Mahatma Gandhi: racista, misógino e revolucionário?

Descobrir os maus feitos de um dos maiores líderes espirituais e políticos faz pensar sobre o modo como construímos personagens heroicos pra nossa história

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Se o papa é pop, Mahatma Gandhi seria o Michael Jackson.

Até quem não conhece, na verdade conhece, ainda que seja pra associá-lo à prática de yoga e ao vegetarianismo do pessoal que tem o mat no chão do quarto e aparece no Instagram em posições curiosas.

O fato é que Gandhi é reconhecido pela sua influência na independência da Índia e a formação do Estado Indiano por meio da satyagraha, forma não-violenta de protesto, e da desobediência civil. É inspiração pra outros líderes e ninguém parece discordar de sua grandeza.

Mas não sejamos aqui ingênuos. Você é esperto e já sabe que a lenda da figura de Gandhi, assim como de outros personagens, é construída, e que o homem definitivamente tinha lá seus defeitos. Talvez fosse um pouco chato e falasse demais. Pode ser que tivesse o quê de intransigência que têm todas as mães. Muito provavelmente sofresse de mau hálito ao fim do dia.

Só que e se eu te dissesse que Gandhi era racista?

O homem que morou na África do Sul por mais de vinte anos lá trabalhava como advogado, defensor dos direitos dos indianos – e só deles. Os nativos negros chamava de kaffir, a quem mal chegava a considerar humanos, e também defendia que sulafricanos brancos deveriam ser a raça predominante do país.

Sua primeira luta no país, em 1895, foi pra conseguir uma entrada especial para indianos nos correios da cidade de Durban que os separasse dos sulafricanos negros.

Pralém disso, o posicionamento espiritual mais pessoal do que civil de Gandhi sem dúvidas resultou numa estratégia política interessante, mas não foi capaz de mudar o panorama social da Índia e a organização de castas.

Apesar da luta contra o estigma atribuído aos dalits – casta mais baixa da religião –, de ‘intocáveis’ e impuros, em cartas trocadas à época, o líder manifestou apreço pelo mesmo sistema, de forma a considerá-lo a melhor parte do hinduísmo. A estrutura nunca foi questionada.

Então e ainda hoje, dalits sofrem com a posição social que lhes é atribuída. Em 2012, mesmo ano no qual o estupro coletivo de uma garota indiana gerou protestos no país, 651 dalits foram assassinados, muitos linchados, e 1500 outras dalits foram estupradas por homens de castas superiores.

"Enforquem os estupradores"

E se eu te dissesse que Gandhi forçava mulheres a dormir em sua cama?

Reafirmador da noção de que os homens não eram capazes de controlar seus impulsos sexuais, não hesitava em responsabilizar a mulher por estupros. E sua busca pessoal por evolução espiritual envolvia forçar mulheres, muitas vezes jovens, como sua sobrinha-neta, a dormir em sua cama pra que ele pudesse testar sua resistência ao sexo.

Suas declarações acerca de métodos contraceptivos e a própria menstruação corroboram sua misoginia.

Melhor que eu falou Arundhati Roy, escritora e ativista, nessa conversa com Laura Flanders. São 17 minutos que revolucionam o modo como vemos a figura da Gandhi.

Arundhati vai além das reportagens que, em partes desconectadas, revelam quem foi o idealizador do Estado Indiano – em pouco tempo, ela traça um panorama conexo dos reais interesses do líder na independência indiana e quais eram suas práticas.

Você vai me dizer que, ainda assim, o cara foi o maior responsável pelo processo de independência indiano e inspirou muita gente a seguir por caminhos de luta pacíficos. E eu vou concordar.

Dizem boas línguas que não devemos julgar a obra de arte pelo comportamento moral do artista, e por mais que saibamos que fica difícil fazê-lo quando conhecemos suas mais feias verdades, há de se reconhecer bons resultados.

Não sou eu quem vai tirar de Gandhi seus méritos, e nem venho aqui propor ódio ao homem. Afinal, das feias verdades nós também provamos. Só não deixo colocar a necessidade de maturarmos nossas personificações – há algo no modo como formamos nossas narrativas culturais e históricas que precisa de herois.

Se construímos figuras lendárias não só na ficção mas também da historicização dos nossos causos, então temos de saber que esse processo é tão ficcional quanto o primeiro.

Conscientes disso, cabe um esforço por enxergar esse processo com olhos mais lúcidos. Se podemos nos perder na fantasia, é importante que os pés no chão se mantenham quando pensamos em agentes de mudança desse nosso mundo – é preciso saber que são personagens. E falas como a de Arundhati vêm enriquecer nosso imaginário com material pra tanto.


publicado em 18 de Dezembro de 2015, 00:05
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Marcela Campos

Tão encantada com as possibilidades da vida que tem um pézinho aqui e outro acolá – é jornalista pela USP, professora e instrutora de saúde reprodutiva. Modera uma comunidade de quase quinze mil mulheres e não tem preguiça de bater um papo bom.


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