O novo presidente da Argentina já foi presidente do Boca Juniors

O velho truque de misturar futebol com política. E o que isso interessa para nós?

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A relação do esporte com a política é algo realmente intrigante. Ao longo de séculos, o esporte vem sendo utilizado como instrumento de manipulação política, mas quase sempre de uma maneira velada.

A ideia inicial era demonstrar um país potente ao receber eventos grandiosos que exigem muito investimento e organização como aconteceu desde os Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim, durante o regime nazista.

Depois, a ideia evoluiu e, mesmo longe de casa, o desempenho passou a ser sinônimo de propaganda do país. Sendo capitalizado por governos como forma de exaltar a nação. É o caso do Brasil na Copa do Mundo de 1970.

Os exemplo foram se sucedendo, com eventos nos EUA, na China, na Rússia, no Brasil, na Argentina. Campeonatos que em maior ou menor grau pretendiam mostrar o poder dos países e o grande momento que atravessavam. Pelo menos aos olhos do resto do mundo.

No meio de tudo isso, alguns atletas resolveram começar a utilizar os mesmos mecanismos para manifestar seus pontos de vista. Foi aí que o tiro começou a sair pela culatra. Se for pra citar algum exemplo, não podemos nos esquecer dos atletas negros que se posicionaram em favor dos direitos civis afro-americanos no pódio dos 200 metros rasos nos Jogos Olímpicos da Cidade do México em 1968.

Leia esse texto do PdH: O cara branco daquela foto.

Foi então que começaram a colocar panos quentes na situação e proibiram atletas de se manifestarem enquanto estivessem representando seu país. Para não parecer que o problema não é com a gente, o exemplo mais recente foi o da nadadora Joana Maranhão.

Depois de gravar um vídeo se posicionando contra a redução da maioridade penal e falando poucas e boas de muitos políticos, Joana motivou toda uma discussão sobre atletas poderem ou não se posicionar a respeito de assuntos como esse .

Link Youtube

Acontece que em países vizinhos ao Brasil, a coisa vem tomando uma outra proporção. Se por aqui personalidades do esporte como o senador Romário, o deputado Andrés Sanchez, o vereador Marco Aurélio Cunha já utilizaram de sua popularidade no esporte como plataforma política, ao menos nenhum deles se tornou presidente como aconteceu na Argentina neste final de semana.

O novo presidente eleito do nosso país vizinho é Mauricio Macri. Além de filho de um ex-empresário famoso no país, dono de muitas empresas em diferentes setores da economia argentina, ele foi nada menos do que presidente do clube de futebol mais popular da Argentina por 12 anos: o Boca Juniors.

Verdade seja dita. Não é a primeira vez que isso acontece na América Latina. Um continente com uma cultura futebolística muito forte já viu casos bastante parecidos.

Sebastián Piñera, ex-presidente do Chile, tinha no Colo-Colo um de seus principais negócios. Horacio Cartes, paraguaio, também assumiu a presidência do país depois de comandar um time de grande popularidade nacional, o Libertad.

A eleição de Macri, porém, remonta pontos ainda mais interessantes dessa relação. Antes de concorrer a um cargo político novo, o Boca Juniors, clube no qual exerce forte influência política até hoje, sempre contrata ídolos e acaba conquistando títulos.

Foi assim com a volta de Riquelme, em 2006, ainda sob o seu comando. No ano seguinte, título da Libertadores da América e eleição ganha para prefeito de Buenos Aires. Em 2014, o clube mais uma vez faz uma grande contratação e tira o seu ídolo Tevez da Europa depois de uma grande temporada. Resultado? Boca Juniors campeão argentino e Macri presidente.

Se o futebol foi utilizado propositalmente como instrumento por ele ou não, é difícil de afirmar. Macri pode ser só um cara sortudo. Mas é claro que estamos fazendo apenas um recorte de um contexto muito mais complexo que resultou na sua eleição.

O que não podemos negar é que a influência e a popularidade adquirida em tempos de Boca Juniors ajudou bastante no seu caminho até a Casa Rosada. E fica a dúvida, diante de uma eleição tão acirrada, será que o resultado não seria diferente se não fosse essa sorte de Macri?

Tudo isso apenas reforça os laços antigos e sombrios do esporte com a política e me deixa ainda mais confuso. Afinal de contas, se dirigentes podem abusar do esporte como instrumento político, porque atletas nem sequer podem manifestar suas ideologias?

A mí me parece extraño.


publicado em 23 de Novembro de 2015, 22:00
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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