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Joachim Löw renova com a Alemanha e mostra que excelência é uma prática | Mais que um jogo #16

Comandante da seleção que goleou o Brasil em casa e se tornou tetracampeã mundial, Löw passa longe de ser o melhor técnico do mundo, mas seguirá até 2020

Tem sido tempos de papos bem batidos com gente interessante, essas últimas semanas. Talvez pelo momento, talvez pela companhia, tenho esbarrado em gente que me inspirou e fez pensar. A começar pelo Adriano Silva.

Vivido na arte de formar boas equipes e comandar negócios que deram certo, Adriano nos contou – você já pode ver no primeiro artigo que soltamos com ele – como atingir um momento de sintonia fina é algo raro. Algo que encontramos uma ou talvez duas vezes na carreira toda, mas que precisamos buscar o tempo todo.

Essa fala, vindo de alguém que podemos chamar de bem sucedido como ele, caiu como uma bomba e como um reconforto no meu colo. Ao mesmo tempo que acalentou minha ansiedade de ver tudo dando certo o tempo inteiro, fez a caixola disparar a pensar como alcançamos essa tal excelência em momentos estranhos e ao mesmo tempo perfeitamente previsíveis.

Quando vi a notícia sobre a renovação de contrato do técnico Joachim Löw até 2020 com a federação alemã de futebol, não pensei duas vezes: hora de puxar essa conversa com vocês.

O lugar certo na hora certa

Quem conhece futebol e se presta a fazer uma lista de melhores técnicos do mundo dificilmente coloca Joachim Löw nela. Apesar de ser o comandante da atual campeã do mundo, o treinador alemão não é badalado, nem muito elogiado, mas também passa longe de ser questionado no alto cargo que ocupa na seleção tetracampeã mundial.

Como assim não estou entre os melhores do mundo?

Löw era um treinador de futebol mediano que não tinha alcançado mais destaque do que o título da Copa da Alemanha de 1997 com o Stuttgart. Depois de pular de trabalho em trabalho, aceitou o convite de Jürgen Klinsmann para ser seu auxiliar na seleção alemã e acabou assumindo o cargo de técnico principal quando este deixou a equipe após a eliminação nas semifinais da Copa de 2006 disputada na própria Alemanha.

De lá pra cá, Löw conduziu a seleção até pelo menos a semifinal de todas as competições que disputou. Alcançou o 2º lugar na Euro 2008, 3º na Copa de 2010, 3º na Euro 2012, 1º na Copa 2014 e 3º na Euro 2016, além de se manter invicto nas eliminatórias europeias, feito que vem sendo prorrogado desde 2001. E lá se vão 15 anos.

Diante desses resultados, do fato de Löw não ter um currículo consolidado pré-seleção e à luz da sua renovação de contrato até 2020, nos colocamos em busca dos motivos pelos quais este técnico pode se tornar um recordista no cargo. O que descobrimos? Na Alemanha, isso é uma prática.

O tempo que o tempo têm

Técnico da seleção alemã? Só eu e mais nove!

Desde que a Nationalelf passou a ter um profissional com dedicação exclusiva em 1926, apenas 10 seres humanos diferentes exerceram essa função, consolidando uma média impressionante de 9 anos pra cada um. No caso de Löw, se ele cumprir a mais nova extensão de seu contrato até o final, deverá atingir 14 anos no cargo, se tornando o segundo mais longevo da história e o com o maior número de partidas disputadas.

Tudo aponta, portanto, para uma prática fundamentada numa crença já conhecida da Federação Alemã de Futebol e replicada em diversos outros lugares de sucesso no mundo: se deseja que um trabalho dê frutos, então dê tempo para que este trabalho seja feito.

Para não dizer que tal cultura não pode ser aplicada no Brasil, basta ver o que vem sendo feito com qualquer uma das seleções de vôlei do país. Nos últimos 15 anos, a seleção masculina de vôlei teve Bernardinho como único técnico. No mesmo período, a seleção masculina de futebol teve Emerson Leão, Luis Felipe Scolari (duas vezes), Carlos Alberto Parreira, Dunga (duas vezes), Mano Menezes e o atual Tite. É quase o mesmo número de trocas de comando que a seleção alemã teve em toda sua história.

