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Madron FC, o pior time do mundo, e a verdadeira loucura do futebol

Uma vez eu li aqui no PapodeHomem um texto do Bracht que falava sobre futebol, ou melhor, falava sobre torcer para um esporte do tipo. Obviamente é a visão de alguém que não gosta daquilo, mas, principalmente, é um olhar crítico por fora. Se você for racionalizar a coisa toda, futebol é meio doido mesmo.

Aliás, qualquer esporte pode ser ridicularizado se analisado friamente. Curling, por exemplo. É só um bando de malucos varrendo gelo tentando acertar um ferro de passar redondo feito de granito no outro dentro de um círculo.

LOUCURA

O que o Bracht não levou em conta foi a paixão.

Um sentimento que não é nada racional, muito menos frio. E paixão para mim é uma motivação inconsequente que te faz continuar fazendo o que quer que seja. Mesmo que todos te achem um maluco por continuar. Se você não sente a mesma paixão, nunca vai entender e será um daqueles que veem a coisa como uma loucura inacreditável.

Nick Hornby escreveu o que eu considero a bíblia de um apaixonado por futebol. Ele explica com detalhes como era torcer para um time ridículo em jogos que poderiam facilmente serem usados como tortura em massa por algum ditador. Eu não vou explicar todo o livro aqui, mas para mim tem uma fase que resume bem essa coisa da paixão:

“O estado natural do torcedor de futebol é de amarga decepção, pouco importa qual seja o placar.”

Nessa mesma passagem do livro, ele fala em como ficou impressionado ao constatar o quanto as pessoas simplesmente odiavam tudo ali dentro do estádio. Detestavam tudo, o tempo todo.

Madron FC

Olha só esses caras. Eles quebraram o recorde de gols numa das trocentas divisões do futebol inglês.

Recorde de gols sofridos, é bom deixar claro. Foram 227 em 11 jogos, incluindo uma derrota por 55x0.

Link YouTube

O vídeo tá em inglês medieval, digo, britânico, mas dá para entender o espírito. É tipo um Ibis da Inglaterra. Aquele senhor simpático de bigode no início do vídeo acumula as funções de dono, gerente de futebol e técnico, entre outras, do pior time de futebol da Inglaterra.

Os caras inventaram o futebol, então é algo a se considerar.

Enquanto você está aí vendo as reais chances do seu time ser campeão, ou de ressaca de um título grandioso, seria considerado uma aberração por esses caras, cuja maior glória imaginável é empate não-sofrido na próxima temporada.

Uma das palavras que você entende e que se repete a todo momento é paixão. Eles são apaixonados pela coisa. Não importa se são os piores. Não importa o resultado. "Outro dia jogamos contra o melhor time do campeonato e perdemos de 5 a 3”, disse um deles, com orgulho. Isso é mágico. Essa é a verdadeira essência da coisa.

Outra fala que chamou a minha atenção foi de uma garota: “a paixão que eu vejo deles eu nunca vi em nenhum time da Premier League.”

Esqueça 100 mil pessoas num estádio, esqueça aqueles engomadinhos que estão ali para tirar foto e falar que foram na final da Champions. Esqueça aquele seu amigo que viu o time ganhar a Libertadores. Lembre daqueles 467 que vão ver Atlético Goianiense e Sport numa quarta às dez da noite. Lembre daqueles caras que pegam um ônibus do interior de Minas até Santiago numa quinta chuvosa, lembre-se de você se perguntando se eles tem emprego, e se não tiverem, como diabos eles pagam a viagem e o ingresso?

O time para qual eu torço, o Atlético Mineiro, não ganha um campeonato importante desde 1971. E o melhor jogo que vi na minha vida foi uma derrota. De virada. Para o maior rival. O ano em que jogou a segunda divisão foi o ano que eu mais fui no estádio. E eu nem morava em BH.

Quando o amargo e detestável vira doce e irracionalmente apaixonante, mesmo que por breves momentos, é extremamente viciante. É aquela segunda, terceira dose que demoram meses. Mas que, quando chegam, são puro êxtase.

É loucura mesmo, Bracht. Pura e simplesmente loucura. Deliciosamente edificante durante segundos e extremamente dolorosa durante anos.

Link YouTube | Se nem os maiores filósofos do mundo chegaram a uma conclusão, eu é que não vou


publicado em 09 de Novembro de 2012, 15:52
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Pedro Turambar

Pedro tinha 25 anos e já foi publicitário. Ganha a vida fazendo layouts, sonha em poder continuar escrevendo e, quem sabe, ganhar algum dinheiro com isso. Fundou o blog O Crepúsculo e tem que aguentar as piadinhas até hoje. No Twitter, atende por @pedroturambar.


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