Quando o jornalismo político vira entretenimento

A democracia é fundamentada na nossa capacidade de discernir o que é bom ou ruim, moral ou imoral. Quando essas linhas ficam borradas, o sistema inteiro corre perigo

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Com o fim da Rio 2016, não vai demorar para voltarmos nossa atenção ao confuso momento político que se encontra nosso país. Os jogos trouxeram uma sensação de orgulho nacional e união, mas basta os novos escândalos explodirem para que aquela chama interna seja reacesa, nossa mais profunda sensação de que tem algo errado e que precisamos nos informar sobre o assunto.

Com o calor esportivo esfriando, os acontecimentos políticos voltarão a ser a principal temática consumida pelos brasileiros. O lado positivo é que o momento traz uma chance de repensarmos os eventos com uma perspectiva mais relaxada, sem o estresse de quem veio sendo bombardeado por polêmicas ao longo de vários meses. No entanto, para trabalhar esse novo olhar, precisamos desconstruir a forma como as notícias são trazidas até nós, para assim saber julgar o que é ou não relevante.

Estamos interagindo com nossos governantes e suas ações de uma forma que nunca foi vista antes, mas por ser um fenômeno relativamente novo, ainda não entendemos muito bem como lidar com tudo isso.

A responsabilidade da mídia

A mídia veio se modificando bastante ao longo dos últimos 20 anos. Veículos de comunicação que não existiam até as eleições de 2006, agora se multiplicam quase que diariamente. Atualmente existem variados formatos de blog e incontáveis sites de notícia, nem precisando entrar em detalhes sobre as redes sociais e sua assustadora capacidade de alcance. O ruído que envolve a informação está cada vez maior, resultando numa verdadeira corrida para ver quem consegue reter mais espectadores.

O mercado da atenção nunca foi tão competitivo, e os políticos sabem que precisam batalhar para ganhar terreno. Não é fácil convencer alguém a trocar uma conversa com a namorada ou um vídeo do Porta dos Fundos, pelas notícias de política no jornal das oito.

Precisamos ganhar sua atenção. E sabemos como.

A solução que encontraram para esse problema é simples, transformar a narrativa política em algo mais parecido com as peças de entretenimento.

Não é por acaso que a reação do público está tão acalorada quanto os comentários do jogo do Corinthians no último domingo. Os eventos da esfera governamental se transformaram em verdadeiros episódios de novela. E nós, os espectadores, acabamos num cenário onde o sensacionalismo e a espetacularização são uma comprovada fórmula para o sucesso, sendo cada vez mais difícil distinguir o que é spam, propaganda ou notícia.

E como nosso acesso aos acontecimentos políticos se dá quase que exclusivamente pelos meios de comunicação, a linha entre entretenimento e política fica cada vez mais borrada. Esperamos a mesma gratificação ao ler sobre as atitudes de um político, que esperamos quando lemos uma crônica do Jader no PapodeHomem.

O professor de ciência política e filósofo François Debrix chama esse fenômeno de "realismo de tabloide". Uma forma de política estruturada por manchetes fáceis de serem absorvidas. Segundo ele, as pessoas não querem ler que estão recebendo menos em seus empregos, sendo exploradas no trabalho e outras notícias cotidianas. Nós queremos histórias glamourosas, escândalos e eventos excepcionais que os permitam sonhar ou desenvolver um senso de raiva. Resumindo, o que queremos é puro entretenimento.

Histórias glamourosas, entretenimento, tá tudo aí.

A nossa responsabilidade

Numa sociedade guiada pelo espetáculo, a coisa que soa melhor é a distração. Não importando muito se o japonês da Federal foi preso ou não. O que importa é que você clicou no link que prometia expor um novo escândalo, e que gosta de pensar que é verdade. Da mesma forma, não importa se o Obama citou o Brasil em seu pronunciamento, se a polícia militar bateu continência para os manifestantes em São Paulo ou se o Tiririca foi citado na operação lava jato por sua honestidade, essas narrativas são mais interessantes.

Os programas de televisão e outras formas de diversão surgiram como uma distração para os problemas da vida política, mas agora refletem uma verdade ainda maior. Como na famosa citação de Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo:

"Num mundo realmente às avessas, o verdadeiro é o momento do falso."

Tirando o fato da maioria das polêmicas na internet serem falsas, existe uma grande verdade escondida nesses boatos. Em nossa sociedade guiada pela imagem, nós não queremos saber o que é verdade, preferimos consumir o que nós desejamos que seja verdadeiro.

No fim, tendemos a votar em alguém que incorpore o que nós mesmos queremos acreditar, ao invés de optar por um candidato que realmente represente uma alternativa válida para nossa situação da política. O certame político, como observamos em 2014, se torna um enorme festival de boatos, confundindo os eleitores, que agora, não sabem mais no que podem ou não acreditar.

Estamos fazendo nossas escolhas baseados em sentimentos confusos. E o resultado, pelo que podemos ver, não tem sido nada satisfatório.

Nada satisfatório? Hmm, conte-me mais.

Aristóteles, em sua obra Política, defende que os seres humanos são animais cívicos, e nossa capacidade política é o que nos diferencia dos outros animais. A democracia é fundada nesta mesma premissa, na consciência de que todos nós somos capazes de discernir o que é bom ou ruim, moral ou imoral. Enxergar o que existe nos bastidores desse grande cenário exige um empenho coletivo.

Entender o que é verdadeiro, o que é boato e até onde vai a linha do espetáculo vai ficando cada vez mais difícil, mas para alcançar um resultado melhor do que temos hoje, precisamos ser menos passivos, evitar agir por impulsos e ser um pouco mais racionais, analisando os acontecimentos com cuidado e verificando a procedência de todas as informações que recebemos e compartilhamos.

Assim, a característica que torna a democracia uma maravilhosa ferramenta, é a mesma que a faz ser tão complicada. Todos nós somos um pouco responsáveis pelo que acontece no poder, e ao agirmos passivamente, também nos tornamos cúmplices das suas falhas.

***

Nota da edição: esse texto foi inicialmente publicado na newsletter pessoal do autor e atualizado para publicação no PapodeHomem.


publicado em 22 de Agosto de 2016, 16:23
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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