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"eu mereço!"

quando falamos "eu mereço", o QUÊ merecemos?

um dia, muitos anos atrás, no meio de uma discussão de relacionamento, minha ex-namorada perguntou, um pouco exaltada:

"você acha que estou sendo injusta com você, é isso?"

aquela pergunta me pareceu tão interessante que, na hora, eu saí da discussão, comecei a refletir e respondi:

"não, não acho. esse conceito de justiça não faz nenhum sentido no contexto de um relacionamento. o que seria ser justa ou injusta em um relacionamento? que justiça seria essa? justiça em relação a quê?"

minha namorada, que tinha anos de experiência em lidar comigo, rapidamente reelaborou a pergunta:

"ok, você acha que não estou valorizando você, é isso?"

"ah, sim, com certeza," respondi, e voltamos à nossa DR.

mas a pergunta ficou na minha cabeça.

* * *

sempre que usamos a frase “eu mereço” é porque estamos prestes a fazer uma merda. pior: normalmente, uma merda relacionada ao consumo.

não dizemos “eu mereço comer uma deliciosa e saudável saladinha orgânica”, e sim “eu mereço tomar um milkshake desta mega corporação que paga mal seus funcionários e faz propagandas que remetem à felicidade e padrões de sucesso”.

não pensamos “eu mereço ir caminhar pela praia numa manhã fresca”, e sim “eu mereço passar o dia inteiro binge-watching seriados babacas e cheios de violência.”

"eu mereço!"

nossas vidas são programadas para que essa frase seja seguida de consumo. todo dia merecemos enfiar o pé na jaca porque o trabalho foi duro (se não fosse duro, não seria trabalho) ou porque estamos engolindo sapos, ou porque finalmente chegaram as férias.

uma vida que nos esgota menos também nos faz precisar compensar menos. de forma bem prática, vivendo com menos dinheiro e menos demandas, deixamos de “merecer” o consumo, pois ele se torna menos necessário.

* * *

outro dia, andando de mãos dadas com a namorada, em meio a um dia absolutamente perfeito, ela suspirou, feliz:

"você acredita que, até pouco tempo atrás, eu achava que não merecia um dia tão lindo e tão incrível, uma felicidade tão gostosa como essa?"

e eu, apesar do medo de estragar nosso dia perfeito, comentei:

"mas não merece mesmo."

* * *

o que seria isso de "merecer"? merecer como? merecer por quê? como alguém faria para merecer essa felicidade? o que faria alguém des-merecer? 

achar que não merecemos ser felizes é péssimo, mas achar que merecemos é quase tão ruim quanto, porque ainda estamos presas na mesma falsa dicotomia. 

afinal, se eu mereço esse dia tão perfeito é porque existe gente que não merece. quem são essas pessoas? o que elas fizeram? 

ou, pior, se tem gente que merece um dia perfeito também tem gente que merece um dia trágico: meu amigo juca mereceu o dia em que bateu com o carro e perdeu as pernas? as pessoas pobres mereceram ser pobres? as pessoas com câncer mereceram seu câncer?

temos dias bons e ruins: eu não mereço nem o dia perfeito com a minha namorada nem o dia trágico em que perdi as pernas. merecimento não entra na questão. 

o universo me dá uma mão de cartas e me questionar se mereci ou não essas cartas não me ajuda em nada a fazer o melhor jogo possível com elas. 

pelo contrário, na pior das hipóteses, se acho que não mereço, fico insegura, com baixa auto-estima, paralisada; na melhor das hipóteses, se acho que mereço, fico arrogante, complacente, paralisada.

a introspecção é sempre paralisante: além de egocêntrica e narcisista, ela não me coloca nem um passo mais perto de aprender a lidar melhor com as circunstâncias da minha vida, sejam elas positivas ou negativas.

para mim, a ideia de "merecimento" parece competitiva e capitalista, hierárquica e fatalista.

prefiro abandonar o conceito.

eu não mereço nada.

* * *

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publicado em 10 de Novembro de 2016, 18:44
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Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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