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Errei e não sei quem fui

A sociedade contemporânea ensina desde cedo: quando uma coisa não sai como o previsto, o negócio é fugir da culpa.

É a Lei de Gerson no seu conceito mais limpo e transparente. Independente da causa ou reação de seu ato, o negócio é ter vantagem. É sobressair o próximo. E se sua burrice for uma daquelas homéricas, o ideal é colocar a culpa nos outros.

Trata-se de uma síndrome natural. Todos, diariamente, testemunhamos situações semelhantes. No trabalho, por exemplo, culpar o estagiário já é praticamente um meme corporativo.

Não é por falta de ensinamento. Pais e avós repetem a todo instante um dos maiores ensinamentos da humanidade: "juízo e caldo de galinha não fazem mal a ninguém". Os erros, por mais doloroso que seja, devem ser admitidos. Porém, na pratica a teoria da ética é outra. E exemplos errados estão por todos os lados. Especialmente no esporte.

O incentivo ao esporte na infância é fundamental. Contudo, muito pais esquecem dos valores intelectuais que as atividades podem render aos seus filhos. Eles focam nos resultados e prêmios, jogando ao garoto uma responsabilidade que não pode existir. O esporte na juventude, acima de tudo, é uma escola de valores morais. Ganhando ou perdendo, não importa, é preciso saber receber o resultado e tirar dele uma inspiração para o seu futuro.

Link YouTube | "Leve vantagem você também"

A frase “a culpa é minha e eu ponho ela em que eu quiser”, umas das mais geniais do célebre Homes Simpsons, é levada bastante a sério entre os esportistas. É preciso uma pesquisa considerável para lembrarmos de um atleta brasileiro que admita: "A culpa é minha. Eu errei." O mais comum é atribuir responsabilidade às mais diversas coisas. Assumir a culpa, jamais.

Rubinho Barrichelo. Rubinho é o rei. Não duvido nem um pouco da sua competência. Ninguém sobrevive na F1 durante tanto tempo se não for razoavelmente bom. Mas, convenhamos, chega a ser cômico o que acontece com Rubinho. Ao longo de sua carreira não conquistou títulos e acumulou quebras no carro.

A aposta mais tradicional das manhã de domingo, mesmo em 2011, ainda é: o rubinho pára em que volta? Problema elétrico ou mecânico? As respostas de Rubinho parecem compartilhar com a opinião da maioria.

"Nós tivemos alguns problemas com a velocidade em linha reta e, em vários momentos durante a corrida, eu não consegui usar o Kers, o que tornou mais difícil a defesa. E eu também tive problemas com uma travada enquanto o Kers estava carregando."

A declaração acima foi feita pelo próprio Barrichelo após o GP da Turquia, onde o piloto terminou a prova na 15ª colocação. Infantil, o piloto achou logo um culpado. Aquele mesmo culpado invisível que o persegue em todas as equipes e quase todas as corridas.

Orgulho

Existe coisa ainda pior. O orgulho. Não, não o orgulho de conquistar um título. Mas o orgulho de jamais assumir um erro.

Imagine a seguinte situação: você é árbitro de uma partida de futebol. Dois jogadores adversários estão dentro da área com uma distância considerável entre eles. O atacante se arremessa ao chão. Você, mal posicionado, apita. É pênalti. Pelo menos pra você.

Ok, penalidades cavadas existem. Reclamações, gritarias e choradeira também. Mas aí, no dia seguinte, todos mostram a imagem na TV. Não foi pênalti. E agora?

Carlos Eugênio Simon, assim como centenas de árbitros, passou por essa situação durante uma partida do campeonato cearense. Com toda confiança possível, dois dias depois do ocorrido, Simon não largou seu orgulho e disse: foi pênalti.

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São exemplos e mais exemplos. Seja na escola, no trabalho e no trânsito, todos querem levar vantagem. Fica difícil acreditar que os ensinamentos de nossos avós e pais um dia sejam seguidos.

Em 2011, no futebol, já vimos o São Paulo reclamar dos contundidos na Copa do Brasil. O Cruzeiro, eliminado em casa, culpou o azar. O Internacional, também eliminado em casa, citou o inacreditável para deixar a Libertadores. Já o Corinthians culpou na falta de pré-temporada. Até a Seleção Brasileira, que não vence nenhum time entre os 20 melhores do mundo, credita ao “começo de trabalho” a sua própria falta de competência.

O Campeonato Brasileiro está apenas começando e já temos as primeiras reclamações. Sequencia de jogos, desfalques por causa de convocações, torcida muito impaciente e pressão da imprensa são algumas delas. Resta-no saber se até o final do ano teremos o improvável: um dirigente ou membro da comissão técnica admitir um erro de planejamento ou estratégia.

Desejo paciência para os homens de bom senso.

Só não me critiquem. A culpa não é minha.

Eu não escrevi nada disso.


publicado em 12 de Junho de 2011, 05:00
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Tadeu Rover

Jornalista diplomado e editor do OsGeraldinos.com.br. Esteve na Copa do Mundo da Alemanha, em alguns dos principais estádios do Brasil e em outros de menor expressão como o acanhado Abadião, em Ceilândia-DF. Adora torcer sentado mas entende aqueles que cantam, pulam e vibram sem parar.


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