Existirá felicidade no trabalho?

Conversamos com o Alexandre Teixeira e Sérgio Chaia para falar sobre avanços dentro das empresas para uma masculinidade menos destrutiva

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Competitividade no mais alto grau, a quase necessidade de avançar sobre o outro para prevalecer e ascender. A solidão de se estar no topo, a postura hierárquica de se sobrepor aos colegas, aos empregados, aos colaboradores.

Será que podemos trabalhar em empresas com culturas menos nocivas? Com masculinidades mais saudáveis e, ainda assim, produtivas e que auxiliam de fato o crescimento do negócio?

No evento Homens Possíveis, que o PapodeHomem realizou agora em dezembro, nós conversamos sobre a felicidade no trabalho e essa relação empregados e empresas nas questões masculinas.

Na conversa, Alexandre Teixeira (autor do livro "Felicidade S/A") e Sérgio Chaia (ex-CEO Nextel e Sodexo) falam dos dois lados dessa moeda:

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Para além disso, eu conversei com cada um deles para falar um pouco mais do tema, nas entrevistas aqui embaixo:

Alexandre Teixeira: "proteger as funcionárias que fazem denúncias ou as empresas? Não pode haver tal dilema"

1. Como as empresas podem se movimentar para oferecer, com ações práticas, avanços de uma masculinidade menos destrutiva nas grandes empresas?

Antes de mais nada, reconhecendo que isso que você chama de masculinidade destrutiva é um problema real, que merece ser tratado. Questionando a lógica da competitividade movida a testosterona e temperando-a com a lógica da cooperação, que talvez possa dar vazão ao lado feminino das organizações. E, naturalmente, impedindo a manifestação do lado mais grotesco dessa masculinidade destrutiva, sob a forma de assédio e abusos.

Casos de assédio sexual varridos para debaixo do tapete mostram a ineficácia de ir ao RH. Os departamentos de recursos humanos, como regra, enfrentam um dilema: proteger as funcionárias que fazem denúncias ou as empresas? Não pode haver tal dilema.

2. O que as empresas poderiam fazer para, de fato, abrir mais espaço para a entrada de mulheres em cargos de chefia?

A maioria precisa de ajuda profissional para enxergar o preconceito que há dentro delas. É, em geral, um ponto cego. Psicólogos organizacionais e coachs de executivos, se forem bem preparados, podem ser úteis para revelar vieses que pesam na hora das promoções. Penso que, atualmente, são raras as empresas que têm uma política deliberadamente sexista. No entanto, a maioria paga salários menores para mulheres nas mesmas posições que os seus colegas homens e tem diretorias executivas e conselhos de administração eminentemente masculinos.

Em geral, há uma racionalização das decisões que levam a tais quadros, quase sempre sugerindo que as mulheres abandonam suas carreiras e/ou não se preparam para assumir cargos de maior responsabilidade.

Em termos bem práticos, ainda há muito o que fazer para garantir, por exemplo, oferta universal de creches de qualidade. Em teoria, essa medida deveria favorecer os dois sexos. Na prática, como o cuidado dos filhos continua sendo visto como uma tarefa eminentemente feminina, a disponibilidade de boas creches faz com que menos mulheres abandonem (ou suspendam) suas carreiras. Faltam também medidas mais fortes para garantir pagamentos e oportunidades iguais para ambos os sexos.

3. Como trabalhar bem a competitividade e a cooperação dentro de uma empresa de grande porte?

Um efeito colateral da profissionalização da gestão nas grandes empresas brasileiras, quando o patriarcado coronelista deu lugar à meritocracia de resultados, é que, junto com o que há de bom (a eficiência), começamos a imitar as piores coisas do modelo americano: a terceirização, os rankings de desempenho e os extremos da competitividade. Uma mentalidade de ‘o vencedor leva tudo’. Isso criou muitos problemas para o mercado de trabalho brasileiro, que são difíceis de superar.

Não quero deixar de reconhecer os avanços. As empresas dos grandes empreendedores do começo do século 20 se desenvolveram em um ambiente de economia fechada. Não eram conhecidas, na maioria dos casos, por uma competitividade de padrão internacional. O que tinham a oferecer era uma cultura familiar que, de um modo peculiar, fazia as pessoas felizes. Numa época em que o que se buscava era estabilidade, em que a economia brasileira vivia às voltas com altos e baixos, segurança no emprego para cuidar da família era o sonho de todo sujeito considerado sensato.

Superamos essa fase meio mambembe, mas as pessoas estão infelizes. Para mim, o antídoto é temperar a competitividade com altas doses de cooperação. Pelo menos deixar a competição totalmente voltada para fora e estimular a cooperação no ambiente interno.

Sergio Chaia: 

1. Como equilibrar a vida de quem persegue arduamente resultados com uma rotina familiar mais próxima, mais saudável?

Sérgio: Ter consciência da necessidade de balancear mais as diferentes dimensões da vida é um bom primeiro passo para atingir um maior equilíbrio. Essa deve ser uma busca contínua, mas não opressiva. Senão, a jornada é tortuosa e não traz os benefícios que esperamos. 

Um bom caminho, junto com a consciência, é não tentar separar a vida profissional da pessoal. Quando fazemos isso, a sensação é de dívida nas duas frentes. Por que não trabalhar de sábado, quando necessário, ou ir no cinema terça à tarde quando sobrar uma brecha?

2. Mais do que dinheiro: quais deveriam ser as grandes metas de quem chega a cargos de chefia em grandes empresas?

Sérgio: Propósito. Essa deveria ser a grande meta. A boa notícia é que ter um propósito claro aumenta sua resiliência que aumenta sua performance. 

Para encontrar seu propósito, acho bacana se questionar. "Por que faço o que faço?", e entender o que de melhor quero entregar ao mundo. Reflexões como essas ou a meditação da morte, onde refletimos o que fizemos com a nossa vida, ajudam a descobrir e lapidar nosso propósito de vida. 

3. O que as empresas poderiam fazer para, de fato, abrir mais espaço para a entrada de mulheres em cargos de chefia?

Sérgio: Acreditar que as mulheres trazem competências emocionais diferentes, e que essas competências trazem mais diversidade, que traz mais resultados. 

Se a empresa acredita de verdade nisso, apoia essa entrada e tira das mulheres o que de melhor elas podem oferecer. Valorizando a intuição, a emoção e o olhar diferente que uma mulher traz. E propiciando um ambiente acolhedor para essas contribuições. Outra reflexão importante é que vejo muitas empresas que fazem muitos produtos e serviços ao público feminino mas só tem homens na liderança. Quem pode entender mais de mulher do que as mulheres?

Mecenas: Natura Homem

Natura Homem acredita que existem tantas maneiras de exercer as masculinidades quanto o número de homens que existem no mundo. Apoiar eventos como o Homens Possíveis e a caminhada do PapodeHomem como um todo são algumas das maneiras que encontramos para caminhar lado a lado com vocês ao longo de 2017.

Seja homem? Seja você. Por inteiro.

Natura Homem celebra todas as maneiras de ser homem.


publicado em 02 de Janeiro de 2018, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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