Ô, minha gente, não é assim que faz não!

A essa altura, porém, você pode dizer que nada disso prova que os bons resultados são frutos de longos períodos de comando e não o contrário. É quando eu te apresento, o segundo fator dessa equação vitoriosa: alta capacidade de adaptação e atualização.

A repetição leva à perfeição

Quando Luis Felipe Scolari assumiu a seleção brasileira pela segunda vez em 2012 foi perguntado o que tinha mudado no futebol desde sua última passagem em 2002 e respondeu que 'o futebol não tinha mudado tanto assim'.

Pô, Felipão, o que aconteceu? Um apagão?

Felipão poderia ter baseado essa sua falsa crença na observação da longevidade de outros treinadores, mas não percebeu a capacidade que estes tiveram de se reinventar nas posições que ocupavam. Para manter no exemplo do futebol, Löw assumiu a seleção alemã com a intenção de continuar o trabalho de Klinsmann, uma vez que a federação alemã acreditava no trabalho que estava sendo desenvolvido pelo treinador que deixou o cargo por vontade própria (a federação queria que ele continuasse, mesmo após a eliminação na semifinal da Copa do Mundo em casa).

E no início foi exatamente isso que Löw fez: manter as coisas como estavam. Economizou tempo de adaptação dos jogadores a um novo estilo de jogo e intensificou pouco a pouco o processo de renovação da seleção. Os títulos, porém, custaram a aparecer e o aproveitamento de Löw no comando do time nacional ainda hoje não passa dos 66,7%.

O treinador, porém, aproveitou-se da segurança e estabilidade que desfruta no cargo para começar a colocar um pouco das suas próprias ideias em prática. Foi assim que ele implementou um futebol sensivelmente mais ofensivo do que seu antecessor e, a despeito da goleada aplicada sobre o Brasil na semifinal da Copa de 2014, viveu o seu momento mais sublime no comando da seleção alemã em termos de futebol bem jogado na Copa de 2010 quando goleou a Inglaterra por 4 a 1 nas oitavas de final e a Argentina por 4 a 0 nas quartas. Por motivos que fogem do seu controle: foi parado na semifinal pela Espanha que viria a se consagrar campeã do mundo pela primeira vez na história.

E tem gente que só me conhecia porque eu comia meleca!

Em resumo, Löw é mesmo um treinador de currículo mediano, alçado a posição de comando máximo num país de tradição no futebol, que conseguiu alcançar o maior status possível de sua profissão por fazer parte de um trabalho de longo prazo. Mesmo ao longo de todos esses anos, a seleção alemã segue tendo seus altos e baixo, mas mantém um nível bastante elevado em perspectiva, o que confirma aquilo que Adriano Silva disse recentemente: a excelência é algo que nós devemos buscar o tempo inteiro, mas é um momento raro na nossa carreira.

Pensando assim, fica mais fácil admitir que nem todas as falhas significam que a rota está completamente errada e que o mais importante é ter tempo para corrigi-las, se manter atualizado e aguardar pelo momento mágico que virá e inevitavelmente desaparecerá por motivos que nem sempre estarão ao nosso alcance. O segredo é continuar trabalhando em busca do próximo.

“Eu gostaria de agradecer a confiança e o apoio da federação na extensão do meu contrato. Também gostaria de agradecer toda a comissão técnica. Nossa cooperação se baseia no conhecimento e queremos confirmar o sucesso que tivemos no Brasil também durante a Copa do Mundo da Rússia. Estou muito feliz por poder continuar desenvolvendo o time e os jogadores. Agora, o próximo objetivo é qualificar a equipe como líder de seu grupo nas Eliminatórias”


publicado em 02 de Novembro de 2016, 19:18
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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