações.

Eles entram no paradoxo: um depende do outro, mas coisas boas e cruciais deixam de acontecer porque eles dependem um do outro.

Eles brigam, percebem a derrocada, os truques fofos não funcionam mais. Mesmo assim, eles ainda tiram forças e entram no jogo mais uma vez.

A realidade

E voltamos os olhos para nós mesmos. Três filmes que serviram como um baita indicador para analisarmos como enaltecemos de forma exacerbada um romance, como botamos a realidade sob um pano de bonitezas e como utilizamos esses artifícios como arrimo para nossas vidas.

Estamos sempre jogando (estejam certos disso), mas o perigo chega quando nem percebemos mais até onde estamos apostando, até qual ponto estamos colocando anseios na frente do que é real.

Agora pense tudo ao contrário

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Imaginem um casal, os mesmos Jesse e Celine, começando um relacionamento na Grécia. Eles começam se conhecendo a fundo no real da coisa, expondo seus podres e frustrações, abrindo o jogo quanto aos defeitos um do outro, expondo suas piadas que envolvem sexo e religião logo de cara. Tudo começa com o abandono do jogo, com a deixa do endeusamento do relacionamento. Toda a realidade é colocada na mesa antes de qualquer movimento.

Nove anos depois, vemos esse mesmo casal, agora na França, contando um para o outro todas as frustrações que sentiram na década passada, relatando tudo isso com singela esperança, se olhando de um jeito diferente, já íntimos, mas ainda faltando algo para se sentirem juntos e completos.

Se passa mais uma década e vemos o mesmo casal em Viena, viajando para conhecer mais coisas do mundo, zanzando a noite e trocando carícias, confidências, explorando ao máximo a delícia de estarem juntos. A trilogia termina com os dois se paquerando em um trem, não como negação da realidade, mas como uma vontade real de estarem juntos.

Muito real para Hollywood? Muito real... pra gente mesmo?


publicado em 20 de Agosto de 2013, 07:17
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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