Efeito Priming: como o meio influencia nossas mentes | Tecla SAP #24

Tudo que vemos está constantemente mudando e influenciando nossa visão.

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João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

Nesse poema chamado Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, parece claro que Lili é o ponto fora da curva. Não é de hoje que sabemos que nossas emoções influenciam nossos pensamentos supostamente mais racionais e que nós influenciamos as pessoas ao nosso redor assim como elas nos influenciam de volta.

Aparentemente, essa percepção passou a ganhar força a partir da década de 1970 quando estudos divulgados pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Stanford chocaram o mundo ao afirmar que as pessoas não conseguiam pensar racionalmente, como se imaginava.

Já explicamos esse fenômeno em vários artigos anteriores como:

Ao longo das últimas edições da Tecla SAP também já mostramos e explicamos uma série desses vieses e na semana passada abordamos, especificamente, o Efeito Halo. Hoje chegou a vez de nos aprofundarmos e compreendermos um outro que está quase sempre acompanhando-o: o Efeito Priming.

Teoria

A explicação para o Efeito Priming, na verdade, é muito simples. Etimologicamente, priming é oriundo de prime que significa primeiro. O efeito priming, portanto, é o efeito que uma palavra ou signo tem sobre uma segunda palavra ou signo.

Na linguística, estudos revelaram que palavras que compartilham características semânticas (médico/hospital), fonológicas (hora/oca) ou morfológicas (dança/dançarino) são lidas e entendidas mais rápido se aparecem em sequência. Da mesma forma, se elas não têm essa ligação (ou se nós não somos capazes de fazê-la), o processo passa a ser mais demorado.

Na psicologia, porém, a aplicação do efeito priming foi mais impressionante ainda. Daniel Kahneman, um teórico da finança comportamental premiado com o Nobel de economia em 2002, foi apenas um dos pesquisadores que conduziram estudos que mostraram que o comportamento das pessoas muda a partir de estímulos que elas nem perceberam.

Resumidamente, uma informação apresentada a você primeiro, implica na maneira como você assimila, reage e se comporta depois (mesmo que você deixe claro que aquela informação é falsa, por exemplo).

Link Youtube | Daniel Kahneman ilustra brevemente o Efeito Priming.

Formalmente, o Efeito Priming foi explicado por Bargh e Chartrand como "o processo pelo qual experiências recentes criam, de forma automática, prontidões de conduta".

Assim não foi nenhuma surpresa quando Kahneman fez um experimento que mostrou que pessoas que recebiam como estímulos palavras como 'vida, força, energia' atravessavam um corredor mais rápido do que aquelas que recebiam como estímulos palavras como 'tristeza, escuro, cansaço'.

Foi então que as pessoas começaram a pirar nas aplicações que esse conhecimento poderia acarretar.

Prática

Em quase todas as áreas, esse conhecimento foi aplicado.

Na economia de Kahneman, investidores perceberam que a primeira impressão que as pessoas recebiam sobre suas empresas influenciava na compra de suas ações.

No marketing, publicitários perceberam que as informações que as pessoas tinham sobre seus produtos impactava nos números de suas vendas.

Na comunicação, jornalistas perceberam que a ordem das palavras de um título ou de uma notícia mudava a percepção das pessoas sobre o conteúdo.

Na arquitetura, designers perceberam que a disposição das peças numa sala influenciava no rumo das conversas e no comportamento das pessoas numa reunião.

Na pedagogia, professores perceberam que a maneira como eles apresentavam um conteúdo gerava efeitos na capacidade dos alunos de aprender.

Link Youtube | O Efeito Priming a partir do comportamento do professor.

Tudo e todos estão constantemente nos influenciando e sendo influenciados de volta.

Menos a Lili. Essa estava sempre contra a maré.


publicado em 19 de Outubro de 2017, 19:19
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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